quarta-feira, janeiro 05, 2005

Lisboa sem ti.

Conquista-me –

Agora que a relatividade subjacente à poesia
nos permite viajar.

Sei o que queres fazer.
Tornaste-te o sol que me deu vida
e se pereci
foi por saber que não brilharia sem ti.
Desci a avenida da liberdade em silêncio
com um sorriso na cara
recordando a conversa da noite anterior.
lembro-me de como repetira para mim mesmo
tudo o que te queria dizer
como se temesse perder-te
por dizer a palavra errada.
Talvez tenha apodrecido
enquanto explorava lisboa suja.
Em momento algum
identifiquei a minha face nas vitrinas -

(sabia que não te podia ter
pois os sonhos não passam disso mesmo)

Vigiei a cidade nocturna
bem do alto da minha existência.
Havia sinos a tocar
e o tejo parecia prolongar-se até beijar as estrelas.
Testemunhei nas suas tristes águas
tudo o que havia perdido.
Vi os dias passar sem ti naquela noite
senti a entediante leveza de sensações precárias.
Sabia quem eras
mas já desconhecia o meu nome.
Quis navegá-las
às mistficações de almas perdidas
que um dia me haviam falado.
Afiei a navalha no lancil do passeio e
quis ressuscitar sem saber como fazê-lo.
Sentei-me no último banco que restava
junto à berma da estrada
o único onde não dormia ninguém

Escondi nas mãos o rosto
que já não via como meu
e esperei pelo fim da noite
na esperança de que voltasses até mim
sem receio ou alarido.
Ouvi a sirene que se afastava
gritando
e apercebi-me de que não te voltaria a ver
e de que jamais sentiria o teu toque subtil
por uma última vez.



(Pedro)

1 Comments:

At 7 de janeiro de 2005 às 18:38, Blogger papiro said...

Pedro,
sei que pode parecer repetitivo, mas a verdade é que tens efectivamente o dom de me fazer viajar através das tuas palavras para essas imagens que queres transmitir. Mais uma vez, como sempre, gostei muito deste teu poema.

Muitos beijinhos e bom 2005.

 

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