Não foram fáceis, os dias em que partiste. São muitas as coisas que me lembro de interesse, poucas as que tenho a relatar. Se pudéssemos contá-las com os dedos apenas, talvez fosse mais fácil. Quem sabe.
Começou tudo por ter mudado a marca dos cigarros. Quando estou sozinho e penso nisso sabem de forma diferente. Mudei-os para a tua marca, e, nos dias em que estou sozinho.
Talvez ainda me lembrem de ti. Talvez ainda te possa sentir neles. A minha única homenagem a ti, isso e as lágrimas que chorei no primeiro dia. Também sou humano e existe ainda sensibilidade em mim.
Depois, as vezes em que me punha a fitar as coisas, sonhadoramente. Eram as vezes em que assomavas à minha memória de repente, e invariavelmente perguntavam, estás bem.
Morreste e o Verão chegou.
Por vezes pergunto-me, se não tivesses morrido. Giro as mãos muitas vezes, devagar, e, no ar revolvido em tons translúcidos, vejo a tua cara. Agora, estás longe. Parece-me que vou ter de aprender a viver com isso. Aceitar isso. Disseram-me que custaria a início. Bem. Eu diria que os tempos intermédios são os mais difíceis. Quando julgamos que ultrapassamos as coisas, temos ainda de saber porque é que o fizemos, e se o fizemos depressa demais. Ou devagar demais.
Se não tivesses morrido. Sei que a vida não pode ser fácil para sempre, a perda acompanha-nos para sempre. Mas ainda penso em ti, às vezes, nas tardes cheias de Sol, porque só em dias de Sol estivemos juntos e só em tardes de Sol dissemos o quanto gostávamos um do outro.
As coisas que uma pessoa se lembra. Farrapos de pensamento presos no fogo invisível das palavras. Decifrar o sentido de humor oculto da vida. Perceber que hoje, um dia de Novembro. Podia estar a chover, mas não está. Daqui a dois dias fazes seis meses. Seria tão ridículo se chovesse, porque não faria sentido nenhum.
Perguntar ao mar que não conheço, porque ter andado nele uma vez por semana não nos diz nada – o que achas. Trato-o por tu porque serás sempre um companheiro furioso, e gostava que me respondesses. Assim seria tudo tão fácil. Mesmo que quem diga que o mar
é só o mar, e que o que ouvimos do mar é mentira, e que a mentira está em nós. E ele de facto só ruge, não me diz nada. Ruge na voz primordial das coisas, diz-me tudo aquilo que sou e que fui e que penso ser na minha vida numa língua que não percebo. Na verdade, acaba por ter sempre razão. É o conselheiro perfeito.
Desprezo-os e pergunto-lhes porquê o medo de sonhar, ou imaginar. Se eles soubessem qual é a dor de partir. O porquê da perda, a estúpida equação da vida, que nos ceifa só pelo porque não. Amanhã serei eu e eles. A perda. Sentir-te novamente uma vez mais antes de partires e perguntar porquê. Ou desejar-te boa sorte, fica bem, a gente vê-se um dia destes por aí. Aparece quando estiver desprevenido, a pensar em nada. Sei que a partir de agora, será sempre assim.
Uma tarde fomos ter juntos ao C.C.B. Não é uma piada. Ou melhor, estava lá eu sozinho. Fui lá o primeiro sábado depois de teres morrido. Estavas ainda tão forte em mim. É que, tínhamos combinado esse dia, vermo-nos, com uns amigos. No jardim das oliveiras, a ver o Tejo passar ao fundo, dar uma volta por ali. Enquanto os exames não vinham nem tremiam ainda. Sabes... O dia estava esplêndido. Tentei escrever, quando cheguei a casa, com a dor.
Dezenas e dezenas de poemas. Chorei a tarde toda, à tua espera, a ver se vinhas. E vieste, mas não em corpo. Estava tão destroçado. Depois parei e fiquei a ver o pôr-do-sol. Claro que nunca poderias ter vindo. Aparecido. Mas esperei-te porque sabia que tínhamos combinado nesse dia.
E, a dada altura, convenci-me que estavas mesmo lá.
Não quero que morras em mim, como o Verão em que partiste morreu também. Mas tem sido tão difícil para mim. Fiz essa promessa, nesse dia. Não cuspi na mão esquerda nem me cortei e assinei com sangue, apenas prometi a mim mesmo que, no meu coração, nunca morrerias. Que poderia ter mais pessoas na minha vida, casar-me, putos, mas que nunca te esqueceria. A vida era tão boa para nós.
Ainda hoje não percebo. A casualidade da vida. Eras apenas uma rapariga qualquer. Morreste na mesma, escolhida talvez ao acaso como os gritos que demos na praia sem sentido – talvez para celebrar a nossa felicidade e o facto de estarmos vivos. Talvez não importe pensar nisso, mas a tua data aproxima-se. Talvez deva pensar sempre em ti e não só nos dias revestidos de algum simbolismo. Mas eu pensava todos os dias em ti. E, nessa tarde, decidi ir para a frente na minha vida.
Nunca mais estaríamos juntos e tudo o que imaginara, era mentira.
E nunca mais se repetiria.
Perder-te de repente foi tão, tão doloroso. Tão assustador. Sinto a tua falta, aqui, agora. No intervalo da noite que grita ao longe. Acendo um dos teus cigarros, mas nem por isso te sinto mais perto. Só dolorosamente mais longe. Sempre longe, nunca perto. Lembro-me dos poucos momentos em que passámos juntos, como se isso te pudesse trazer de volta. Eras Mariana mas para mim eras outra coisa. E ver-te. De novo e sobretudo.
Correr para ti devagar. Tentar sentir-te como quem morde com força um corpo entrelaçado.
Sabes… contigo aprendi a dimensão do amor. Não pelo facto de ter tido, ou pelo facto de teres sido especial. Não. Foi somente porque partiste, de repente. E eu nem me pude despedir. Partindo primeiro, antes de partires no meu coração – é engraçado. Assim me ensinaste a verdadeira dimensão do amor.
Nunca pensei que nunca morresses, aqui dentro.
Estou pronto para te esquecer. Suspirar fundo a e aceitar o dia de amanhã, que vem. Vai ser uma Sexta-feira, um dia como os outros. Se calhar volta a chover. Depois vem Sábado. E nesse dia não teremos segundas chances. Só nos poderemos despedir uma, e última vez. Nunca morrerás aqui, mas talvez possa fazer as pazes contigo…
E esquecer-te, derradeiramente.
Sei que entenderás. Chegou o momento de te esquecer e seguir em frente. Não és a soma de todos os poemas que te escrevi, nem de todas as lágrimas que por ti um dia chorei. Não és o espírito das noites em que pensei em ti por horas ao som de qualquer música plasmídica… mas quem me dera que fosses. Quem me dera que fosses a explicação possível para as coisas por que passei, as saudades derradeiras e dolorosas que tenho sentido. Os sentimentos novos que tenho experimentado.
As mentiras que um dia te contei.
Nunca te importaste e nada disso importa, no fim. A tua face ao negro e amarelo, numa fotografia que capturámos. Nunca mais verei de verdade a realidade dessa cara da qual um dia gostei. E que só aprendi a amar quando te foste.
Apesar de te esquecer, nunca deixarei de sentir a tua falta.
Partiste para a tua estrela, e deixaste-me sozinho no deserto.