domingo, janeiro 16, 2005

Lugar de mistério/exercício de vontade.

Será este um lugar de mistério ou apenas mais um exercício de vontade? Chegarei brevemente, assim que o meu coração fatigado me permita alcançar-te. Chegarei brevemente sem a certeza de ter quem me espere ou a mais pequena ideia do que farei quando te vir, se te vir. Um dia disseste-me que te assustava a minha terrível capacidade de esquecer pessoas, que receavas que passado um tempo, alguns anos, quem sabe, não mais me lembrasse de ti. E não te vou enganar, houve um tempo em que eu próprio temi perder-me. Mas sabes que não tens de te preocupar comigo, embora não o consigas evitar. Continuo a reviver cada palavra doce que te sussurrei como se a estivesse a germinar na minha mente neste preciso instante, e pergunto-me: Como poderia eu esquecer-te?
E as próprias palavras nunca perceberão o seu alcance. Sabes, vivi um período de espera que me pareceu interminável. Era jovem, mas tudo o que sentia parecia carregado de séculos de solidão. Senti-me velho, como se já existisse, tristemente, no tempo em que os meus antepassados ainda não eram nascidos. De noite, era assombrado pelo mesmo sonho de sempre, o brutal cliché do ancião barbudo que se isolou nas montanhas para não mais ser visto. Seria eu, perguntava todas as manhãs ao fitar o meu rosto cansado no espelho. Curioso, nunca consegui ultrapassar a ideia de que era com desdém que esse rosto me fitava de volta. E acho que sei por que razão chegámos a este ponto, tu e eu, sem certezas. E se me concedessem um desejo, por mais pequeno que fosse, desejaria que um dia pudéssemos apenas…acreditar. E, quem sabe, se não é isso o que estou a tentar fazer agora. É Inverno e a beleza parece ter perdido toda a sua esperança. Habito numa cidade onde o que se perde não mais será encontrado. Podia ser outra cidade qualquer, é verdade, mas sei o quão violento este espaço urbano consegue ser. E ainda tento compreender esta cidade, tento vislumbrar nos olhos das pessoas que por mim passam ou se sentam à minha frente no comboio, se têm algo que as guie. Talvez um dia incendeie esta cidade. E perdoem-me, por favor, por tudo aquilo que vos digo hoje. Por tudo aquilo que nunca disse e que temo nunca chegar a dizer. Onde está o futuro quando a única coisa que se quer é vivê-lo? É um tempo engraçado este que nos é apresentado. Sinto que não voltarei atrás. Sinto-o, apenas. Desencontrei-me com a minha paz interior no dia em que te vi partir indefinidamente. Mas há que resolver os problemas com os quais somos presenteados, cada um a seu próprio modo.
Confesso as minhas fraquezas. Sem querer parecer moralista. E pergunto-me, Quem seríamos hoje se tivesses chorado enquanto me falavas do que sentias? E se eu te tivesse dito, Não vás.?
Não vás. Pensei que parecesse mais fácil. Mas nunca foi. Se olhares com atenção verás que nada mudou. Foram tantas as vezes que tentei dizer-te adeus.
(Adeus, que palavra tão sublime, tão independente.)
Maior foi o número de vezes em que tentei afastar-me de mim próprio e de quem nunca deixara de ser. Como podes ver, este noite não veremos flores a desabrochar. Talvez alguém saiba onde se esconderam. Mas não nós. Parece que as memórias mais tristes nunca nos abandonam de verdade. Virá o dia em que me poderei reinventar. Tal qual uma máquina rejuvenescida. Como se o destino ou a pura casualidade tivessem estabelecido o preciso instante em que o coração começa a bater num palpitar desenfreado, como se tentasse libertar-se das amarras que o prenderam. E num segundo que mais se assemelharia a uma explosão, haveria mudança.
Miúdos como nós nunca tiveram a oportunidade devida.
De vida.
Direccionem os holofotes para a nossa ausência de preocupações, pois não nos importamos com o lugar onde os nossos corpos poderão descansar, se é que tal venha alguma vez a acontecer. E nós não nos importamos, de tão novos que somos. Tentamos apenas cimentar sentimentos frágeis para tanta gente. Mas para nós, sob o olhar atento das estrelas, haverá sempre uma resposta. Desconhecemos as regras, sem maldade. E o que isto tem de chocante é o facto de - se é que existem factos – sabermos que não há mais ninguém à nossa volta quando desejamos que assim seja. A inocência é o nosso tesouro. E se tentarem estilhaçar o secretismo dos nossos sonhos, sabemos bem que falharão. Acreditamos no nunca. Mais do que isso, acreditamos no sempre, se for sequer possível separar um do outro, mas deixem-me dizer-vos desde já, sem necessidade de eventualmente me voltar a repetir: as nossas falhas serão colmatadas com amor. A noite chegou para nos fazer recordar de quem somos.
Viemos reclamar o que nos pertence. Dinamitámos os nossos medos a partir do momento em que testemunhámos o nosso êxtase. E o sono não chegará até aos nossos corpos cansados enquanto houver algo por fazer. Minha querida, perdoa-me o termo se o achas demasiado corriqueiro, mas sentirei sempre a tua falta onde quer que vás. E talvez precise um pouco de ti, neste momento, porque certas horas mais demoradas parecem querer quebrar-me em milhares de pedaços e espalhar-me pelo planeta, criando um puzzle complexo. E o dia de hoje será a nossa desculpa para voltar a sentir a genuína blasfémia do nosso carinho, porque é pecado de que se trata. Novamente não durará muito tempo, mas será o suficiente, pois consegues fazer-me sentir que cada instante de companhia é eterno. Perdido em pensamentos e palavras soltas pareço conseguir perdoar toda a gente. E tu, serás a minha contraditória desculpa.
E já começo a ouvir o estalar titubeante dos nós dos dedos, num qualquer exercício de aquecimento prévio à construção da mais fulminante das melodias. E temos perante nós um problema de funestas variantes, pois apetece-me ferir mortalmente o silêncio e apenas…gritar.
Gritar.
E se tiver sorte, fumarei o meu décimo terceiro cigarro antes de parecer tonto. E quando tiver acabado, sorrirei com ironia. E se a mais pequena ideia de perversidade, então fará sentido, por muito chocante que possa parecer. E o frémito suave que o virar de página me permite ouvir, dá-me sempre uma certa noção de dever cumprido. De satisfação. Uma simples forma de dizer que hoje me sinto orgulhoso. E sinto. Por ti e por mim. Não me considero um contador de histórias, se calhar porque nunca o tentei devidamente ser. Caso tal venha a acontecer, prometo que sairei para a rua no instante em que terminar, olharei em redor onde quer que esteja e fingirei que não voltarei a repetir a proeza, porque é mesmo de uma proeza que se trata.
E caminho sozinho, em breve estarei contigo, penso. Acredito que sim e por muito que possa recear o contrário, não vacilarei. Pé ante pé, como se fosse uma criança a aprender corajosamente como anda. Até chegar junto de ti e carinhosamente te beijar a face, e de seguida os lábios. E o que tiver de acontecer, acontecerá inevitavelmente. E talvez seja esse o nosso mistério, a vontade de viver e de amar prevaleceu sempre.
E para sempre.


Pedro.


(Escrito na madrugada de 13/01/05. Munido apenas de papel, caneta e muita vontade.)

2 Comments:

At 16 de janeiro de 2005 às 18:48, Anonymous Anónimo said...

bem bem bem, pedro. aqui está mais "um inocente revólver para a eternidade". mais uma vez, aqui usas com mestria os tópicos que sempre te fascinaram na escrita: a noite, a lembrança de momentos passados, o sentimento em forma de amor muito suavemente referido, a intemporalidade do sentimento referido, uma solidão saborosa, por ter um pouco de angústia. comento este texto, não só por ser teu, mas por estar tão polido, tão perfeito para o que pretendia ser, tão brilhante nesse aspecto. temos andado ultimamente a postar coisas um pouco mais dúbias, mais verídicas, melhores, na minha opinião. e nenhum consegue eclipsar o outro, nenhum faz sombra ao outro. em suma, temos aqui pequenas obras, pequenas delícias breves que são pequenas obras-primas de dois gajos que um dia quiseram escrever um pouco mais.
e, é claro, se ainda não percebeste, parabéns.


João.

 
At 17 de janeiro de 2005 às 21:50, Blogger papiro said...

Olá Pedro e claro João!

Tenho que começar por te dar os parabéns por mais um momento de escrita extraordinário e também por dizer, que concordo plenamente com o comentário do João, quando ele diz que vocês quando escrevem não fazem sombra um ao outro, são duas estrelas diferentes que escrevem brilhantemente e que neste espaço, se completam. Considero efectivamente, este um espaço iluminado onde me sinto sempre bem-vinda, onde sei que me posso deleitar com palavras cheias de profundidade. Quando leio aquilo que escreves não consigo deixar de pensar numa frase que li algures, não sei onde e que dizia que os poetas têm que ser tristes e principalmente sós, de uma tristeza que dói. Não te sei dizer onde, nem em que palavras mas é com esta sensação que fico, muitas das vezes, quando leio o que escreves! O que torna as tuas palavras como alguma coisa de muito precioso.
Acho que já me alonguei, se não for nada disto peço desculpa, mas já dizia o Poeta, Sentir? sinta quem lê!

Muitos beijinhos

Vânia

 

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