Fossanova e afins
A música providenciará o chamamento. Seremos novamente rebeldes a partir do instante em que se tome consciência das nossas falhas e não fará sentido, como fez em tantas outras vezes, adiar a brutal essência relativa à feroz noção de vazio. No dia em que percebermos que uma bala pode desfazer tudo num segundo, saberemos então que pautamos todo um incompreensível caminho através dos tempos, percorrendo cada ano como o anterior, envelhecendo apenas porque se envelhece e não porque somos algo mais. E se podemos conseguir, apenas com a força das palavras e dos gestos, mudar toda uma existência, então será definitiva a ideia de que até teve um certo propósito tentar. E eu quero tentar, saber que neste dia me cansei sem ter sido em vão, saber que para sempre haverá algo por dizer e lamentarei apenas se ninguém se levantar dos escombros para dizer, Estou aqui, vou contar-vos a minha história.
Ontem, no comboio, vi uma mulher que deveria ter cerca de quarenta anos tirar da mala um pequeno livro, de capa vermelha, cujo titulo era apenas: Como acordar feliz. Ironicamente, pareceu-me triste todo aquele cenário de viagem urbana. Alguém talvez tenha acreditado um dia encontrar a receita da felicidade num livro diminuto. Engraçado, também eu me senti diminuto.
Também eu me senti humano.
E é de todo sinistro julgar que estou isento de tão dissimulada forma de demência. Nunca se sabe ao certo se o que se teme é a própria realidade ou a tomada de consciência da nossa própria fragilidade. Ainda não sei ao certo o que se deve ou se pode fazer quando há pouco a dizer. Confesso que geralmente estou do outro lado da barricada, tenho sempre muito a dizer, mesmo que pouco esteja a fazer. Talvez tenha sido a minha forma de, inconscientemente, camuflar a falta de certas aptidões. E eu sou inapto. Ou tenho sido. Ou poderia sê-lo. Ou estou apenas confuso (e com um pouco de sorte e ironia à mistura , também quem me lê). Mas ok ok ok. Faz sentido até certo ponto. A verdade é que por vezes não sei ao certo se é de alguma maneira plausível a ideia de que tenho algum jeito para isto, whatever that means.
Fossanova* tem inicio:
Se sorrires talvez venhas a lavar a sujidão impregnada nos espíritos imundos que povoam a crosta terrestre. E dá-me a mão, dá-me um estalo seguido de um beijo, podes tornar-me humano, obrigar-me a ser melhor, ajudar-me a perceber a ternura que nos consome docemente. Vem comigo. E com algum esforço seremos imunes à morte do amor. E se se trata de sorte acho que nunca saberemos, mas não deixes que isso tenha importância, nunca quis teorizar algo assim. É essa a minha filosofia: assassinar a razão, escondê-la de determinados sentimentos, pois tenho receio de que os venha a tiranizar. E às vezes questiono-me, que acontecerá aos sonhos quando são esquecidos? Será, porventura, uma espécie de morte prematura. E é esta a minha tentação exótica, idílica, elitista até, quem sabe. Talvez seja esse o preço a pagar pela poesia. E terei todo o prazer em pagá-lo, em tentá-lo, em satisfazê-lo, sem barreiras ou patéticas restrições. E pode ser que assim se percam as contradições...calmamente. Ou, pelo contrário, se criem mais e mais contradições, novas dúvidas, ferozmente, com uma música cheia de charme e sensualidade a acompanhar. E sim: há novas ideias, elas nunca param de surgir, caso contrário será a morte do criador, do artista, por esquecimento e falta de audácia.
Confesso que por vezes não paro de escrever com receio de que as palavras me fujam.
E mesmo assim nem sempre consigo.
Mas tragam-me o vinho num copo gelado, desligarei a televisão e no ar carregado de nicotina e vozes cansadas teremos dois dedos de conversa (mas que raio de expressão me vem a ser esta??)e há que saber definir o centésimo de segundo ideal para esconder o embaraço que nos fulmina a cada vez que tentamos ilibar-nos dos nossos vícios de emoção e sentimentos. E como pode um homem lidar com a sua dor sozinho? Mas deve-se aproveitar o beijo gentil, deve-se saborear cada batida do coração como se não houvesse seguinte – com estilo e presença de espírito seremos cada vez mais humanos.
E quem entre nós acredita que é possível? Desta vez, por favor, quando colocarem a mão no meu ombro em gesto de compreensão, não assumam que voltarei a dormir sem ter feito um último esforço numa corrida pela liberdade de sensações. Quais serão as esperanças que a vida roubou, perguntou um dia Sérgio Godinho. Que é que foi que ele disse? Ah, já sei “hoje soube-me a pouco”. Engraçado, também a mim, meu amigo.
Mas voltando ao frenético momento até ter sido interrompido – é o que acontece quando se escreve à mão e depois se quer passar tudo para o computador para vocês lerem.
(Pausa).
Respiro fundo.
E serei o meio que me envolve. E hei-de formalizar as festividades sanguinárias projectadas incandescentemente pelas imagens televisivas, que mas vão cuspindo contra a face. Se as cores já me tornaram cego, talvez seja altura de dar espaço à loucura para fazer o seu famoso número por entre símbolos e expressões imperceptíveis ao raciocínio comum.
De um grito farei um poema.
Lavarei do corpo as incertezas. Diremos, em uníssono, Nós existimos. Reconhecerei os planos que havia feito milénio antes e com um sorriso escorreito nos lábios, de plena perfeição e destreza e harmonia, eventualmente farei a tão famigerada questão, Quem foi que matou a nossa humanidade.(?) – E esta última, a humanidade, digo, já de si triste, perderá as suas forças de tão ínfimas que eram e...talvez ainda seja um sonho
E porquê?
De olhos bem fechados e mãos enregeladas tentarei agarrar as estrelas segundos antes de me perder num espectáculo cruel e psicadélico. Serão drogas mas não só. Serão receios mas não só. Silenciarei.
Quebrarei., ou melhor, sejamos ambiciosos, quebranterei a máscara que me sustém antes de dar o fatídico suspiro. Finalmente verei a tão afamada luz branca de que os antigos (e alguns presentes) falavam. ... E começará a chover durante anos a fio. Serão os deuses a tentar dissimular o sangue adormecido no alcatrão negro. E será solidão. E não mais parará - por muito que se queira retardá-la – a madrugada do fim dos tempos. E é transcendental. E é um sinal dos crimes cometidos no passado. E se algum dia houver esperança de salvação, é hoje que ela começa. Aqui e Agora. Até ao último homem...ou mulher, for that matter, cair sob os seus joelhos, cedendo. Estamos a poucos metros do precipício e queremos andar, a poucos minutos do desespero final e o tempo não pára – somos presa fácil perante os infortúnios da vida. E alguns de nós encontrarão no amor mútuo uma resposta, o qual é, em última análise, a grande droga. Com d maiúsculo. Ah como me saberá bem perceber os desígnios do destino quando chorar. E chorarei. Algo petrificante. Perdido e inquebrável, ou, novamente, inquebrantável. Algo sem nexo. Algo...humano? Escrevo textos magoados para aliviar a dor, é essa a minha triste verdade. E foda-se que bem me sabe. Notável, sem dúvida. Notável como qualquer dissidente foragido por vocação, como qualquer aperto de mão entre amigos, como qualquer Che Guevara supra revolucionário, como qualquer pseudo-intelectual no canal A Dois, o do governo.
Mas que se calem de uma vez por todas os profetas que, como eu, insistem em falar. Que os escorracem como os cães que são. Quanto a mim (finalmente, dirão alguns), ficarei em silêncio. Sensata e inexplicavelmente bem – em silêncio.
Por fim, Perdoem-me.
*( Fossanova é o titulo de um álbum de uma banda portuguesa chamada Belle Chase Hotel. Escolhi plagiar o titulo porque ainda hoje não percebi o alcance deste – do mesmo modo que não percebi o alcance do que escrevi, mas também raramente percebo esse – de qualquer maneira se alguém me souber dizer o que é ou quem raio é Fossanova, por favor que me avise, ou só tenho uma estúpida ideia. Todo o “fossanova” – texto – foi escrito a ouvir esse álbum em modo aleatório, a referência a sérgio godinho surge no momento em que passava a computador o texto e ouvia determinada música dele, descubram vocês qual, sinceramente acho que até tinha explicado no texto o que se passara, mas bem, pouco importa, estou cansado.)
Pedro.

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