O Nada.
Estou prestes a fazer o exercício mais benéfico e mais incrível na minha parca carreira de escritor, e cujo resultado determinará, somente, se sou de facto um génio literário (e não, um génio, atenção, pois a cada dia que passa a universidade me faz sentir mais estúpido), ou apenas um aspirante a tal condição. O momento, deve-se dizer, parece perfeito, o que equivale a dizer - comum, como todos os outros, pois este é um teste que não deve ser realizado sob qualquer - nenhuma - condição especial.
Devo pedir desculpas pois quebrei o fio de raciocínio, parei por uns momentos. Levantei-me, fui buscar bolachas, estava com fome, no fundo isto não é uma excepção, vou retomar onde parei. Dizia eu que isto que faço não deve ser feito sob nenhuma condição especial - mas, se estiver cansado, ou exaurido (ui que bela palavra, que sarcástico eu sou), apenas me será dado um bónus pela perseverança e força anímica por ter conseguido o que de facto consegui. Esta introdução está a ficar longa como o caraças.
Única excepção…? Ouço uma música agora que considero bonita, a sparks, dos royksopp ou lá como se chama o grupo. Excepção? Sim, as músicas belas em algumas pessoas (ainda bem que eu não sou excepção) conseguem criar um torpor e uma moleza sentimental que as leva a diferentes voos prosaicos, ou poéticos, não direi mais altos. Mas estou confiante que isso não poderá ser razão para me afectar - esta música, também, já acabou tantas vezes em mim, e em mim morreu tanta vez, que não causará assim um grande efeito por aí além. Digo isto - e terminou agora mesmo. Escrever demora mais tempo, é um exercício mais lento, do que se pensa.
Erase/rewind.
É necessária uma explicação? Absolutamente. Completamente, diria, se estivesse a falar sobre uma rapariga entre o loiro e o moreno. Esta é uma teoria que me tem acompanhado (e todos os meus textos), e que, juntamente com a minha confiança quase arrogante neste mundo da escrita tão complexo ás vezes como um bocejo, me permitiu desbravar sem medos todos os horizontes da escrita, pois usando a confiança como arma, sei que nada que farei poderá se considerado menor que bom, certamente não medíocre.
Explicação, então: sempre fui um defensor daquilo que considero ser "a máquina lírica". A história pela história, trejeito de desdém agora na minha face por favor, ainda chegará o dia que farei alguma assim, um livro pela história, apesar de todos os livros contarem uma história, hum? Ainda chegará o dia em que farei um livro sem história, mas não um simples livro sem história - um livro sem história que ultrapasse os outros. Ideais utópicos de loucura? Não importa, são os loucos que fazem mover o mundo, certamente não vocês. E, se de louco tenho algo, também tenho uma quantidade de sanidade suficiente que me permite, sempre, apenas verter, e digo bem, verter, a minha loucura para o papel. E, se é essa a desculpa que querem dar, se é essa a explicação plausível que querem criar (que maçada, nós, necessitarmos de explicações para tudo.!), então chamem-me louco à falta de palavra ainda por inventar, chamem-me génio com o risco crescente de levarem uma reprimenda minha se eu estiver por perto. E o que é a máquina lírica?
Memory. Decerto me imploram calma, por favor vai mais devagar, quero um texto mais simples e delicioso, a que seja fácil deixar um comentário para ficares feliz, e eu ficar contente por ver que é preciso tão pouco para te deixar satisfeito. Mas falava-vos eu da máquina lírica, o que é…? A máquina lírica é, a meu ver, a capacidade de escrita do escritor, que obviamente abrange tudo na sua escrita. Tirando, talveeeez… a genialidade de se saber todos os ingredientes para se contar uma boa história? Muitas vezes andam de mãos dadas com a simplicidade fútil dos romances light. Tenho pensado nisto desde os meus 14, talvez 15 anos, quando li, e a leitura, meu Deus, que não acabava, O Ano Da Morte De Ricardo Reis, de José Saramago, que como todos sabem era um heterónimo de Fernando Pessoa (digo, Ricardo Reis. Saramago é talvez o escritor que Pessoa gostaria de ter sido, obviamente a nível prosaico). O livro, o meu preferido do autor, é absolutamente uma palhaçada total. Escrito a meio da carreira, Saramago confronta-se com uma ideia quase sem história… e não era fixe se tipo, portantos, o Pessoa morreu, mas tipo os hum heterónimos perduravam ao gajo, tipo porque, e se eles tivessem sido sempre reais, mas sei lá, haaa, de qualquer maneira sobrevivessem a Pessoa mas fossem criações que tomaram vida a partir dele? E depois acabassem por morrer também? Alberto Caeiro está morto, claro, restam Reis e Campos, que nem sequer aparece, o corno, acredito que animaria muito o livro, e Alexander Search, esse, parece ter sido esquecido por Fernando Pessoa, bem como Bernardo Soares, que direi, contrariando e inflamando muitas opiniões, era talvez o mais interessante heterónimo de Fernando Pessoa, com o seu Livro do Desassossego. Reis então chega do Brasil, para onde tinha ido num rasgo de genialidade ridícula pessoana regada certamente com muito ópio, para exercer a sua função de médico, de barco, claro, apanha um táxi, mete-se num hotel, onde conhece o porteiro e uma empregada chamada Lídia (ironia, ironia) com a qual vai ir para a cama, e no dia seguinte vai ver o túmulo de Pessoa. Dias depois, ainda no mesmo hotel, regado por uns capítulos onde conhece alguns convidados e estreita, mas tudo muito difusamente, as relações com as pessoas que conheceu (um advogado, penso, ou jurista, e uma mulher loira que não mexe a mão esquerda, ou melhor, o braço na sua totalidade, pela qual acaba por se apaixonar, mas de forma tão "triste"). Capítulos depois, talvez uns dois ou três, aparece Pessoa no quarto de Reis, quase desafiando parodicamente o leitor que Pessoa é menos real que Reis, afirmando-lhe que ele, seu heterónimo, tem somente nove meses de vida antes de partir, para se despedir das coisas e pessoas que mais ama, mas sabem, Pessoa era um frustrado de merda, bebia e drogava-se para esquecer a infelicidade da vida, porque não tinha nenhuma: cometeu, aliás, suicídio algo directo-indirecto quando soube pela boca do médico que, se bebesse mais um copo de álcool, era o fim. Fechou-se no seu quarto, com uma garrafinha de ópio, e bebeu durante uma tarde inteira, queimando os últimos cartuchos de uma vida decadente que ninguém, nem ele, tendo sido o melhor aluno do seu colégio em Inglaterra, sonhara ter. como tal, os seus heterónimos são… tristes, como ele. Álvaro era a total tristeza, Caeiro, porque camponês e solitário, morreu cedo, Reis era um paganista falso escrevendo a uma Lídia idílica, e Bernardo o ateu total, não acreditando somente em Deus, mas também nas pessoas. Reis não tinha sequer pessoas que conhecia, Pessoa não as criou, e Saramago vê-se, supostamente, preso numa armadilha que ele para si mesmo criou. O seu livro acabou aqui, o que é que um homem, que não teve ninguém nem nunca se pensou ter, e era quase uma cópia da personalidade de Pessoa, iria fazer durante nove meses (nove meses.! Relembro que o livro Sombras de luz difusa, por exemplo, tem apenas a duração de três dias e meio, penso eu, já nem eu próprio sei bem…ridículo.). mais importante, como iria Saramago escrever sobre esses seis meses.
Se ele, pelos últimos livros que fez não merecia hoje o Nobel, por aquele e obra anterior, já o merecia certamente (ninguém me convence que há um único livro mesmo bom dele depois de Todos Os Nomes, polémicas políticas à parte). Saramago é aqui um mestre, brilhante, evoluindo e usando a sua técnica escrítica, de prosa rasteira e virgulada, muitas vezes mesclando-se com as suas próprias teorias filosóficas sobre nós mesmos, para contar uma história sem história, relatando, quase dando-nos uma bofetada página a página que passa, mostrando que o está a conseguir, e a superar todas as expectativas, da vida deste heterónimo que nunca a teve. Reis vive de facto os nove meses, dá umas voltas por Lisboa, encontra Pessoa mais um par de vezes, vai a Fátima um dia, volta, e compra uma casa nos últimos meses da sua vida, que habitará sozinho, se não contarmos com visitas ocasionais de Lídia, personagem a quem Saramago nem atribui especial destaque. No fim, Pessoa aparece para o ir buscar, deixando uma Lídia grávida, para ir dar uma volta por Lisboa. O grandessíssimo filho da puta consegue, assim sem mais nem menos, usando só o seu génio, criar o seu melhor livro. E que ninguém diga o contrário, que ninguém diga que é o Memorial Do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ou o Ensaio Sobre A Cegueira (talvez A Jangada De Pedra, não?). É este, somente - somente, atenção! - pelo génio de Saramago, que consegue tornar, juro, interessante, interessantíssimo, um livro sem história, recorrendo apenas à sua escrita. Palmas.
Foi uma das maiores lições de vida para mim enquanto escritor, se é que me posso chamar tal coisa - todos os homens são escritores. Percebi que o que faz um bom livro, um bom escritor, não é a forma como conta as histórias que relata ou as histórias em si - a ideia pode parecer óbvia, mas é somente a forma como escreve. Só, e nada mais. E o que torna um livro bom é em última analise também isso.
Ou seja, a ideia é escrever um post que não fale de porra nenhuma, mas que seja interessante só porque está bem escrito… entenda-se. Todos somos levados a fazer coisas incríveis, ou pouco plausíveis, somente pelo porque sim; extremamente politicamente incorrecto, é isto… palavras, amontoado delas, sem expressão nenhuma, apenas a génese dos meus próprios pensamentos desinteressantes, escoados para sítios menos próprios de tudo o que se situa dentro do meu crânio.
No fim, tudo o que sobra é um desalento incrível, acreditem. Como se nunca iremos ser bons, ou bons demais. Apenas paranóicos.

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