A Cidade.
Quero falar da cidade. Deste grande animal devorador do qual faço parte, e do qual não consigo amar.
Estranhas visões morte-sonho projectam-se-me entre as sinapses frias do meu cérebro.
Eu vi.
O verdadeiro sofrimento entre sangues de fogo lento em chamas laranja, entre os pedintes mais lúcidos do que eu, com os seus olhares de cristal musical, incorpóreo. Quero falar da cidade, é preciso. Alimentada com chuva azul e negra em noites maiores do que a própria vida quando vividas sem dormir.
A cidade.
Corpo estranho no seu próprio mistério por definir.
Começo agora, dentro dela, a tentar decifrá-la. Atravessando todas as ruas na sua penumbra cor de chumbo, um castanho cor de ferrugem contrastando com o céu cinzento das imagens já não utópicas de blade runner. Bandos de homens esfomeados fazem companhia aos cães danados e fantasmagóricos, sempre calados, sempre sem ladrar, que de noite capturam pessoas e devoram sem deixar um único rasto, apenas uma poça de sangue no chão.
Nos bairros de lata, a vida recria-se ao som cortante do vento a bater nas chapas de zinco; e a cidade chama as criaturas esfomeadas com as suas promessas de fumo e de uma vida difícil recompensada com dígitos suados e artificiais numa conta bancária.
A cidade cresce, como um vírus, nas tempestades de pó quando não chove, e cria prédios de lama quando as chuvas arrastam os caixotes do lixo e entopem os escoadores, que contam mitos urbanos que nunca ninguém teve a coragem de tentar decifrar.
A cidade. Como uma garra de muitos dedos vertical, devorando tudo à sua volta. Somos os seus pequenos seres no seu organismo, parasitas, fervilhamos na sua crosta e apodrecemos, até nos deixarmos levar por ela.
Eu sei. Eu vi tudo isto em formato estéreo, de phones nos ouvidos, no início de dias fratricidas e noites sem alma povoada por sombras de humanos e monstros de aços, criaturas da noite, que penso que nunca vi de dia.
Uma selva quadriculada sem ninguém que lidere o topo da cadeia alimentar.
Saio todos os dias para decifrá-la, percorro ruas e vejo imagens e frases aguadas presas nas paredes de tijolo com verdades lúcidas e absolutas, desenhos inconcretos e poças de sangue e vomitado no chão, nuvens de fumo que nos fazem sentir demasiado duros, perros e presos às fundações da nossa própria criação. As pessoas não me sorriem e eu não sorrio a elas. E quando tento sair da minha cidade, entro noutra, aprendo a amar as diferenças mais abismais de cada fileira de prédios iguais de mais, as suas cores mortiças, o seu desespero constante em querer tocar no céu o mais alto possível, um mundo sem sentimentos nem qualquer tipo de coração.
E isso excita as pessoas.
A cidade é antes de mais uma criatura, um organismo vivo, como recifes de coral. A cidade é tudo. É a personificação degenerada da tentativa de se aperfeiçoar fisicamente do homem, através dos seus prédios secos como estacas de madeira no deserto, ruas ácidas de pavimentos rachados e esburacados, empedrados oleosos onde mendigos dormem o sono dos injustos. Portos cinzentos onde o mar, e o rio, abraçam um porto de água amarga e escura ou um areal feito de construções de restos dela própria.
E venero-a. Venero-a justamente por causa disso, pela moldura humana que representa. Pela minha própria face reflectida em cada pessoa, parede com escritos, rua, cão, morte, prédio, poça de sangue, resto de vómito, poeira nos olhos quando não chove, óleo e fumo na chuva quando ela cai e eu desprotegido, frio quando se abre aos ventos frios, ou calor abrasivo quando o Sol castiga-a impiedosamente, e árvores não existem porque a cidade as devorou.
Odeio-a.

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