segunda-feira, dezembro 06, 2004

Salinas

O poema que se segue não precisaria de explicações, porventura, pelo simples facto de não o ter feito com os meus outros poemas. Mas talvez a moda tenha pegado, digo, moda… com o meu amigo Pedro, que explicitou de forma tão boa o poema “A Casa De Roxo”, e talvez porque a música que ouço me permita a outros devaneios prosaicos, que me façam, hum… digo:
Afastar-me, talvez, só um pouco da ideia inicial desta explicação, para poder dar largas ao amor, para fluir… talvez seja necessário.
Escrever coisas belas talvez nunca tenha sido considerado crime.
Este poema é só mais um poema como outros meus, pelo menos à primeira vista. Não é, decerto, o melhor, talvez não seja dos melhores, é apenas mais um filho. Criei-o, como crio tantos dos meus poemas preferidos, depois de uma febre de noites a sonhar, como se o meu cérebro me desse pistas para encontrar este poema na minha mente. Quando o acabei de escrever, apercebi-me que o tinha visto, que ele se tinha formado em mim, enquanto, há coisa de dois, três anos atrás, fazia zapping, e apanhei, apenas difusamente, por cinco, sete segundos, imagens de um documentário sobre as salinas do rio Tejo. Anos depois, as imagens que capturei começaram-me a aparecer em sonhos, a picarem-me o cérebro enquanto não pensava em nada, e não conseguia dizer o que era, lembrava-me dessa ideia dessa paisagem, e é como se de facto estivesse lá. Escrevi o que sentia, e finalmente me lembrei. Estes são dos poemas mais incríveis que se me afloram. Sonho com eles, perseguem-me como se tivessem vida própria, e finalmente capturo-os no papel.
Considero-os poemas à parte. Primeiro porque, geralmente, são poemas feitos a partir de imagens, ou fotos, ou lembranças dispersas que um dia pensei ter esquecido e que de repente, anos depois num sonho, relembrei, e referem-se geralmente sempre a paisagens. Não sei… considero-os diferentes, e não tanto pelo estilo poético, que, como se sabe e já pode ter sido aqui observado tenho muitos. Este poema é então uma paisagem. Não amorosa, não glamorosa, simplesmente a lembrança de uma paisagem. Sem grandes demoras, é com orgulho (porque é de orgulho que se trata, em relação a este particular poema) que vos apresento a obra, Salinas.



Chegaste
Mesmo a tempo de desintegrar
esta paisagem toda
de sal exóneo como uma brasa
Que se estende por todo o comprimento do meu braço
De fogo seco, e
fátuo
é uma chuva de luz castanha, uns
;intervalos
entre duas ou três palavras que proferimos
a bem do ritmo
Loucos
Sal em
Montanhas trepam
por essas erectas estruturas larvais
como saliva esfomeada. Mas eu
Vi
Sereias com bocas de insecto
a cantarem a sua cegueira de queimadas,
abrasivas rainhas; festins em tempos nocturnos
fantasmagóricos e húmidos de azul escuro, pesadelos
como gritos ao longe neste local
abandonado
homens de bigode e anciãs que irrompem
deste chão de lodo, destes
favos de saliva e desespero
fundidos: lagos
de água podre onde fénixes
morrem
como construções humanas.
Como humanos…
Castelos, só
e nada mais.



De sal.




Ao som de Azure Ray


00/38/01/02/11/04

3 Comments:

At 6 de dezembro de 2004 às 20:52, Anonymous Anónimo said...

excelentissima senhora dona buracona says:
Quero que me venhas ao ci. :DD***

 
At 9 de dezembro de 2004 às 10:21, Anonymous Anónimo said...

Oix eu sou o Ankh... ponho isto em anonimo porque pronto caga nisso... vamos directos ao assunto, eu sinceramente aprendo com os meus erros, e com os dos outros, por isso não vou cair no erro de te avacalhar, mas digo-te isto para ficares a pensar:
Não sou melhor que tu, nem pior que tu sou diferente, escrevo de uma forma que ninguem escreve, sou divertido e controverso e faço poesia para me divertir e só isso. Ao ler o que escreveste só te digo uma coisa ABORRECIDO e sem nada de novo, fazes coisas do mesmo genero que já foram feitas. Mas deixa estar, no que fazes és bom, mas agora a relatar os teus pensamentos em relação ao mundo que te rodeia em forma de poema, como eu faço, não tens a minima hipotese perante mim, somos demasiado distintos para sermos comparados um ao outro, é como comparar um calhanbeque (algo velho e já batido) a um Formula1 (sendo algo topo de gama, novo e irreverente). Tu és minimamente esperto para perceberes que és o calhambeque não és?
Mas não desgostei do que escreveste apenas não faz o meu género.

 
At 9 de dezembro de 2004 às 20:16, Blogger Navalha said...

ank antes de P e d B coloca M... foi das primeiras lições que aprendi na escola. calhambeque, ok? e não calhanbeque. miúdo, vai ler mais poemas, e mais prosa... só com um poema, não vais lá em tecer uma crítica a mim, eu li o teu blog todo para o fazer. se achas que faço tudo igual aos outros, posso apenas dar-te a minha palavra que faço poemas novos e que nunca formafeitos - não são postáveis aqui porque sãode masiado complexos para o serem, e juro-te isto aqui. têm palavras por cima de palavras, letras invertidas, símbolos. mas é claro, eu sou só um calhanbeque.

 

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