Não há garantias.
Aproximo as mãos trémulas lentamente da lareira para me aquecer um pouco. Mudei-me para esta velha casa onde em tempos viveram meus avós porque morrerei dentro de dias. Não estou doente – nunca estive. Há três meses atrás voltava a casa pela mesma estrada de sempre, olhava para os carros que todos os dias faziam o mesmo percurso de regresso à sua vida familiar. Um rebanho de gente cansada em mais um final de tarde cinzento. Olhei pela janela do carro. À minha direita, uma miudinha que não poderia ter mais do que cinco anos, de cara sardenta, fazia-me caretas despreocupadas. Apeteceu-me sorrir. Na rádio ouviam-se as noticias de mais um dia de quedas na bolsa, de acidentados não muito longe dali, de políticos cheios de ideias, de mais um atentado terrorista, das vitórias e derrotas no futebol; e apercebi-me de que não mais sairia daquele cenário, de que estava eternamente preso. Desliguei o carro e as vozes na rádio pararam de falar. Saí. Fechei a porta e senti ligeiros olhares à minha volta de quem estranhara a minha decisão. Não me importei – sabia que também eles pouco se importavam. Olhei novamente para a miudinha que ainda há pouco me fazia caretas. Sorri-lhe. E fiz-me ao caminho. Cheguei a casa era já noite cerrada. Passei as horas seguintes acordado a queimar as últimas cartas que recebera alguns anos antes. Já não havia razão para ficar. Deixei a chave na porta, podia ser que alguém precisasse de dormida e encontrasse ali um refúgio. Respirei fundo...e parti. Houve quem lhe chamasse rapto. Loucos houve que lhe chamaram magia. Sempre tive alguma predisposição para acreditar um pouco mais nas palavras de quem não se rege pelos padrões habituais a que aprendemos tão inconscientemente a designar por sanidade. Estava sozinho e podia fazer o que quisesse, mas não havia grande coisa que me apetecesse fazer. Podia ter chorado, podia ter implorado, Por favor, não me deixem partir. Mochila velha às costas, pouca roupa guardada, alguns objectos pessoais, um leitor de cd’s, alguma música, uma caneta, algumas folhas, um maço de tabaco, um isqueiro, algum dinheiro e muita tristeza no corpo. Durante duas semanas caminhei sem destino definido. Pela primeira vez senti que tinha, de verdade, um objectivo. Disse bom dia às poucas pessoas que por mim passaram e eventualmente cheguei à casa dos meus avós que tinha agora um aspecto abandonado, a mesma casa onde passei alguns verões da minha parca infância. E lembro-me do quanto adorava correr, rir, jogar à bola, tocar à campainha de alguns vizinhos na companhia dos putos que comigo se aventuravam pelas ruas da aldeia, lembro-me de como nos divertíamos a ver o velhote de barbas que irritado nos perseguia, a quem inocentemente chamávamos de pai natal – ainda hoje acredito que ele não via maldade nos nossos actos e que docemente se divertia connosco, brincando ao faz de conta, no papel de vilão. Encontrei no sótão da casa a velha bicicleta vermelha que me tinham dado por altura dos meus anos, por ter tido boas notas. Sentei-me com algum custo nela e fui pela aldeia, pedalando durante alguns minutos por entre as ruas desertas. Parece que ao longo dos anos as pessoas foram partindo em busca de novos endereços e que aqueles que ficaram, cedo ou tarde, morreram de solidão. E senti-me só. Já em casa, tentei ainda espreitar de relance pela janela na esperança de que nas estrelas ou na lua cheia encontrasse alguma companhia. Mas já era tarde. Durante as semanas que se seguiram estabeleci nova rotina. Levantava-me cedo e ia para o quintal cuidar da laranjeira que o me avó lá colocara com tanto apreço poucos dias antes de falecer, o resto do dia era passado a tentar consertar o soalho, a pintar paredes, a recuperar mobílias, a tentar dar nova vida à casa, a tentar construir harmonia num cenário de desolação; já de noite, sentava-me junto à lareira para escrever no diário que ultimamente se tem sido o meu consolo nas longas horas de frio mais intenso.
Certa noite terminei a obra. Com orgulho observei a casa e o brilho que agora decidira lá morar. Porém, senti-o novamente, o mês vazio que me havia trazido até tão longe. Constatei a minha verdade: não poderia fugir de quem era. E o meu destino já está traçado. Uma decisão sem pompa nem circunstância, uma simples opção de vida. Dentro de dias, quatro ou cinco, não mais, subirei ao sótão onde o cenário da minha execução já está montado. Subirei para o cimo de um bano de madeira e à volta do meu pescoço colocarei a corda que me levará até à eternidade. E por fim, num sulco, num impulso, num momento, num centésimo de segundo, darei o último balanço e sentirei o meu corpo dormente cair por curtos instantes que mais parecerão largos minutos, e já não sentirei o pescoço partir se tiver sorte. Não sufocarei, quebrarei apenas. E poderei, por um dia ou para todo o sempre, se possível, deixar de sentir dor, deixar de me sentir só, deixar apenas de sentir. E pode ser que desta vez tudo faça sentido. Mas...
(Pedro)

3 Comments:
Gostei muito do texto. Faz-nos pensar em muita coisa... Não vou fazer um daqueles comments banais pk penso k n queres nem precisas d + 1... Apenas folgo em saber k tanto tu como o Joao continuarão a escrever coisas brilhantes. Muitos parabéns a ambos. Peace <>
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Bonjour, narizempinado.blogspot.com!
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