sexta-feira, fevereiro 11, 2005

FIM

Tudo acabou. Já não vejo nada à minha volta e não pode ser do enevoado dos meus olhos. Não quero conceptualizar. Quero só despedir-me.
Acabei agora de fazer um telefonema que me tornou um pouco mais humano – aumentou a minha tristeza, o meu desespero, como eu já não me lembrara há muitos anos.
Daqueles que impedem um gajo de escrever decentemente.
Esta música não soará mais. Nunca mais me servirá de embalo para pensar em ti ao escrever o que quer que seja, a perda nunca mais será sentida. Só reavivada. Gostava de poder fechar esta minha obra como não consigo fechar a dor no meu peito, as lágrimas negras como petróleo que são espremidas pelo meu coração rasgado por uma faca farpada. Sem piedade, sem gozo algum.
Tudo parte. Nada foi o que sonhei, nunca.
A felicidade sempre me acenou de longe, nunca me pertenceu.
Talvez seja agora. Observo-me no limiar da noite, o limite do meu próprio pensamento, do meu próprio sofrimento, e procuro imaginar as vezes em que, um dia, imaginei perder-te. Imaginei reter-te.
Nada mais existe agora. Só eu mesmo, algo menos do que era quando te tinha.
Não quero escrever, nem sequer quero falar. Quero agonizar. Relembrar os tempos em que contigo fui feliz. Aprender a despedir-me deles sabendo que nunca mais vão voltar.
É assim, leitores do blog, devido a mudanças radicais nas nossas vidas, marcadas por uma perda, que Termina o nariz empinado. Pelo menos por agora…uns bons anos. Estou a pensar em um dia voltar, quando de facto já tiver perdido tudo, e me tiver tornado um estrangeiro de mim mesmo – para tentar reencontrar-me. Não estou a pensar, no entanto, tomar um rumo de vida que me faça por completo esquecer-me…portanto é de pensar que talvez este blog nunca mais venha a ser reaberto. Um ciclo que termina – é necessário, julgo. Onde está força para continuar? Agora que nos pedem que nos agarremos com força à vida, como podemos ter forças para fazer mais qualquer outra coisa… eu, pelo menos, procurei agarrar-me, nestes dias entre quinta e sexta… que foram longos. Sei agora o epílogo da minha própria história que criei a dois, já não vale a pena continuar mais.
Continuar o que quer que seja.
Lembro-me de quando comecei – nada, ninguém, escrevia para o vazio. Olho agora, e sei que, pelo menos, por alguma consideração, as minhas, agora nossas, palavras, chegam, são lidas, sentidas, o tópico não interessa, o que sempre quis era somente português puro. Sentimento. Poemas. Brilhantismos. Barreiras quebradas. Falhámos redondamente em tudo. Soube tão, tão bem tentar. E agora, no fim, os protestos que chegam são de uma só leitora, são dos nossos amigos silencioso que lêm mas não comentam, são de mim mesmo, também; que deixei a minha vida tomar este rumo. E, agora, o frio é tudo o que me resta, e a tentativa de alguma sanidade que dantes, porque era feliz, dava por garantida.
Tornei-me num filme mudo.
Um pedido de desculpas às pessoas que sensibilizei pelo meu último post. Só pretendia abanar um pouco as coisas, não dar a ideia que o nosso blog é só isto – escritos a puxar à lágrima imbecil e a histórias de cidades inventadas, confissões na terceira pessoa e aspirações poéticas um pouco medíocres. Mas, é claro, não resultou. Assim como a minha não resultou, quando tudo o que eu pedia dela era que me desse alguma (só alguma…) felicidade em troca.
Foi bom por uns momentos, mas agora sei que acabou tudo.
Adeus, leitores, amigos, desconhecidos. Vamos partir para um outro lado qualquer – não daremos a morada. E se falo em termos figurados, falo também de um possível novo site… feito por dois amigos que não percebem absolutamente nada de computadores. Quero que seja assim – começar de novo, esperar um ano ou mais ao menos assim, e ver o que mudámos de novo, em que pessoas nos tornámos, que projectos de vida realizámos.
O caminho a tomar é este. Um abandono, tal como nos abandonaram. Sem mágoas. Um abandono de nós mesmos, porque eu, pelo menos, já não aguento muito viver-me assim, ser-me assim. E sentir-me assim. Tomámos o erro de um dia sentirmos muito – agora pagamos todos os dias o que um dia tentámos ser e nunca conseguimos
Algo mais que simples seres humanos.
Obrigado por tudo. Um dia voltarei. Ou voltaremos. Eu, pelo menos, fá-lo-ei.
Mas esse dia não será hoje.
Adeus.





João.

domingo, fevereiro 06, 2005

O inicio do fim

Apenas algumas horas passaram desde a nossa última conversa e não consigo deixar de sentir que te vou perder. A saudade caminha de mão dada com a solidão e só agora que penso em ti me apercebo da brutalidade que me cega e já não vejo, perante a sequência de imagens doces e violentas que se entrelaçam, confundindo-se. E sei, meu amor, e sei que só assim me posso sentir. Inocentemente, trouxeste-me de volta a tristeza que julgava perdida e esta é agora maior do que alguma vez poderia ser. E peço-te uma simples razão que justifique o acaba de morrer em mim. Mas temo que os sorrisos que pereceram o tenham feito em vão. E anseio por levar a cabo a mais fantástica ideia que me poderia trazer de volta o mais simples dos gestos. E no meu íntimo sei que vou falhar, que não sou capaz de revisitar o teu mais suave toque. E é-me indiferente o eu pensas agora fazer porque sei que o farás longe de mim. E minto. Porque sei que isso é de facto a minha única preocupação, mas talvez seja o momento de mostrar a coragem que não se tem e dizer, Eu aguento, mesmo sendo esbofeteado pela distância, eu acho que aguento. Acho. E sinto-me agora só enquanto escrevo sob uma fraca luz e fumo o cigarro – espalhando cinzas pelo papel que nestes instantes se torna o meu corpo – que me levará até à eternidade. É este o momento, sei bem. Talvez também te sintas só neste instante mas certamente farás um esforço um pouco maior do que o meu para não o admitir. E não, não te vou dizer qual de nós está mais correcto, não teria a humildade necessária para dizer que és tu e muito menos a arrogância para dizer que sou eu. E interrompo o leve suspiro. Vou manter-me assim: caminhando errante condenado a sentir. E sei, sei o que acaba de acontecer. Dizes-me que é o fim e talvez tenhas razão. Também estou cansado, sabes, não de ti, mas de me sentir triste. É o fim. Acabou. Mas será que tudo tem, de verdade, um fim? Observo a sombra que se prolonga pelas paredes e apercebo-me de tudo por um último instante. Tenho vontade de deixar tudo. O amor de todos os tempos. Foi esse amor que me fez sentir criança e não vou chorar por isto. A última lágrima que me lembro de verter foi por ti, há uns anos atrás. Nada faria prever o que se haveria de seguir. Mas pergunto-me. Quando será que te voltarei a beijar. Será que algum dia voltarei a sentir a tua suave pele? Quando foi que tudo isto deixou de fazer sentido para ti? E penso. Estás a fazê-lo de novo e não consigo perceber porquê. Não sei do que estás a fugir e muito menos o que te leva a tal. Eu. Não compreendo. E magoa-me demasiado pensar que tem de ser assim. Não é justo, garota, e só queria que soubesses o quanto me dói imaginar-te assim. Longe e perdida. Passa-se algo contigo. Sei isso. E vejo que fazes com que tudo pareça mais difícil. Será este o tempo devido para assassinar o que tão docemente se construiu? Ao que parece. Sim. Só te peço que não me afastes assim, embora acredite que seja esse o teu desejo. Não merecemos que tudo o que aprendemos a ser nas nossas horas de companhia se desmorone assim. Sabes, só te queria ter aqui comigo. Por favor, fala comigo. O teu silêncio é…
Talvez tenha sido a nossa ousadia o que nos fez esquecer que nem sempre é possível. E talvez tenhamos vencido por momentos o impossível. E podia ser este o momento em que tudo mudava e finalmente nos seria concedida a oportunidade que tão bem saberíamos aproveitar. E acho que também o sentiste, não é verdade? O mesmo carinho que provou ser capaz de vencer o vazio. E às vezes penso que o mundo terá mais para dar. E às vezes penso que sim, que um dia tudo será mais simples. E não consigo entender, perdoa-me mas não consigo. Queria ligar-te, saber que desse lado me ouvirias. Mas provavelmente não há nada que me permitas dizer e talvez seja por isso que me sinto tão fraco. E só queria saber se choraste no dia em que me fizeste partir. Um dia, contarei às pessoas quem fomos. Até lá quero manter certas memórias só minhas e esperar que um outro dia façam sentido serem sonhadas. Porque esta noite dói-me o coração de imaginar sonhos desfeitos. Os dias passarão e pergunto-me o que farás tu com as minhas cartas, com as nossas fotografias, os nossos passos a dois, os mais sinceros sorrisos que soltámos, os ternos e eternos abraços. E temo só de pensar que não quererás ter coragem para os relembrar comigo. Beija-me uma última vez. Apenas para podermos dizer que um dia tudo aconteceu pela primeira vez naquele fim de tarde já escuro naquele lugar que àquela hora parecia abandonado por todos e que só tinha luz à nossa volta.
Que foi que nos faltou para tudo ser perfeito?
Diz-me se um dia voltaremos a tentar.
Diz-me se um dia voltaremos a sorrir.
E se o plano já não era maior do que isso, talvez seja, então, altura para perguntar se ainda se sente o mesmo, se ainda há uma possibilidade. E talvez tenha sido assim por exigência do destino. Tinhas de partir e levar contigo tudo o que fomos um dia. E tirei tudo de ti, até a mais pequena circunstância -, e para quê? Talvez para poder saber. Talvez, meu amor, talvez. E disseste que tinha sido tão bom. E disseste que tinha sido tudo tão bonito. E não podemos fingir, tentar esconder o inevitável. Juntos ensinámos um ao outro algumas das coisas que a vida tem de positivo. E sabemos bem que não são muitas.
Se passares por mim na rua fingiremos distracção? Falarás comigo como se só soubéssemos ser vulgares? Eu.
Não sei.
Pediste-me para partir – e pergunto-me se terá de ser sempre assim.
Mas despeço-me, então. O que quer que o futuro nos reserve chegará um dia, quem sabe, quando menos esperarmos. Mas digo adeus. Porque só isso me pediste para fazer.
Talvez um dia nos voltemos a ver.
E a sentir.




Pedro.



(Este será o meu último post no nariz empinado. Faltam poucos dias para o encerramento deste blog. Acho, por bem, que este percurso a dois termine como começou. João, o último texto será teu. Este blog será como um albúm de recordações, feito apenas por palavras. Obrigado, caros (perdoem-me a formalidade do termo) leitores – assíduos ou esporádicos – por nos terem acompanhado ao longo deste ciclo que agora termina. Esperamos ver-vos em breve num outro local. Nada morre verdadeiramente – vejamos se é esse o caso.
Obrigado por tudo.

Até breve.)



O inicio do fim.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

e agora para algo completamente diferente.

a que velocidade é que temos medo? perguntem ao paneleiro do meu tio ernesto quando morreu atropelado por uma velhina num buggy. o mundo é assim, cheio de encontros e desencontros. nada faz muito sentido, só quando se esté bêbado. quando se está bêbado todas as pessoas são fixes e nossas amigas, e se por exemplo nos mijarmos no meio da via pública, calças abaixo numa sinfonia de riso feliz, só nos chamarão corno de merda, nem sequer nos batem. ou paneleiro. ou bêbado, somente. mas não que isso importe muito, porque a bebedeira é uma coisa que assim meio machona. eu gosto de me embededar, porque é das poucas vezes em que putos de seis anos me podem atirar com fezes secas de cão e eu ainda mandar caralhadas mas não fazer nada, ou seja; em suma, tenho uma razão para me armar em preguiçoso. talvez seja como beijar a minha avó: não posso forçar muito o linguado porque é possível a dentadura desfazer-se, o mais sólido que ela anda a comer estes dias são batatas cozidas e côdeas de pão molhadas em água quente, o seu chá poupador - chá normal, mas sem a infusão de ervas.
é fodido amar-se a nossa avó. ainda da última vez que estive com ela disse, avó, caralho quero mesmo dar-lhe uma pinocada. e diz ela, o quê, minha filha? (não, não é por eu parecer uma virgem qualquer, é porque teve uma filha e desde então nunca mais se habituou), e eu digo-lhe, olhe, esqueça. vamos amarmo-nos. quero amá-la devagar, chupar as mamas descaídas e enrugadas e sentir a minha língua, com tanto prazer e amor, na sua vulva quente a saber a chichi, quando resgar a fralda com os dentes. e quero enfiar o meu pau no seu rabo, com tanto amor, que gema de felicidade, apertar-lhe as mamas que lhe chegam ao umbigo por trás, sei lá - beijá-la várias vezes na boca sem dentes e apenas com três salientes, com um bigode maior que o meu - porque, compreenda, me excita. não, não diga nada agora, quero ainda que depois me faça uma mamada, chupar algo pensando que é o aspegic ou o bissolvon mesmo que lhe chegem lágrimas aos olhos quase cegos e edepois se engasgue com o meu quente leite salgado. era enfiar-lho todo na boca, percebe? e depois beijá-la de novo, outra vez, despi-la toda a e contemplar o seu corpo, e tirar fotografias com o sentimento amoroso ardente dos apaixonados. mesmo com a trombose, avó, mesmo com a dificuldade em se levantar hoje em dia. é fodido amá-al, mas eu amo. vamos foder? e assim seriam as coisas, mas a minha mãe não quer. é estranho. às vezes, quando percorro as ruas de lisboa para ganhar algum dinheiro levando no cu, eu penso na minha avó. fecho os olhos e penso nela, par tornar as coisas menos dolorosas, e fico a pensar como é bom fazer tudo o que ando a fazer, mesmo sabendo que quem me está a pôr o pénis na boca ou quem me está a fazer snagrar o rabo são velhotes. mas eu amo-a e por ela faço o esforço. e com o dinheiro que arranjo comrpo fraldas, das descartáveis, claro, para poder cheirar o seu cócó quandolhas mudo, às vezes toco nele com a minha língua, e quase que tenho um orgasmo.
a vida é bela quando te tenho ao pé de mim, então.
amo-te avó.

sábado, janeiro 29, 2005

Maresia violenta.

Procurei
uma forma de inutilizar
a ajuda
Rompendo
as redes de um mundo
só meu
como o brilho
que se cria
a cada instante de melancolia
a cada poema que exige morrer.

Mas sem ti
optei por esquecer
tudo aquilo que me trouxe
Até aqui
e bem sei
que permaneci igual
mesmo longe das certezas
que um dia
me haviam feito homem
indefeso.

E senti o medo que me fez
vacilar
Fechei os olhos
e sonhei com a particular leveza
que compõe os sonhos
E por onde andei
pensei saber onde
Ficava
E houve até um instante
em que imaginei a maresia.

E então o mar desistiu de bramir.


- Pedro -

quinta-feira, janeiro 27, 2005

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UM SOPRO IMPOSSÍVEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEL
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!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!






IMPOSSÍ










- Assomados. Os verdadeiros reis da noite sem face cuja existência abstracto-sistemática desafia as leis da poética, erguem-se.
Imprevisíveis na sua beleza negra ante o sangue invisível que escorre das sarjetas
Deste mundo.
Que tanto odeio por já nada ter para me oferecer.
Oh
Eles estão aqui… este crescendo silencioso… não se sentirá a reverberação?
Perdemos tudo quando tentamos decifrar a loucura da racionalidade e os invocámos.
Nada se reflectiu na nossa mão de prata.




Nada foi o que sonhamos.



A sensação de sabermos que aquilo que pensamos que nos transcende e por isso o percebemos, mas na verdade NOS TRANSCENDE MESMO.
A realidade impossível da loucura. Nós vimo-la. Ri-me até os dentes caírem em cascatas de vinho cheio de mosto. Todos. E a garganta, nesse espasmo incontrolado, espremeu sangue das minhas cordas vocais enegrecidas, uma música gorgolejante, enquanto eles vinham, e nos subjugavam.
Salve, reis e rainhas de outras eras futuras. Quem somos nós. Porque nos matais, quando apenas procuramos respostas. Todos morrerão como nós? Este segredo é grande, é segredo demais para nunca ser decifrado. Temos medo. Eu sei que essa faca que me corre pela artéria esquerda e me faz sono, enquanto morro à tua face, segundo.
Não pode ser real, como eu sei que ela o é. É preciso
É preciso avisar as pessoas! É preciso avisar depois deste nosso bruxedo, que vocês só existem se acreditarmos em vocês, pessoas, ouç











Ao contacto da memória. À imperceptibilidade gasta pelas noites de deboche insano em telas, em folhas brancas desenhadas em código, palavras em forma de lâmina.



















Eu vi

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Só.

Escrevo-te, aqui, nos limites quase bonitos, muito frios, do meu próprio…sono. Sei que já passou muito tempo, as músicas não têm ajudado. Ficaste com quase todas elas… tudo aquilo que me lembrava de ti, porque o achava belo, te dei, e assim tenho ficado neste limbo marginal, entanto os dias um por um. É o fim do dia, quase as seis, mas ainda te vejo entrar no messenger, enquanto decido não falar contigo só desta vez, violando a tua promessa de hoje não teres ido trabalhar, porque doente ainda – gostava de suspirar e dizer, É assim o meu amor, sempre demasiado dedicada a tudo em que se mete. Mas não posso, porque não está aqui ninguém. Então digo-o para mim mesmo. Perdi o jeito para escrever cartas de amor, e acho que perdi o jeito para escrever. Este exercício, esta vontade de nunca me querer perder, para onde foi…? Acompanhou o meu desespero estúpido, quando te via ires-te embora, perguntava sempre a mim mesmo, o que era isto. O que era isto que sentia por ti.
Vais-me desculpar, sabes. Estas coisas são bonitas mas não serei eu decerto que as farei assim. Sou cru, sou triste demais para isso. Sou algo menos, agora. Perdi-me um destes dias quando olhei com tristeza para o dossier onde guardo todas as obras de arte que crio que cabem dentro de um papel, e perguntei-me, Até agora, quantos poemas a mais o curso de Direito me roubou. Não quis mais saber. E se tu és praticamente o centro da minha vida (é engraçado como tudo se desmorona sem ninguém reparar, as grandes amizades, o fulgor inicial de um novo universo, as expectativas brilhantes), então talvez só fará sentido escrever para ti. Por ti e para mim, na esperança vã, quase engraçada…? De me encontrar. Quero dizer-te que te amo sem artifícios. Dizê-lo sem lágrimas, sem qualquer estilo, só com uma voz cinzenta que deveria ter a mesma força como quando digo o teu nome, e ele reverbera. Ouve. Só quero reencontrar-me, e perceberes que tenho dentro de mim, que embargo em mim, um tristeza tão grande – maior que os dias. Sou uma pessoa triste, um solitário, sinto-me só. E se sempre cultivei a imagem oposta, que interessa isso. E tenho medo por isso, porque sei que um dia vou mostrar-me, porque a tristeza é tão bela, meu amor – sabe tão bem partilhá-la com alguém para poder matá-la momentaneamente. Tu sabes quando eu tenho aquelas quebras, não sabes… quando estás a falar e eu ponho “aquele olhar”, olho para ti em silêncio ouvindo tudo o que disseste e mesmo quando acabas eu não consigo falar, quero tornar o momento eterno, percebes; e não olha para ti em estupor de admiração muda – não é isso. É uma tristeza, uma tristeza bonita porque sei que te vou perder, um dia, que me assola e me destrói naquele momento. Sou assim. Vou perder-te um dia, nunca mais vais sorrir ou rir para mim da mesma maneira, os momentos que criámos nunca mais poderão ser nossos, e vou ter de te esquecer, para te criar noutra pessoa que rezarei para que seja o oposto total de ti. Eu amo-te. E se não serve, eu digo-te, que estou, aprendi, percebi, que estou apaixonado por ti. Que saxofone é este? Mas o silêncio interpõe-se como uma muralha.
Quando fico em silêncio penso mais do que isso. Vejo-te toda, observo a minha vida fora de mim, como se fosse outro – o meu filho, doutor. Apetece-me qualquer coisa que aos homens não deveria ser permitido. Então suspiro. A vida dos imbecis sentimentais é assim, nunca ninguém sabe muito bem o que pensam, nunca sabem muito bem como é que tanto sentimento pode caber nas suas cabeças desmioladas. Já não tenho raiva, amor. Só pena. Quando agonizavas no hospital há uns dias atrás, corpo suado, a febre alta, a dormires – perguntei-me de novo quem, porquê, quem era eu. A minha vida é isto? Para o que vivo? Estas perguntas, oh, a juventude. Já todos as terão tido, não. Já todos foram mais humanos do que eu, não. Fodam-se. Esta música que sinto agora nunca poderá ser igual para mais ninguém, nem como eu poderei um dia explicar a cem por cento o que sou, e porquê, mesmo que nunca ninguém mo tenha pedido – era por isso que escrevia, por isso e para me tentar encontrar, e quando me apercebi que já não valia a pena – que rumo tomar. Porquê amar-te ainda.
Passou-se o quê, mais de uma semana. Mais de uma semana. Não tenho andado bem – tenho andado essencialmente como quando era mais novo, com o factor acrescido de já saber o que é a felicidade mínima, de como ela nos pode trocar as voltas. E sinto-me horrivelmente só. Só comigo mesmo, e vejo as pessoas a aprenderem a despedir-se de mim. O resto que encontro ainda são só sombras. Não tenho jeito para isto – nunca tive jeito. Sempre soube despedir-me bem de pessoas, de sentimentos, de emoções, sempre foi… uma questão de protocolo. Agora, nunca pensei ter jeito para isso. Era só dizer-te aquilo que sou, o que sou e porque fui o que sou agora, e era perder-te de forma tão bela que até doeria. E saberia que talvez nunca mais escrevesse nada durante pelo menos um mês, numa confusão de dores de coração, negras, negras – tu deves saber. Como as tuas.
Mas sem expressão física.




Adeus, leitores do blog. Não sei quando voltarei.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

gente urbana, parte I

Não nos conhecemos mas podemos ser amigos. Estás disponível para um abraço e eu sinto-me perdido. Não sei para onde vamos mas passaremos os dias juntos, se possível. Tenho ouvido os lobos a uivar, certamente morreu alguém esta noite e tenho medo da solidão. Escrevi num papel: está tudo bem. Desconheço a veracidade da frase mas temo pela minha sanidade. Sinto-me demente. Incapaz de me levantar. Estava sentado ao balcão a beber mais um copo de whisky, duplo, quando tu apareceste vinda de lado nenhum. È noite de karaoke neste bar de pouca luz e estou cansado de ouvir o gordo a cantar desafinado. Talvez tenha saído há pouco tempo o hospital e esteja cansado dos lençóis brancos, da cama desconfortável e da comida insípida que lhe davam, mas isso não é desculpa para me causar dores de cabeça. Queria falar com alguém que, fosse quem fosse, que não estivesse a rir, que me fizesse companhia esta noite. Entraste com os cabelos negros a esconderem-te o rosto, com um andar deselegante, quase que desnorteado, e percebi desde logo que, esta noite, só tu me poderias compreender. Sentaste-te a meu lado, não sei ao certo se por opção ou fruto do acaso, mas não importa. Importa apenas que o fizeste. Sabes, não tenho nada de interessante para te contar sobre mim, há uns dias atrás ia sendo atropelado numa das minhas caminhadas de sonambulismo, pouco mais. Só soube quando acordei numa rua qualquer que me era estranha e um velhote que me seguira, preocupado com a ocorrência, veio ter comigo dizendo que se quisera certificar de que nada de mal me acontecia. Contou-me depois tudo o que me vira fazer. Tomámos café num local ali próximo e ele lá foi à sua vida. Mas diz-me, que é que te trouxe até aqui, a este bar. Talvez tenhas andado, como eu, a pensar no que fazer com a vida. É normal, gente como nós faz isso demasiadas vezes. Olha, queres ir dar uma volta? Hmmm…pois, parece que não. Talvez estejas entediada, se sim, peço desculpa, não é por mal mas costumo ter esse efeito nas pessoas. Acho que só a minha mãe conseguia encontrar alguma paciência para mim, é normal, eu e ela sempre tivemos muito em comum. O meu pai deixou-a quando soube que estava grávida. Ia em viagem de negócios por uns dias, tinha uma qualquer reunião muito importante no outro lado do oceano. Devem ter passado perto de trinta anos, não sei ao certo, mas a reunião ainda não deve ter acabado. É assim, o meu velhote… Mas sabes, gosto de ver o pôr-do-sol, não por uma qualquer ideia arcaica de beleza, apenas gosto de ver o dia lentamente a desintegrar-se. E ele desintegra-se sempre, nunca falha – é sempre bom saber que há coisas que nunca mudam. Não tenho lá muito dinheiro, mas gostava de te pagar a bebida. Que é que tinhas pedido? Deixa estar, não precisas de responder, eu pergunto ao empregado. Ah, sabem bem estes momentos, ter alguém que nos ouça e fale connosco. E mesmo que essa pessoa não seja muito faladora como parece ser o teu caso, mas já é bom ter alguém que nos ouça, mesmo que de um surdo se trate, afinal de contas, também é gente, não é? Sabes, acho que seremos bons amigos. Temos tanto por fazer, dar as mãos, entrar num autocarro para destino incerto, contar piadas ou apenas histórias divertidas. Sabes, odeio muitas coisas na minha vida, mas estou a gostar bastante da nossa conversa. Mas falando em histórias divertidas, no outro dia folheava um jornal e deparei-me com uma bastante interessante. Era a de um tipo a quem a mulher o levara a tribunal por ser impotente, ah mas isso não era tudo, a amante dele também o levara a tribunal mas por querer que ele reconhecesse e assumisse as responsabilidades pelo filho deles. Ora o homem lá terá achado que sairia vencedor de pelo menos uma das acusações. O filho da amante era a prova de que não era impotente; a impotência alegada pela mulher dizia sem margem para dúvidas que o filho não poderia ser seu. O que aconteceu é que, julgado por tribunais diferentes, perdeu as duas causas. Engraçado, não? As coisas que a vida nos conta, sempre tão cheias de ironia. È a ironia o que move o mundo, já dizia o outro. Bem…mas falando de coisas mais sérias. Reparei que trazias na mão dois bilhetes de embarque num voo. Digo-te o mesmo que vi um gajo dizer num filme a uma rapariga. Contigo, vou para onde tu quiseres. Provavelmente não tens com quem ir, pelo menos já não, é o que me diz o teu silêncio. E se chegaste a ter, foi só desilusão. E eu tenho um conhecimento vasto no que a ilusões diz respeito. Eu próprio sou uma. Mas a verdade é que… (pausa) vejo que te estás a levantar. Já vais de partida, não é? Pois bem, talvez tenha chegado a hora por que esperavas pacientemente. Só por curiosidade, o teu nome é…(pausa) não me vais responder, pois não? Ok, deixa estar, então. Bem, nesse caso, Boa viagem. A gente vê-se por aí. Também tenho que ir à minha vida. Coisas por fazer. Ando ocupado, muito ocupado, a sério que ando…muito ocupado, mesmo. Bem, é aqui que os nossos caminhos se separam, e não te preocupes, eu pago a tua conta. Até um dia.
Ou até sempre, se for esse o caso.



(Pedro)

domingo, janeiro 16, 2005

Lugar de mistério/exercício de vontade.

Será este um lugar de mistério ou apenas mais um exercício de vontade? Chegarei brevemente, assim que o meu coração fatigado me permita alcançar-te. Chegarei brevemente sem a certeza de ter quem me espere ou a mais pequena ideia do que farei quando te vir, se te vir. Um dia disseste-me que te assustava a minha terrível capacidade de esquecer pessoas, que receavas que passado um tempo, alguns anos, quem sabe, não mais me lembrasse de ti. E não te vou enganar, houve um tempo em que eu próprio temi perder-me. Mas sabes que não tens de te preocupar comigo, embora não o consigas evitar. Continuo a reviver cada palavra doce que te sussurrei como se a estivesse a germinar na minha mente neste preciso instante, e pergunto-me: Como poderia eu esquecer-te?
E as próprias palavras nunca perceberão o seu alcance. Sabes, vivi um período de espera que me pareceu interminável. Era jovem, mas tudo o que sentia parecia carregado de séculos de solidão. Senti-me velho, como se já existisse, tristemente, no tempo em que os meus antepassados ainda não eram nascidos. De noite, era assombrado pelo mesmo sonho de sempre, o brutal cliché do ancião barbudo que se isolou nas montanhas para não mais ser visto. Seria eu, perguntava todas as manhãs ao fitar o meu rosto cansado no espelho. Curioso, nunca consegui ultrapassar a ideia de que era com desdém que esse rosto me fitava de volta. E acho que sei por que razão chegámos a este ponto, tu e eu, sem certezas. E se me concedessem um desejo, por mais pequeno que fosse, desejaria que um dia pudéssemos apenas…acreditar. E, quem sabe, se não é isso o que estou a tentar fazer agora. É Inverno e a beleza parece ter perdido toda a sua esperança. Habito numa cidade onde o que se perde não mais será encontrado. Podia ser outra cidade qualquer, é verdade, mas sei o quão violento este espaço urbano consegue ser. E ainda tento compreender esta cidade, tento vislumbrar nos olhos das pessoas que por mim passam ou se sentam à minha frente no comboio, se têm algo que as guie. Talvez um dia incendeie esta cidade. E perdoem-me, por favor, por tudo aquilo que vos digo hoje. Por tudo aquilo que nunca disse e que temo nunca chegar a dizer. Onde está o futuro quando a única coisa que se quer é vivê-lo? É um tempo engraçado este que nos é apresentado. Sinto que não voltarei atrás. Sinto-o, apenas. Desencontrei-me com a minha paz interior no dia em que te vi partir indefinidamente. Mas há que resolver os problemas com os quais somos presenteados, cada um a seu próprio modo.
Confesso as minhas fraquezas. Sem querer parecer moralista. E pergunto-me, Quem seríamos hoje se tivesses chorado enquanto me falavas do que sentias? E se eu te tivesse dito, Não vás.?
Não vás. Pensei que parecesse mais fácil. Mas nunca foi. Se olhares com atenção verás que nada mudou. Foram tantas as vezes que tentei dizer-te adeus.
(Adeus, que palavra tão sublime, tão independente.)
Maior foi o número de vezes em que tentei afastar-me de mim próprio e de quem nunca deixara de ser. Como podes ver, este noite não veremos flores a desabrochar. Talvez alguém saiba onde se esconderam. Mas não nós. Parece que as memórias mais tristes nunca nos abandonam de verdade. Virá o dia em que me poderei reinventar. Tal qual uma máquina rejuvenescida. Como se o destino ou a pura casualidade tivessem estabelecido o preciso instante em que o coração começa a bater num palpitar desenfreado, como se tentasse libertar-se das amarras que o prenderam. E num segundo que mais se assemelharia a uma explosão, haveria mudança.
Miúdos como nós nunca tiveram a oportunidade devida.
De vida.
Direccionem os holofotes para a nossa ausência de preocupações, pois não nos importamos com o lugar onde os nossos corpos poderão descansar, se é que tal venha alguma vez a acontecer. E nós não nos importamos, de tão novos que somos. Tentamos apenas cimentar sentimentos frágeis para tanta gente. Mas para nós, sob o olhar atento das estrelas, haverá sempre uma resposta. Desconhecemos as regras, sem maldade. E o que isto tem de chocante é o facto de - se é que existem factos – sabermos que não há mais ninguém à nossa volta quando desejamos que assim seja. A inocência é o nosso tesouro. E se tentarem estilhaçar o secretismo dos nossos sonhos, sabemos bem que falharão. Acreditamos no nunca. Mais do que isso, acreditamos no sempre, se for sequer possível separar um do outro, mas deixem-me dizer-vos desde já, sem necessidade de eventualmente me voltar a repetir: as nossas falhas serão colmatadas com amor. A noite chegou para nos fazer recordar de quem somos.
Viemos reclamar o que nos pertence. Dinamitámos os nossos medos a partir do momento em que testemunhámos o nosso êxtase. E o sono não chegará até aos nossos corpos cansados enquanto houver algo por fazer. Minha querida, perdoa-me o termo se o achas demasiado corriqueiro, mas sentirei sempre a tua falta onde quer que vás. E talvez precise um pouco de ti, neste momento, porque certas horas mais demoradas parecem querer quebrar-me em milhares de pedaços e espalhar-me pelo planeta, criando um puzzle complexo. E o dia de hoje será a nossa desculpa para voltar a sentir a genuína blasfémia do nosso carinho, porque é pecado de que se trata. Novamente não durará muito tempo, mas será o suficiente, pois consegues fazer-me sentir que cada instante de companhia é eterno. Perdido em pensamentos e palavras soltas pareço conseguir perdoar toda a gente. E tu, serás a minha contraditória desculpa.
E já começo a ouvir o estalar titubeante dos nós dos dedos, num qualquer exercício de aquecimento prévio à construção da mais fulminante das melodias. E temos perante nós um problema de funestas variantes, pois apetece-me ferir mortalmente o silêncio e apenas…gritar.
Gritar.
E se tiver sorte, fumarei o meu décimo terceiro cigarro antes de parecer tonto. E quando tiver acabado, sorrirei com ironia. E se a mais pequena ideia de perversidade, então fará sentido, por muito chocante que possa parecer. E o frémito suave que o virar de página me permite ouvir, dá-me sempre uma certa noção de dever cumprido. De satisfação. Uma simples forma de dizer que hoje me sinto orgulhoso. E sinto. Por ti e por mim. Não me considero um contador de histórias, se calhar porque nunca o tentei devidamente ser. Caso tal venha a acontecer, prometo que sairei para a rua no instante em que terminar, olharei em redor onde quer que esteja e fingirei que não voltarei a repetir a proeza, porque é mesmo de uma proeza que se trata.
E caminho sozinho, em breve estarei contigo, penso. Acredito que sim e por muito que possa recear o contrário, não vacilarei. Pé ante pé, como se fosse uma criança a aprender corajosamente como anda. Até chegar junto de ti e carinhosamente te beijar a face, e de seguida os lábios. E o que tiver de acontecer, acontecerá inevitavelmente. E talvez seja esse o nosso mistério, a vontade de viver e de amar prevaleceu sempre.
E para sempre.


Pedro.


(Escrito na madrugada de 13/01/05. Munido apenas de papel, caneta e muita vontade.)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Piso quatro, sala dois, cama doze.

A tarde foi estranha, como que num sonho. Voltei de táxi. Encontro-me aqui, sem saber o que escrever, ou como fazê-lo. Quem diria… - que eu seria assim, tão insensível.
Obviamente que ouço música. Não é necessário escrever. Eu não sei que músicas… eu.
O hospital Pulido Valente é estranho, uma pequena aldeia de doentes. Tem portões de ar, delimitados por muros de tijolos, e muralhas de betão, que me obrigaram a dar a volta toda quando saí de lá, pela única entrada. Têm até, em resquícios de cheiros de velhos e pastilhas de sabor a cheiro de consultório, uma carrinha com protecções como nas montanhas russas e um pneu debaixo do banco do acompanhante, para transportar os doentes ou as visitas, para as diferentes zonas. Na unidade de pneumologia, piso quatro, sala dois cama doze, o meu futuro reorganizava-se em frente a meus olhos, e dava infelizmente mais um passo a tudo o que haveria de tornar-me adulto. Tenham dó. Sou só sensível.
A morte que me rodeia já não me assusta, e então, quando vi as velhas com a lucidez dos preparados para a última viagem muito sorridentes e a chamarem-nos de bebé, que quando de lá saíssem nos iriam fazer uma visita, não estranhei nada. O ar coado talvez faça isso às pessoas, o pó de milhões de comprimidos diferentes impregna-se no ar, bem como o cheiro a desespero, medo e morte, e talvez criem, ou ajudem a criar, essa atmosfera irreal, esse mundo à parte, tão ilúcido para uns que as linguagens e os gestos que se criam sejam justificados pela sua própria fome de partirem e nunca mais voltarem, saberem-se vulneráveis, humanos, tremendamente breves. O piso quatro da unidade de pneumologia tem mulheres a entrar na velhice a espremer gordura, esforçando-se por caberem nas cadeiras e com cateteres nos narizes, e mais velhas amarradas a postes de soro que levam com elas para todo o lado, devagarinho, sempre muito devagar. E velhos, que percorrem os corredores à espera de encontrar algum médico que os ajude a ir à casa de banho. As velhas fazem-no ali mesmo, nas camas, em penicos de aço inoxidável, e pediram-me tantas vezes para sair, esperar junto aos corredores estreitos onde haviam janelas, que só pessoas de mais de um metro e noventa poderiam usufruir. Eu só via prédios ao longe, num desenho de cidade que não conhecia. Senti-me longe, longe de tudo, um caso à parte; meia hora atrás, eu sai da minha universidade e, despindo-me, começava a correr. Deixei que as costas escorressem suor, deixei impregnar-me por todo o fusível queimado de força que a cidade me proporcionava, que os autocarros me desesperavam, que as pessoas me não sabiam. Corri até chegar ao meu destino, perguntei-me o que era tarde, o que era o tempo, se teria vindo demasiado cedo, impossível se demasiado tarde, ou se nunca, nunca, fosse possível chegar tarde. Ou cedo. O Sol molestava-me, e eu sabia que quando chegasse nunca saberia o que fazer. Poderia era fingir que sabia.
No hospital Pulido Valente os médicos estão acostumados a todos os worst case scenarios que podem existir, as ambulâncias vêm de todo o lado. Pontinha, Beja, Carnaxide. O guarda fez um turno de pelo menos oito horas, pois estava lá quando eu lá fui as onze, e ainda estava lá quando me fui embora, quase eram seis e meia e ninguém talvez me diria que o dia se poria em noite tão rápido no seu processo de desistir lento.
Em suma, e só como aprender a não respirar mais, deixar a infecção dos brônquios, em conjunto com arritmias cardíacas e taquicardias, subjugar os pulmões, fazer talvez chorar um pouco, deitar-se para o lado e simplesmente adormecer. Se a Lua não ajudar muito na condição do enfermo, paciência. O Sol amanhã ressuscitará para aprender a morrer por falta de oxigénio de novo. Até lá, nós que tão indiferentes, vamos continuando a existir.
Quatro possibilidades descabidas para a minha própria escrita.
Eu não sei em que pessoa me tornaria se agora perdesse tudo. Penso que não estaria interessado, familiares bafientos de alguma preocupação forçada não me seduzem.
Vamos sentindo falta de todos os que já partiram, e enquanto aprendemos a tornar os dias lentos e a respiração um pouco mais rápida, é necessário adormecer, as sensações.
Mesmo nesse estado e ainda estavas tão bonita.
Não consigo escrever sobre isto.
Não consigo escrever como te vi, a dormir, a fazeres um esforço intenso para respirar, outrora ligada a máquinas; não consigo descrever com pormenor como subi as escadas piso a piso, percorri os corredores estreitos, perguntei às médicas onde estavas. Não consigo, não consigo escrever sobre isto, como te vi, os olhos aguados, tão bonita ainda, com a mão e o nariz entubados. Não consigo escrever sobre como morbidamente me apeteceu tirar fotografias a cada plano de visão, para te ver; ou quando viravas-te para o lado, imediatamente depois de teres estado a falar comigo, segurando ainda a minha mão, e adormecias logo. Não consigo. Não consigo perspectivar tudo isso, deixar-te para passares a noite num hospital que não é o teu, num cenário decadente, não consigo compreender ou escrever a forma como choraste de desespero e em que só dizias, Eu não quero ficar aqui, eu não quero ficar aqui. Rodeada de velhas, cheiro a mijo, entubada, a soro, e com uma televisão alta demais, a transmitir os programas felizes da tarde para pessoas como tu que estão presas numa cama de ferro.
Não consigo estar aqui, não consigo. Não consigo escrever bem o suficiente para explanar o que vi, o que senti e a forma como cheirei toda aquela atmosfera irreal preparada para mim; não consigo perceber como é que me esgotas, quando eu chego a casa e apetece-me voltar para.
Trás.
Não consigo respirar. Como tu.
E sinto a tua falta, sozinha, numa cama de hospital gigante e povoado por fantasmas sólidos, barulhentos, com luz natural escondida por cortinas amarelas.
Mas quis tentar.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Fossanova e afins

A música providenciará o chamamento. Seremos novamente rebeldes a partir do instante em que se tome consciência das nossas falhas e não fará sentido, como fez em tantas outras vezes, adiar a brutal essência relativa à feroz noção de vazio. No dia em que percebermos que uma bala pode desfazer tudo num segundo, saberemos então que pautamos todo um incompreensível caminho através dos tempos, percorrendo cada ano como o anterior, envelhecendo apenas porque se envelhece e não porque somos algo mais. E se podemos conseguir, apenas com a força das palavras e dos gestos, mudar toda uma existência, então será definitiva a ideia de que até teve um certo propósito tentar. E eu quero tentar, saber que neste dia me cansei sem ter sido em vão, saber que para sempre haverá algo por dizer e lamentarei apenas se ninguém se levantar dos escombros para dizer, Estou aqui, vou contar-vos a minha história.

Ontem, no comboio, vi uma mulher que deveria ter cerca de quarenta anos tirar da mala um pequeno livro, de capa vermelha, cujo titulo era apenas: Como acordar feliz. Ironicamente, pareceu-me triste todo aquele cenário de viagem urbana. Alguém talvez tenha acreditado um dia encontrar a receita da felicidade num livro diminuto. Engraçado, também eu me senti diminuto.

Também eu me senti humano.

E é de todo sinistro julgar que estou isento de tão dissimulada forma de demência. Nunca se sabe ao certo se o que se teme é a própria realidade ou a tomada de consciência da nossa própria fragilidade. Ainda não sei ao certo o que se deve ou se pode fazer quando há pouco a dizer. Confesso que geralmente estou do outro lado da barricada, tenho sempre muito a dizer, mesmo que pouco esteja a fazer. Talvez tenha sido a minha forma de, inconscientemente, camuflar a falta de certas aptidões. E eu sou inapto. Ou tenho sido. Ou poderia sê-lo. Ou estou apenas confuso (e com um pouco de sorte e ironia à mistura , também quem me lê). Mas ok ok ok. Faz sentido até certo ponto. A verdade é que por vezes não sei ao certo se é de alguma maneira plausível a ideia de que tenho algum jeito para isto, whatever that means.

Fossanova* tem inicio:
Se sorrires talvez venhas a lavar a sujidão impregnada nos espíritos imundos que povoam a crosta terrestre. E dá-me a mão, dá-me um estalo seguido de um beijo, podes tornar-me humano, obrigar-me a ser melhor, ajudar-me a perceber a ternura que nos consome docemente. Vem comigo. E com algum esforço seremos imunes à morte do amor. E se se trata de sorte acho que nunca saberemos, mas não deixes que isso tenha importância, nunca quis teorizar algo assim. É essa a minha filosofia: assassinar a razão, escondê-la de determinados sentimentos, pois tenho receio de que os venha a tiranizar. E às vezes questiono-me, que acontecerá aos sonhos quando são esquecidos? Será, porventura, uma espécie de morte prematura. E é esta a minha tentação exótica, idílica, elitista até, quem sabe. Talvez seja esse o preço a pagar pela poesia. E terei todo o prazer em pagá-lo, em tentá-lo, em satisfazê-lo, sem barreiras ou patéticas restrições. E pode ser que assim se percam as contradições...calmamente. Ou, pelo contrário, se criem mais e mais contradições, novas dúvidas, ferozmente, com uma música cheia de charme e sensualidade a acompanhar. E sim: há novas ideias, elas nunca param de surgir, caso contrário será a morte do criador, do artista, por esquecimento e falta de audácia.

Confesso que por vezes não paro de escrever com receio de que as palavras me fujam.

E mesmo assim nem sempre consigo.

Mas tragam-me o vinho num copo gelado, desligarei a televisão e no ar carregado de nicotina e vozes cansadas teremos dois dedos de conversa (mas que raio de expressão me vem a ser esta??)e há que saber definir o centésimo de segundo ideal para esconder o embaraço que nos fulmina a cada vez que tentamos ilibar-nos dos nossos vícios de emoção e sentimentos. E como pode um homem lidar com a sua dor sozinho? Mas deve-se aproveitar o beijo gentil, deve-se saborear cada batida do coração como se não houvesse seguinte – com estilo e presença de espírito seremos cada vez mais humanos.

E quem entre nós acredita que é possível? Desta vez, por favor, quando colocarem a mão no meu ombro em gesto de compreensão, não assumam que voltarei a dormir sem ter feito um último esforço numa corrida pela liberdade de sensações. Quais serão as esperanças que a vida roubou, perguntou um dia Sérgio Godinho. Que é que foi que ele disse? Ah, já sei “hoje soube-me a pouco”. Engraçado, também a mim, meu amigo.
Mas voltando ao frenético momento até ter sido interrompido – é o que acontece quando se escreve à mão e depois se quer passar tudo para o computador para vocês lerem.

(Pausa).

Respiro fundo.

E serei o meio que me envolve. E hei-de formalizar as festividades sanguinárias projectadas incandescentemente pelas imagens televisivas, que mas vão cuspindo contra a face. Se as cores já me tornaram cego, talvez seja altura de dar espaço à loucura para fazer o seu famoso número por entre símbolos e expressões imperceptíveis ao raciocínio comum.

De um grito farei um poema.

Lavarei do corpo as incertezas. Diremos, em uníssono, Nós existimos. Reconhecerei os planos que havia feito milénio antes e com um sorriso escorreito nos lábios, de plena perfeição e destreza e harmonia, eventualmente farei a tão famigerada questão, Quem foi que matou a nossa humanidade.(?) – E esta última, a humanidade, digo, já de si triste, perderá as suas forças de tão ínfimas que eram e...talvez ainda seja um sonho

E porquê?

De olhos bem fechados e mãos enregeladas tentarei agarrar as estrelas segundos antes de me perder num espectáculo cruel e psicadélico. Serão drogas mas não só. Serão receios mas não só. Silenciarei.

Quebrarei., ou melhor, sejamos ambiciosos, quebranterei a máscara que me sustém antes de dar o fatídico suspiro. Finalmente verei a tão afamada luz branca de que os antigos (e alguns presentes) falavam. ... E começará a chover durante anos a fio. Serão os deuses a tentar dissimular o sangue adormecido no alcatrão negro. E será solidão. E não mais parará - por muito que se queira retardá-la – a madrugada do fim dos tempos. E é transcendental. E é um sinal dos crimes cometidos no passado. E se algum dia houver esperança de salvação, é hoje que ela começa. Aqui e Agora. Até ao último homem...ou mulher, for that matter, cair sob os seus joelhos, cedendo. Estamos a poucos metros do precipício e queremos andar, a poucos minutos do desespero final e o tempo não pára – somos presa fácil perante os infortúnios da vida. E alguns de nós encontrarão no amor mútuo uma resposta, o qual é, em última análise, a grande droga. Com d maiúsculo. Ah como me saberá bem perceber os desígnios do destino quando chorar. E chorarei. Algo petrificante. Perdido e inquebrável, ou, novamente, inquebrantável. Algo sem nexo. Algo...humano? Escrevo textos magoados para aliviar a dor, é essa a minha triste verdade. E foda-se que bem me sabe. Notável, sem dúvida. Notável como qualquer dissidente foragido por vocação, como qualquer aperto de mão entre amigos, como qualquer Che Guevara supra revolucionário, como qualquer pseudo-intelectual no canal A Dois, o do governo.

Mas que se calem de uma vez por todas os profetas que, como eu, insistem em falar. Que os escorracem como os cães que são. Quanto a mim (finalmente, dirão alguns), ficarei em silêncio. Sensata e inexplicavelmente bem – em silêncio.

Por fim, Perdoem-me.




*( Fossanova é o titulo de um álbum de uma banda portuguesa chamada Belle Chase Hotel. Escolhi plagiar o titulo porque ainda hoje não percebi o alcance deste – do mesmo modo que não percebi o alcance do que escrevi, mas também raramente percebo esse – de qualquer maneira se alguém me souber dizer o que é ou quem raio é Fossanova, por favor que me avise, ou só tenho uma estúpida ideia. Todo o “fossanova” – texto – foi escrito a ouvir esse álbum em modo aleatório, a referência a sérgio godinho surge no momento em que passava a computador o texto e ouvia determinada música dele, descubram vocês qual, sinceramente acho que até tinha explicado no texto o que se passara, mas bem, pouco importa, estou cansado.)



Pedro.

sábado, janeiro 08, 2005

Forget Her.

Às vezes sento-me aqui antes de escrever nada em concreto, neste blog, quando me lembro que ele não tem piada.
Não tem.
Nem uma única piada (a não ser um post do meu amigo Pedro sobre um puto rapper revoltado), e não creio que isso seja algo mau, simplesmente não reflecte tudo o que nós os dois escrevemos, tudo o que nós os dois somos, enquanto… não quero usar o termo escritores.
Mas sento-me aqui, ligo as colunas, abro as minhas músicas… e não consigo.
Neste momento ouço Jeff Buckley, um artista, um cantor, acima de tudo um grande compositor, que nós os dois e alguns leitores deste blog conhecem, que conheceu a morte tragicamente novo demais, o seu novo álbum não estava ainda completamente acabado. O seu segundo. Álbum. Neste momento ouço a sua voz, num verbo que os ingleses sumarizam na perfeição, in its haunting, chilly voice. Ou dois verbos. Referia-me, obviamente, ao verbo to haunt. A sua voz persegue-nos, torna-nos seus, dele, da sua figura, um jovem com o cabelo desalinhado e cadência ligeiramente aguda e baixa, que um dia, infelizmente, decidiu ir tomar banho num rasgo de vontade quase irracional, sendo só depois descoberto, o seu corpo, nas cidade onde os blues nasceram. A sua mãe enterrou um marido e um filho. A história da música ainda não conseguiu enterrar o seu génio.
Nem o deve. Conheci Jeff Buckley através justamente do Pedro, estávamos os dois penso no décimo primeiro ano, acabávamos de o iniciar. Ele tinha descoberto Jeff Buckley por outro amigo dele, e como é óbvio, Jeff, que nos encanta, encantou-o também, e como não poderia deixar de ser, quis ter o prazer de passar o legado a todas as pessoas que pudesse, ou pelo menos (porque a música boa, custa por vezes tanto a ser partilhada com pessoas que julgamos “imerecidas” dela – como se tal fosse possível), às quais soubesse que o iriam reverenciar como um dos grandes talentos, perdidos demasiado cedo, para a música. Assim eu tive o meu primeiro contacto com o seu disco póstumo, my sweetheart the drunk, que iria ser acabado, completado e remasterizado pela banda – que quando saia do avião para se dirigir à casa onde ele estava, sozinho, a compor num rasgo de freneticismo que deixou anotado nos seus cadernos, não sabia que nesse preciso momento mergulhadores entravam nas profundezas do rio cujo o nome (que interessa? O que importa é que o real tornou-se lenda e para sempre restarão músicas dele e histórias dele para descobrir, contar e cantar) não me recordo, na tentativa vã de recuperarem o seu corpo. Rendi-me a Buckley, filho pródigo do seu pai também cantor, e só descobri grace, na verdade a sua real (e porque mais não fez) obra-prima, meio ano ou assim, depois. Ouvi-o e esgotei-o e amei-o por tudo o que ele era e cantava e me fez escrever, sentir, sonhar, sofrer. Porque, como dizia, sad songs are love songs.
E depois esqueci-o.
Não sei explicar muito bem… esta música chama-se forget her, das grace sessions, mas posso muito bem dizer that I have forget him. Or forgot him. I forgot him, not being able to explain how or why, but the truth is I almost completely stopped listening to his music, and thus… I simply forgot him.
Ou julgava.
Este Natal saiu uma nova caixa com eps do seu primeiro álbum, versões ao vivo, raridades, nada que não conhecêssemos já, em bootlegs ou ficheiros piratas (piratas…? Não deveria a sua música ser partilhada por todos quantos o querem ouvir, o legado de um morto…?) na Internet, mas existia uma música, que eu pelo menos não tinha ouvido, atingiu-me com a força de um murro, fez-me no dia a seguir, um sábado frio, ouvir Grace de novo como se fosse a primeira vez, enquanto caminhava pelas ruas de Benfica e me amaldiçoava pelo que tinha perdido, nesse ano. Um ano sem ouvir Jeff Bukcley, quase. Como foi possível…? Procurei a resposta encontrando-a em cds novos que comprei, sentimentos novos que presenciei e que precisava de expurgar com novas músicas, não interessa talvez também saber o absoluto porquê. Ouvi Grace como se fosse a primeira vez, e senti como se fosse um absoluto milagre, embora ninguém no comboio ou na rua o conseguisse perceber – a chance tinha-me sido dada de, miraculosamente, repito, conhecer esse grande, grande génio breve uma vez mais. Senti-me fazer amor com a sua música, pensei nela, lembrei-me de tudo o que era quando o ouvi pela primeira vez – e a dúvida se me colocou, estaria preparado… para sentir tanto. A música que ouvira no dia anterior nunca a tinha ouvido, ouço-a agora, é bela demais, forget her, a questão coloca-se, porque tinhas de morrer…? Preferia que tivesses entrado em decadência musical, dizer que dos teus três ou quatro álbuns só gostava mesmo era de dois, qualquer coisa, desde que não morresses, desde que me continuasses a brindar, para sempre, com músicas assim. Com o teu sofrimento assim, com a tua voz assim, bela e única, sofredora e envolvente, reinventando o amor nos seus agudos, na sua realidade de cometa fugaz demais, frio demais, meu Deus – e partiste, deixando-nos para sempre a imaginar o silêncio que, um dia, poderias ter feito.
Hoje ouço Jeff Buckley quase todos os dias, as músicas que saco da net, raridades, versões ao vivo, demos, qualquer coisa – porque compreendi que apenas Jeff me faz sentir, à sua maneira especial, uma coisa.
Que sou humano, homem, e ainda assim (espanto dos espantos), sinto, ainda assim amo, ainda assim sofro, porque…
Porque um dia me rendi à sua música. Só por isso afinal.
(Don’t) Forget Him.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Vergonha.

Vergonha
Ainda
Talvez
O que tenho sentido em relação a
Nós
Quando
Tu
me perguntas sem perguntar Quem sou eu
e eu só consigo sentir
Saudade.
è vergonha
Quem diria que ela um dia
Me iria fazer amar sem palavras
a tua bioquímica
Electricidade.



Vergonha é
Aquela melodia em jeito de verdade irrepreensível
Que me faz sorrir.
A felicidade estúpida que
Agora
Sinto
Que me faz ficar silencioso
depois do estupor
de um beijo magnetizado à minha saliva
que é o teu
Ondas na minha boca
Vergonha em assumir a vaga
Vergonha quando te despir e beijar
a tua pele branca e
Algo maculada.



Vergonha é o medo deste silêncio, que já sinto
- Com a calma dos profetas cheios de
Charme -
Calmo
Ante a absolutamente neutra
leitura
De mais esta confissão
Conceptualizada
Por magrévias de veludo vermelho e negro
ante um suspiro
Quase em segredo
teu.




Vergonha
É trair-te
com o meu sonho de ti mesma.







Para C.
Ao som de Smashing Pumpkins, Adore, nona música.

21/36/07/01/05






quinta-feira, janeiro 06, 2005

brilhantismos.

Antes de começar estas linhas, disse a amigos meus algo como isto, Tenho de ir escrever, tenho saudades de mim mesmo.
Poses. Como sempre, tenho todos os assuntos do mundo para começar, e nenhum em especial ao mesmo tempo. Digo a todos… apetece-me chorar. Digo… de alegria. Eu sou isto. Eu sou isto e ainda não o tinha percebido. Eu sou toda a soma de todos estes textos, e todos os que ficam por escrever na minha mente torturada, foi preciso tanto, tanto tempo sem escrever para o perceber. apetece-me chorar de alegria, enquanto teclo quase sem pensar rapidamente estas teclas numa orgia quase de sentimento, porque simplesmente me estou de novo a encontrar, finalmente estou a dizer Amo-te com todas as letras completas, finalmente estou a dizer Ser, Quase, Tudo, com todas as letras completas, não deformadas, e se este cenário à noite porque já é noite meu Deus parece de facto improvável, então eu digo que tive testes, tive férias, tive medo de mim mesmo, destreinado, para sempre incapaz de conseguir ressuscitar aquilo que eu considero ser uma sublimação quase perfeita de tudo o que era eu mesmo na génese de tudo isto, decidir tudo – dizer, rangendo, partindo os dentes de raiva, Nunca mais vou escrever. Porque sou fraco. Porque vi nascer abelhas do calor do plasma nas barbas repletas de estrelas cadentes dos velhos com caudas de sereia, é tudo o que peço, um pouco de beleza, morrer afogado no meu próprio amor pela tristeza total, inventar novas palavras para todos os sentimentos que por enquanto são só a merda da porra da filha da puta de um grito mudo que se contorce e se grita em espasmos de música apoteótica que arde e desconforta e queima na nossa cabeça e nos nossos ventríloquos e no nosso corpo como um frio e nos faz querer pegar numa mota e acelerar até ao momento final apoteótico a mais de duzentos à hora contra uma de quente abraço parede de betão ou um salto de uma falésia terrosa em suspiros de vento quente do fim da tarde, correr até as roupas se rasgarem com a liberdade do corpo, conseguir por fim gritar o nome na língua desconhecida que é a nossa, mais do que um orgasmo, mais do que o amor total e permanente, mais do que o desespero da perda de uma mãe pai ou um filho, esse mesmo desespero aliás invertido em total e irreconhecível sentimento, CRIAR! Um poema só conseguindo articular essas palavras, a língua sangrar como um beijo nunca dado ao ar à atmosfera carregada de electricidade da amarelidão ofuscante sem óculos de Sol do Verão, fechar os olhos, pender a cabeça… rir. Meu Deus, rir, ante a total resposta que é este absurdo da vida, perceber tudo. Perceber tudo, pergunto-me se alguém um dia já o sentiu, pergunto-me se alguém já compreendeu o mistério, a questão da vida, se encontrou a resposta como se se transformasse em signo de Zodíaco, se calhar no primeiro orgasmo a dois, no abraço depois desse orgasmo, uma noite quente de gritos e mortes belas como filmes mudos a preto e branco, murmúrios a sépia numa casa abandonada, o nosso antepassado descoberto numa pintura ou fotografia com aquele bigode que nos fez entender que estamos apenas de passagem, somos apenas escuma nas ondas da vida neste mar de incertezas e humanas improbabilidades… efemérides tão belas. que merecem ser partilhadas.
Peço desculpa. era necessário. A apoteose toda, entendem. Ninguém me vai responder, mas era necessário, eu que não escrevia há semanas, cujos poemas (que dossier logo a noite se abrirá para mim? Ir-me-à proporcionar novas viagens?) ainda não renasceram no meu coração, na minha mente que os idealiza mas que não os consegue escrever, eu… e tinha tantas saudades. Escrever rápido, sem pensar, deixar os pensamentos fluir como… como… é ver-te, é ter-te, e eu sinto todos esses, todos estes frémito, escoriações em forma de gadanha na seara verde que é o meu espanto mudo perante ti, perante mim, somos ceifados em nossos corpos porque juntos, porque instrumentos criados um para o outro, eu quero, eu queria e tinha tantas saudades…
De fazer.
Esta dança.
Escrevi que me queria encontrar. A prosa.
A poesia.
São e serão somente sempre isso.
Sempre isso. Não vale a pena negar. É um alívio. Uma descarga eléctrica, bioquímica, como quiserem, que me faz sentir mais do que um animal e por vezes certamente mais do que um humano. Que me faz renegar o homo vulgaris. Que cresce com a força de uma explosão nuclear quando os nossos lábios se tocam por exemplo depois de milénios de lutas e histórias e quedas de impérios vistos, contados e presenciados em mim a cada pessoa que observo e não és tu. Espelhos de reflexos aguados nesta face faiscante de Sol real que nos torna subliminares em relação a nós mesmos – todos estes novos sentimentos; será a minha doutrina? Inventar palavras novas para tudo o que sente?
Se for.
Morrerei cumprindo de bom grado, até ao fim dos meus dias.
Tal missão.
Obrigado. Já tinha tantas saudades. Obrigado por lerem. Obrigado por fazerem os meus textos existirem, quando lêem. Obrigado por todas as críticas.
Obrigado.
Por tudo, afinal.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Lisboa sem ti.

Conquista-me –

Agora que a relatividade subjacente à poesia
nos permite viajar.

Sei o que queres fazer.
Tornaste-te o sol que me deu vida
e se pereci
foi por saber que não brilharia sem ti.
Desci a avenida da liberdade em silêncio
com um sorriso na cara
recordando a conversa da noite anterior.
lembro-me de como repetira para mim mesmo
tudo o que te queria dizer
como se temesse perder-te
por dizer a palavra errada.
Talvez tenha apodrecido
enquanto explorava lisboa suja.
Em momento algum
identifiquei a minha face nas vitrinas -

(sabia que não te podia ter
pois os sonhos não passam disso mesmo)

Vigiei a cidade nocturna
bem do alto da minha existência.
Havia sinos a tocar
e o tejo parecia prolongar-se até beijar as estrelas.
Testemunhei nas suas tristes águas
tudo o que havia perdido.
Vi os dias passar sem ti naquela noite
senti a entediante leveza de sensações precárias.
Sabia quem eras
mas já desconhecia o meu nome.
Quis navegá-las
às mistficações de almas perdidas
que um dia me haviam falado.
Afiei a navalha no lancil do passeio e
quis ressuscitar sem saber como fazê-lo.
Sentei-me no último banco que restava
junto à berma da estrada
o único onde não dormia ninguém

Escondi nas mãos o rosto
que já não via como meu
e esperei pelo fim da noite
na esperança de que voltasses até mim
sem receio ou alarido.
Ouvi a sirene que se afastava
gritando
e apercebi-me de que não te voltaria a ver
e de que jamais sentiria o teu toque subtil
por uma última vez.



(Pedro)

domingo, dezembro 26, 2004

A Cidade.

Quero falar da cidade. Deste grande animal devorador do qual faço parte, e do qual não consigo amar.
Estranhas visões morte-sonho projectam-se-me entre as sinapses frias do meu cérebro.
Eu vi.
O verdadeiro sofrimento entre sangues de fogo lento em chamas laranja, entre os pedintes mais lúcidos do que eu, com os seus olhares de cristal musical, incorpóreo. Quero falar da cidade, é preciso. Alimentada com chuva azul e negra em noites maiores do que a própria vida quando vividas sem dormir.
A cidade.
Corpo estranho no seu próprio mistério por definir.
Começo agora, dentro dela, a tentar decifrá-la. Atravessando todas as ruas na sua penumbra cor de chumbo, um castanho cor de ferrugem contrastando com o céu cinzento das imagens já não utópicas de blade runner. Bandos de homens esfomeados fazem companhia aos cães danados e fantasmagóricos, sempre calados, sempre sem ladrar, que de noite capturam pessoas e devoram sem deixar um único rasto, apenas uma poça de sangue no chão.
Nos bairros de lata, a vida recria-se ao som cortante do vento a bater nas chapas de zinco; e a cidade chama as criaturas esfomeadas com as suas promessas de fumo e de uma vida difícil recompensada com dígitos suados e artificiais numa conta bancária.
A cidade cresce, como um vírus, nas tempestades de pó quando não chove, e cria prédios de lama quando as chuvas arrastam os caixotes do lixo e entopem os escoadores, que contam mitos urbanos que nunca ninguém teve a coragem de tentar decifrar.
A cidade. Como uma garra de muitos dedos vertical, devorando tudo à sua volta. Somos os seus pequenos seres no seu organismo, parasitas, fervilhamos na sua crosta e apodrecemos, até nos deixarmos levar por ela.
Eu sei. Eu vi tudo isto em formato estéreo, de phones nos ouvidos, no início de dias fratricidas e noites sem alma povoada por sombras de humanos e monstros de aços, criaturas da noite, que penso que nunca vi de dia.
Uma selva quadriculada sem ninguém que lidere o topo da cadeia alimentar.
Saio todos os dias para decifrá-la, percorro ruas e vejo imagens e frases aguadas presas nas paredes de tijolo com verdades lúcidas e absolutas, desenhos inconcretos e poças de sangue e vomitado no chão, nuvens de fumo que nos fazem sentir demasiado duros, perros e presos às fundações da nossa própria criação. As pessoas não me sorriem e eu não sorrio a elas. E quando tento sair da minha cidade, entro noutra, aprendo a amar as diferenças mais abismais de cada fileira de prédios iguais de mais, as suas cores mortiças, o seu desespero constante em querer tocar no céu o mais alto possível, um mundo sem sentimentos nem qualquer tipo de coração.
E isso excita as pessoas.
A cidade é antes de mais uma criatura, um organismo vivo, como recifes de coral. A cidade é tudo. É a personificação degenerada da tentativa de se aperfeiçoar fisicamente do homem, através dos seus prédios secos como estacas de madeira no deserto, ruas ácidas de pavimentos rachados e esburacados, empedrados oleosos onde mendigos dormem o sono dos injustos. Portos cinzentos onde o mar, e o rio, abraçam um porto de água amarga e escura ou um areal feito de construções de restos dela própria.
E venero-a. Venero-a justamente por causa disso, pela moldura humana que representa. Pela minha própria face reflectida em cada pessoa, parede com escritos, rua, cão, morte, prédio, poça de sangue, resto de vómito, poeira nos olhos quando não chove, óleo e fumo na chuva quando ela cai e eu desprotegido, frio quando se abre aos ventos frios, ou calor abrasivo quando o Sol castiga-a impiedosamente, e árvores não existem porque a cidade as devorou.









































































































































































































Odeio-a.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Não há garantias.

Aproximo as mãos trémulas lentamente da lareira para me aquecer um pouco. Mudei-me para esta velha casa onde em tempos viveram meus avós porque morrerei dentro de dias. Não estou doente – nunca estive. Há três meses atrás voltava a casa pela mesma estrada de sempre, olhava para os carros que todos os dias faziam o mesmo percurso de regresso à sua vida familiar. Um rebanho de gente cansada em mais um final de tarde cinzento. Olhei pela janela do carro. À minha direita, uma miudinha que não poderia ter mais do que cinco anos, de cara sardenta, fazia-me caretas despreocupadas. Apeteceu-me sorrir. Na rádio ouviam-se as noticias de mais um dia de quedas na bolsa, de acidentados não muito longe dali, de políticos cheios de ideias, de mais um atentado terrorista, das vitórias e derrotas no futebol; e apercebi-me de que não mais sairia daquele cenário, de que estava eternamente preso. Desliguei o carro e as vozes na rádio pararam de falar. Saí. Fechei a porta e senti ligeiros olhares à minha volta de quem estranhara a minha decisão. Não me importei – sabia que também eles pouco se importavam. Olhei novamente para a miudinha que ainda há pouco me fazia caretas. Sorri-lhe. E fiz-me ao caminho. Cheguei a casa era já noite cerrada. Passei as horas seguintes acordado a queimar as últimas cartas que recebera alguns anos antes. Já não havia razão para ficar. Deixei a chave na porta, podia ser que alguém precisasse de dormida e encontrasse ali um refúgio. Respirei fundo...e parti. Houve quem lhe chamasse rapto. Loucos houve que lhe chamaram magia. Sempre tive alguma predisposição para acreditar um pouco mais nas palavras de quem não se rege pelos padrões habituais a que aprendemos tão inconscientemente a designar por sanidade. Estava sozinho e podia fazer o que quisesse, mas não havia grande coisa que me apetecesse fazer. Podia ter chorado, podia ter implorado, Por favor, não me deixem partir. Mochila velha às costas, pouca roupa guardada, alguns objectos pessoais, um leitor de cd’s, alguma música, uma caneta, algumas folhas, um maço de tabaco, um isqueiro, algum dinheiro e muita tristeza no corpo. Durante duas semanas caminhei sem destino definido. Pela primeira vez senti que tinha, de verdade, um objectivo. Disse bom dia às poucas pessoas que por mim passaram e eventualmente cheguei à casa dos meus avós que tinha agora um aspecto abandonado, a mesma casa onde passei alguns verões da minha parca infância. E lembro-me do quanto adorava correr, rir, jogar à bola, tocar à campainha de alguns vizinhos na companhia dos putos que comigo se aventuravam pelas ruas da aldeia, lembro-me de como nos divertíamos a ver o velhote de barbas que irritado nos perseguia, a quem inocentemente chamávamos de pai natal – ainda hoje acredito que ele não via maldade nos nossos actos e que docemente se divertia connosco, brincando ao faz de conta, no papel de vilão. Encontrei no sótão da casa a velha bicicleta vermelha que me tinham dado por altura dos meus anos, por ter tido boas notas. Sentei-me com algum custo nela e fui pela aldeia, pedalando durante alguns minutos por entre as ruas desertas. Parece que ao longo dos anos as pessoas foram partindo em busca de novos endereços e que aqueles que ficaram, cedo ou tarde, morreram de solidão. E senti-me só. Já em casa, tentei ainda espreitar de relance pela janela na esperança de que nas estrelas ou na lua cheia encontrasse alguma companhia. Mas já era tarde. Durante as semanas que se seguiram estabeleci nova rotina. Levantava-me cedo e ia para o quintal cuidar da laranjeira que o me avó lá colocara com tanto apreço poucos dias antes de falecer, o resto do dia era passado a tentar consertar o soalho, a pintar paredes, a recuperar mobílias, a tentar dar nova vida à casa, a tentar construir harmonia num cenário de desolação; já de noite, sentava-me junto à lareira para escrever no diário que ultimamente se tem sido o meu consolo nas longas horas de frio mais intenso.
Certa noite terminei a obra. Com orgulho observei a casa e o brilho que agora decidira lá morar. Porém, senti-o novamente, o mês vazio que me havia trazido até tão longe. Constatei a minha verdade: não poderia fugir de quem era. E o meu destino já está traçado. Uma decisão sem pompa nem circunstância, uma simples opção de vida. Dentro de dias, quatro ou cinco, não mais, subirei ao sótão onde o cenário da minha execução já está montado. Subirei para o cimo de um bano de madeira e à volta do meu pescoço colocarei a corda que me levará até à eternidade. E por fim, num sulco, num impulso, num momento, num centésimo de segundo, darei o último balanço e sentirei o meu corpo dormente cair por curtos instantes que mais parecerão largos minutos, e já não sentirei o pescoço partir se tiver sorte. Não sufocarei, quebrarei apenas. E poderei, por um dia ou para todo o sempre, se possível, deixar de sentir dor, deixar de me sentir só, deixar apenas de sentir. E pode ser que desta vez tudo faça sentido. Mas...



(Pedro)

quarta-feira, dezembro 22, 2004

adeus, feras portentosas. iremos cristalizar-nos por entre as areias deste tempo esquecido para sempre.

vamos tirar umas pequenas, curtas férias, eu e o Pedro, não para nos encontrarmos em nós mesmos, só mesmo para tirarmos férias. eu, continuarei pelo menos a escrever no papel. ele não sei... mas sei que iremos escrever juntos poemas que nunca ninguém se terá lembrado de perguntar.
neste momento repousam já à minha volta algumas prendas de natal, algumas prendas de anos, uma máquina fotográfica com cenas a preto e branco de uma vida quotidiana e onde a nossa juventude será relembrada para sempre. música bela demais para ser decifrada por palavras anda por aqui, nste escritório onde néons de uma rua lá fora brilham-me na cara, o frio - era como dizer que o nosso único crime é sentir o que quer que seja.
não quero filosofias aqui, nem agora. não quero coisas doces. quero desejar um natal, feliz se for possível, a todos vós, leitores, amigos, ou ambos. um núcleo que, se não duro, é pelo menos um núcleo em si mesmo.
vergonha. shame shame shame...
obrigado por todos os comentários forçados, esforçados, sentidos e tristes ou apaixonados. até mesmo os que são mandados por e-mail por alguma razão que desocnheço mas aos quais dou exactamente a mesma importância - que é toda - e aos que são apenas ditos por palavras, visto que não existe uma coragem de escrever o que quer que seja. eu e o Pedro compreendemos tudo isso, não nos cansamos de dizer qwue vos adoramos, a todos, os que dizem e os que lêm, para continuarmos com o nosso trabalho, para continuarmos a desbravar o que quer que exista para ser desbravado.












é importante.


































































































































obrigado.
feliz natal.

adeus, feras portentosas. iremos cristalizar-nos por entre as areias deste tempo esquecido para sempre.

vamos tirar umas pequenas, curtas férias, eu e o Pedro, não para nos encontrarmos em nós mesmos, só mesmo para tirarmos férias. eu, continuarei pelo menos a escrever no papel. ele não sei... mas sei que iremos escrever juntos poemas que nunca ninguém se terá lembrado de perguntar.
neste momento repousam já à minha volta algumas prendas de natal, algumas prendas de anos, uma máquina fotográfica com cenas a preto e branco de uma vida quotidiana e onde a nossa juventude será relembrada para sempre. música bela demais para ser decifrada por palavras anda por aqui, nste escritório onde néons de uma rua lá fora brilham-me na cara, o frio - era como dizer que o nosso único crime é sentir o que quer que seja.
não quero filosofias aqui, nem agora. não quero coisas doces. quero desejar um natal, feliz se for possível, a todos vós, leitores, amigos, ou ambos. um núcleo que, se não duro, é pelo menos um núcleo em si mesmo.
vergonha. shame shame shame...
obrigado por todos os comentários forçados, esforçados, sentidos e tristes ou apaixonados. até mesmo os que são mandados por e-mail por alguma razão que desocnheço mas aos quais dou exactamente a mesma importância - que é toda - e aos que são apenas ditos por palavras, visto que não existe uma coragem de escrever o que quer que seja. eu e o Pedro compreendemos tudo isso, não nos cansamos de dizer qwue vos adoramos, a todos, os que dizem e os que lêm, para continuarmos com o nosso trabalho, para continuarmos a desbravar o que quer que exista para ser desbravado.












é importante.


































































































































obrigado.
feliz natal.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

doce.

Hoje disseram-me, não a este som de Ryan Adams que me repete constantemente que o amor é um inferno, que não sabia fazer absolutamente mais nada a não ser ler e escrever. Nulos, talentos, para outras tarefas que requeressem jeito. Génio, desembaraço. No fundo, sou um pintor que não sabe pintar. Então decidi desenhar palavras.
E as férias que vêm. Eu sinto-me perdido, na verdade. Prometi, a amigos meus, que iria escrever um post. Frases curtas, pontos finais com a força de um murro. Mas… que de facto farei eu a escrever? Escrever valerá a pena…? Tenho pensado muito nisto nestes meus últimos dias. Quero… quero saber se vale a pena, verdadeiramente, escrever. Oferecer como amarga prenda de natal ao meu amigo Pedro, a chefia final deste blog. Remover-me, como se eu fosse um pedaço de mobília velha numa casa demasiado espaçosa mas a necessitar de ser arejada. Procurei sempre a beleza nas palavras, mas é inútil procurar beleza onde ela não existe. Afinal, as palavras são sempre palavras - e se eu escrevia para me manter são, para encontrar a calma e encontrar-me, então admito que me queria perder um pouco, desconhecer-me, não saber o que quero. Talvez assim a vida seja mais fácil de suportar.
Isto talvez pareça demasiado soturno… pergunto-me, mas sem me importar muito… que tipo de imagem de pessoa eu transmitirei às pessoas que aqui vêm ler e que não me conhecem…? Ainda bem, nesse sentido, que são poucas. Vou-me envolvendo neste devaneios e pensamentos, a prosa vai crescendo, mas mastigada sempre com o mesmo cinzentismo de sempre. E este texto não está interessante e ninguém vai lê-lo até ao fim porque não vale a pena. Tanta lucidez às vezes e ainda escrevo… para quê escrever, expliquem, para quê um homem escrever o que quer que seja quando ele já matou e inverteu as palavras expandindo, até, na sua mente, pelo menos, os limites do seu universo. E, ninguém se importando ainda por cima.
Não.
Queria. Tirar umas férias. Aprender…a soltar rasgos de fúria através de uma guitarra eléctrica. Poder exprimir da maneira correcta a minha tristeza e melancolia agora tão saborosas, acreditem… - com a toada triste de um saxofone solitário. Sabem, aquelas melodias tão bonitas que só aparecem nos pedintes cheios de estilo em filmes sobre Nova York, em céus azuis de chuva rítmica.
Até já…
O dia foi violento. As colunas do meu pc estão estragadas. E isto não interessa para ninguém. No entanto, porque sou humano, percebem…? Porque sofro e esta é a melhor maneira de extravasar tudo, porque os sonhos não conseguem ficar presos neste meu horizonte de imagens e filosofias que é a minha mente, escrevo. E porquê…? Não seria bem mais fácil enlouquecer de outra forma, através da sanidade adormecida…?
Alguém me explica o que se está a passar?
Gostaria de dizer, depois de ter cortado os pulsos e visto o meu sangue quase preto a escorrer, hospital com ele rápido, a revelação que a vida é um milagre triste, que estou mais calmo… sim. Mais calmo. Era preciso, não era…? Que espécie de ser esquizofrénico sou eu, que mato pessoas e escrevo pela boca de crianças violadas, em meus poemas…?
Afinal, somos todos monstros. Mas que tipo de monstro sou eu.?
Um dia o Carlos Cruz, há uns anos, queria tentar o suicídio. A notícia apareceu há uns anos num jornal que agora não me recordo. Morte em grande; a pistola estava encostada à têmpora, casa vazia, claro, um homem que é homem deve morrer solitário e sozinho, o suicídio se for feito com estilo pode por uma figura contornável da televisão na história. Um amigo ligou-lhe, por acaso. Não sei que falaram, não sei porque se queria matar. Mas a sua vida de hoje é certamente bem pior do que a de há uns anos. Então, pergunto-me.
A pergunta é óbvia. Não percebo. Juro que queria isto: … não, não vou escrever isto. Chega. Tanta lucidez assusta-me ainda. Porque um
Quando agora inspirei para teclar de novo as ideias cortantes não surgiram de novo. Só as dúvidas. Que texto é este, que texto é este que é todo fruto da minha mente. Quero amar-te devagar, escrevi. Quero também sentir-me devagar, amar a minha vida devagar, sinto sempre, caros leitores meus amigos, que não sou merecedor dela. Precisava de umas mortes na família, precisava que alguém me desse um par de estalos por estar a dizer tantos disparates. Não consigo parar, é óbvio. Ninguém muda assim tão completa e radicalmente, admito que existe também um pequeno, bem escondido… prazer mórbido que leva as pessoas a fazerem esgares com a face quando lêem o que escrevo.
Mas só sei escrever, não é. Sou um diletante, na verdade não sou nada disso. A cena é esta: eu nem sequer isso acho que mereço ser merecedor de tal conotação. Talvez seja da heroína que tomei ontem, a minha primeira viagem a um mundo melhor. Talvez seja das ideias que escorrem como uma cascata pela minha boca, nariz e que me dizem que estou condenado a sobreviver, a existir. A perder, e a levantar-me de novo, fazendo manguitos à vida com a mão esquerda.
Gostava de ter sabido desenhar bem. Pintar umas notas musicais que não soubesse tocar, para complementar as que já soubesse.





























































O sentido deste texto deve ser visto à luz da criação artística cheeeeia de sono.
Não, ainda não quero acabar a minha reflexão implexo-invertida.






























































































Vibra.
Quero também dizer algo mais. Fronteiras…? Que fronteiras? Existe este medo: meter tudo arrumadinho, quebrar os cânones é entrar nos non-senses que os mestres repudiam por já terem visto a luz que nunca os queimou.
Quero dizer várias coisas. Sou um gajo porreiro. Rio-me muito, leio pouco hoje em dia. Escrever…? Foda-se. Três poemas Sábado, quando os dias ainda eram jovens e eu acreditava em mim mesmo - matar. Nunca. Não quereria na verdade. Sinto-me demasiado bem a imaginar como seria, para ter de escrever sobre isso.
Raiva. Mas certamente. E quero ainda dizer algo belo, que é amo-te. Amo-te imenso, ainda mais nos intervalos das palavras que não digo, é verdade… amo-te mesmo imenso, dói um bocado, mas vale decerto a pena quando estamos juntos. Sei lá, amo-te, percebes…? Parece que a palavra, que nunca soube bem, sabe bem agora, como se fizesse todo o sentido, mesmo depois de ter sido mutilada em milhares de mensagens de telemóvel de betos e juras ditas nos primeiros namoros como se seguisse um protocolo. A palavra parece renascer agora, eu amo-te. Quero estar contigo, fazermos amor sem olhar para o relógio, adormecer depois a teu lado quando estivermos demasiado cansados para nos beijarmos. Amo-te, percebes. …Amo-te e é como se eu tremesse todo, com medo de mim mesmo quando te digo isto, que te amo e porque te amo, como se tu não o soubesses… Mas a verdade é que amo tudo em ti, mesmo que depois me tornes cego com cada beijo que me dês - e eu nunca quis que partisses. A forma como mexes o teu café, como mexes no teu cabelo, como te ris envergonhada, ou como fumas tão discretamente, como se o cigarro fosse apenas uma extensão do teu corpo. Sem qualquer estilo. Estou cansado, meu amor. Tanto, e tanto… queria estar contigo agora, apareceres enquanto escrevo, olhar para ti como se fosse normal de facto estares aqui, comigo, neste momento em que te tenho mas não te sinto. Abraçar a tua cintura, e enterrar a cabeça no teu peito, respirar o teu perfume. Unir os nossos lábios húmidos com o magnetismo de uma prece tantas vezes imolada, pelo menos cada vez que te relembro, cada vez que não te tenho. Dizer amo-te enquanto os nossos corpos se unem (o Inverno pode ser tão pouco condescendente com os amantes…) e deixar, de sentir frio. O meu coração falha batidas, sabes.
…quero dizer. Que te amo. Quero dizer ao ouvido sem ter cabrões a ouvir ou a intrometerem-se entre o nosso amor frágil e belo como as lágrimas de uma pomba branca, de asas partidas, que te amo, amo-te meu amor, é isto… suspirar e deixar os gestos
Espera. Amo-te mesmo fora destas palavras.











































Parte três.
Hinos. Hinos são tudo aquilo que eu posso ter querido dizer, ideias gerais… um pedido de desculpas em forma de insulto por ter estado tão longe (o meu gato está agora no meu colo…), tentar perceber porque é que faço o que faço, assomo de vergonha. Amo-te.
Pedido de desculpas.
Hoje deve ter sido o meu dia de sorte. Era algo que gostava de te ter dito, quando te vi. Quero justificar-me, perante a vida. Vender um livro bonito, não muito complicado. Um sapateiro que cuida de uma mongolóide que a mãe deixou e se foi embora, na sua sapataria.
Gostava de beijar-te agora, abraçar-te, ser um bocado um puto novamente, não sei se compreendes. Estou frio esta noite. É pensar…
Acho que a vida me corre bem, cada vez melhor. De dia para dia.
Então, porque é a começo a senti-la tanto quanto uma curva?

































































Obrigado a todos os que leram. A todos… palmas. Vocês merecem tudo o que eu nunca vos poderei dar.
Definam lá o que isso é, por favor.









































































Obrigado.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

adeus, meu amor.

Odiaria ter que te dizer adeus
sem ter de ti um último sorriso.
Mas ouve o que te digo
quando falo em passado
ou tristeza ou vazio.
A verdade é que não os conheço
como a ti conhecia.
Não sei se te apressaste
para te vires despedir
no dia em que parti.

Sabes, não tive medo de partir
apenas receei que te esquecesses de mim.
E acredito que a altura chegou
de te dizer que não me esqueço.
Outrora quis dizer adeus
e nunca percebi se foi coragem
deixar tudo por terminar.
a verdade é que o que fica inacabado,
cedo ou tarde,
nos traz de volta a dúvida.

E lembro-me bem de ti
e de como te conheci:
Mas o que é a vida
senão dúvidas de ressaca?
Despedi-me da vida eterna -
a teu lado seria imortal.
Mas eventualmente todos perecemos.
E eu não queria fazê-lo -
agora que deitado vou convalescendo -
sem antes te dizer, adeus, meu amor.


(Pedro)

estou a afastar-me do propósito de ter um blog puramente para prosa e poesia? não. este blog é o que eu quiser, e excepções podem e devem existir.

My japanese name is 秋本 Akimoto (autumn book) 明 Akira (bright).
Take your real japanese name generator! today!
Created with Rum and Monkey's Name Generator Generator.







quarta feira, ou quinta, entro de ferias, os testes acabam, e poderei voltar a postar.

domingo, dezembro 12, 2004

Se não me engano, qualquer coisa

É domingo e para mim geralmente é sinónimo de pouco fazer. Decidi passar por aqui, deixar algo de pouco relevante talvez por algum sentimento de culpa pelo facto de a única coisa que postei para vocês nos últimos dias ter sido motivado por alguém que não sei ao certo o que é nem de onde surgiu - mas que surgiu. O que vou eu fazer? Por isso peço desculpa e venho tentar lembrar-vos de que as motivações deste blog vão um pouco além de tricas e disparates. Pese embora o facto de, democraticamente falando, também estes terem lugar. Mesmo aqui. Quer isto dizer que me arrependo do que escrevi? Obviamente que não. Tenho orgulho em todas as palavras que depositei neste espaço pois foram também para vocês, tem disso, sejamos honestos, até que teve (a sua) piada. E o que me protege a mim? E que foi feito de nós os dois, João? Não te preocupes, caro companheiro de letras. O que tiver de acontecer fará sempre sentido num plano final. E está descansado, o que quer que se verifique abandono aqui a minha certeza de que gente como tu faz sempre a coisa certa e mesmo quando erra...fá-lo com estilo.
Há poucos dias fiz anos. Nestas alturas sinto sempre receio de ser assombrado por uma qualquer nostalgia “própria da idade” – expressão fantástica porque pode ser aplicada a qualquer idade. Independentemente disso, queria só deixar aqui um modesto voto de apreço por todos aqueles que me deram a possibilidade de poder dizer com clareza e sem receio, que as pessoas existem, que nem sempre é incorrecto da minha parte relaxar...e apreciar o que vejo.
Queria agradecer a quem tem comentado. Queria agradecer a quem tem lido. Queria agradecer a quem.
É de louvar que haja quem tire uns minutos dos seus dias apenas para dar mais uma oportunidade a um par de jovens incautos (Ah a juventude, a juventude) que pouco mais querem do que escrever...
E escrevem.



E escrevem.


(Pedro)


P.S.: Se não me engano, acho que esta foi a primeira vez que postei algo que quase, só mesmo quase, se assemelha a uma qualquer espécie de reflexão...mas não se assustem, não foi certamente por mal.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

calhambeque - [Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

VRRRRUUUUUUUMMMMMMM lá vem o poeta, louco, destemido, que grita sem piedade: EU SOU O MELHOR NAQUILO QUE FAÇO (realce-se as maiúsculas...ensinaram-me em tempos que todo o pequeno ser sente necessidade de enfatizar as suas certezas).
A multidão delira, inebriada pela irreverência do ferrari poético que se aproxima.
Pára um pouco, o tal poeta. Sofre uma brutal crise de inspiração...baixa as calças e recita.

Sou poeta
eu cá não sou rabeta
repito-o a toda a hora
para não o pensarem sem demora


[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Eu não conto a ninguém – a verdade é que hoje descobri a luz...veio de um jovem em crise de supra identidade, ou seja, tem tanta certeza sobre quem é, sobre o que é que faz, que acredita do fundo de si mesmo que já não tem nada a aprender. Pois bem, meu rapaz, tenho a tua idade e um pouco mais de ousadia, portanto vim aqui hoje dar-te uma pequena lição (é terrível, mais um “professor” a querer assombrar-te), não de carácter, descansa, em primeiro lugar, lembra-te de que o meu nome é pedro, caso sintas necessidade de fazer algumas das tuas brilhantes rimas dedicadas a mim, por favor faz isso... e sim, vamos delirar os dois, faço-te hoje, aqui e agora, a proposta, seremos tão felizes os dois juntos. Tu a mandar, eu(e todo um mundo) a obedecer. Sabemos bem que é assim que tu gostas das coisas, não é...?
Em primeiro lugar, vamos por partes. Já fiz uma passagem pelo teu blog, gosto de aprender com as pequenas coisas. E agora sim, porque sei que és infantil ao ponto de achares que não o és, porque sei que depois de ter conhecido através das tuas...hum, digamos, “palavras” terei mais uma história para contar aos meus netos sobre o tempo em que atravessei países à procura de personagens para o livro: “Aberrações e afins – um manual para todos aqueles que SÃO DOS MELHORES NAQUILO QUE FAZEM”. Ou nem tanto. Sei que gostas de atenção...todas as crianças gostam, principalmente as mais...espevitadas. Oh sim, meu caro amigo, confesso, foste tu quem me deu o meu maior orgasmo de comicidade até hoje. Mas já me arrependo, apercebi-me de que a arte do teu escárnio não advém do que dizes, nem de quem és, mas sim de toda a personagem artística que, consciente ou inconscientemente, decidiste criar. Um pouco com aquele outro...um tal de Castel Branco – e digo isto sem querer apropriar-me de todo carácter cómico inerente à simples referência de tal ser, nem o poderia fazer, pelo amor de deus, afinal de contas, já vão em quase dez os minutos do meu precioso tempo dedicados a...coisas, como tu, caro blogger.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Mas sejamos um pouco sérios, por instantes, embora pareça difícil. Disseste no teu blog Se calhar, e muito provávelmente, não sabes quem sou./Não imaginas as merdas porque passei, não sabes o que eu vivo.../Como podes tu avaliar aquilo que eu sinto?/Ou aquilo que eu escrevo?

Eu podia ser mesquinho e fazer das tuas minhas palavras e o mundo seria logo mais bonito e justo porque toda a gente respeitaria as outras pessoas. Mas não. Sabemos bem que não é assim. A verdade é que pouco me importa aquilo por que passaste. Aprendi ao longo dos tempos que as melhores pessoas que passaram pelos piores momentos não sentem a necessidade de se vitimizar. Quanto a ti, lamento. Apenas isso. Passas os dias a chafurdar na tua própria noção do que é bom e deixa de ser. E pronto, ficaste por algo relativo: és o melhor. Eu limito-me a prestar-te tributo, és grande, tás lá e tal, tudo isso. Sabemos bem que gostas de o ouvir.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Continuem a prestar atenção às mensagens subliminares. Quanto a ti joão, tenho que ser honesto contigo...foste, em parte, ingénuo ao ponto de pensar que este jovem imberbe teria a maturidade emocional para assimilar uma crítica. Negativa, por certo, mas construtiva. Não te preocupes, terás outras oportunidades, por certo mais aliciantes. Mas pronto.

Uma pequeno reparo, meu caro Ankh Aton, não penses que te criticam por maldade ou gozo...a verdade é que mete um pouco de pena esse teu complexo de superioridade absoluta. E não, não entres na simples critica do “ah o joão não se consegue defender sozinho e tal” (se tens o mínimo de intelecto certamente já terás percebido o contrário), ou então nas que tu gostas bastante de índole sexual e tudo o mais.
Divertes-me a sério. Conseguiste, com primazia o teu tão almejado objectivo. Mas olha, tenho de ir, lamento se não consegues lidar com o que se faz neste blog com humildade e imparcialidade. Sabemos bem que teríamos todo o gosto, tanto eu como o joão, de o fazer em relação ao que tentas transmitir...embora não facilites.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]



(Pedro)

resposta breve a um post de um gajo que quer que eu lhe meta o punho no cu.

Recebi hoje no blog que vos deixei há uns dias, um novo poema dedicado a mim. Olha que porra… sou importante. O projecto deste blog está a ficar demais, de facto. O Pedro penso que escreveu qualquer coisa também, ele depois posta aqui. Deixo este comment aqui porque o sitio pós comments do nosso caro Ruben não tem parágrafos; as estrofes ficam assim, então, obviamente, fodidas. Fui politicamente correcto, entre um cd que estava a ouvir bem calmo por acaso, e conversas entre pessoas no msn, por isso demorei mais tempo a escrevê-lo. Para verem o blog que o miúdo me deixou, vão a http://lts.blogs.sapo.pt/


Caro ank, se é que te poderei chamar Ruben
As únicas batalhas em que participei
Rasgaram-me o corpo de mil cores como ventos ciclónicos
Batalhas em que perdi e amei
A própria derrota que vi pelos olhos cónicos
E cansados ardendo em fogo lento tão delicioso
Não direi que mereces uma resposta à altura
Por isso repara, uso o teu estilo, que me é contra-natura
Quanto ao resto pouco mais poderei dizer
Tenho plena consciência de que o web surfer se sabe defender
É meu amigo, claro
mas tu ao pé dele não vales mesmo a ponta de um charro.
é engraçado: dizes que poesia como a tua eu não sei fazer
e que a minha está datada; pergunto-me se terás conhecimentos de poesia
a sério; não te custava nada a aprender
e a engolires talvez um pouco a ousadia
de te considerares o melhor nesta arte tão ampla e criativa.
O resto são insultos vazios
Acredita que arranjaria reposta e também formas de te humilhar para cada boca
E cada rasgo de tremor frio
Que tiveste quando num mail pessoal me vieste pedir tréguas
com palavras ocas
não embarcando com lógica num espírito combativo
mas é óbvio que o orgulho, o maior assassino humano, te atingiu
a mim também, um pouco, mas somente no sentido de te mostrar
que eu não sou como o que bateu e depois fugiu
gostei da tua crítica negativa
tu certamente mereceste a minha
mas só devido ao facto de a achar tal coisa
;mas não ma deste, é engraçado; dás-ma agora
para talvez os teus amigos verem
e talvez erroneamente perceberem
o miúdo infantil que és quando chega a hora.
Não és grande; és somente um miúdo assustado
Que se sente sozinho nos ecos dos momentos em que pára para pensar
O desespero dos teus pensamentos é encoberto pelo sarcasmo
Mas, é óbvio, não será alguém como eu, “poeta” desterrado
Que te fará admitir isso.
Batalhas? Que batalhas? Brandes o teu punho no ar, proclamando a tua vitória
Mas não é comigo que lutas, é contigo mesmo
E com a tua dúvida clamorosa
Que te aperta o peito
Qual é não sei
Mas como sempre te disse
Nem sequer me interessa se amanhã já não existes.
Continuo a pensar que faço metade, do que tu fazes
Pelo menos em poesia e prosa, as minhas têm de certo raízes
Mas não tenho nada publicado, nunca ganhei um prémio
Duvido muito que tu tenhas alguns recebido
Quanto ao teu livro
Dá-me o nome para eu o comprar e ler atentamente
Pode ser que quem sabe, eu ao contrário de ti tenha a humildade suficiente
Para talvez aprender algo
Quanto mais que não seja a fechá-lo
Prematuramente.
Há, e… nunca vi o 8mile, e não curto eminem
Prefiro o caos de outras bandas que afirmo-te, não têm nada de zen
Não quero fazer nada contra um puto que não quer saber
Mas pensa que tipo de pessoa te tornarias se de facto quisesses
Bocejo em relação a isso, ri-me com alguns insultos teus
Não é sequer uma questão de se, ou não, os merecesses
Apenas insultos.
Vultos
De raiva disfarçada de risos mudos
De um puto
Que não sabe aceitar uma crítica negativa…um ditador
Se tivesses um dia essa chance na vida.
Tou-me a cagar para os teus erros
Se não os desses diriam talvez que eras menos lerdo
Dás os que quiseres desde que não seja eu
E em relação à arte da riam, como podes saber?
Já a pratiquei,
Já a emulei pelo simples prazer de a fazer
E nunca a viste;
logo as tuas críticas são tristes
Mas soube voar mais alto
Para ti, mais baixo
São opiniões, claro
Mas ela deixou de me dizer tudo o que tinha para me dizer
Para poder procurar-me gritando de forma mais clara a um mundo mais áspero.
Para finalizar…
(não porque não tenha argumentos para te foder,
mas porque descer ao teu nível não me dá nenhum prazer)
não tenho nenhum complexo de inferioridade
quando chegares à minha idade, e tiveres a obra que possuo
e ser considerado pela minha editora um trunfo
espero que olhes para as tuas batalhas
livros
prémios e algum falso prestígio
e te sintas pequeno
não em relação a mim, amigo
mas a ti mesmo.
Porque aí, talvez tenhas crescido.



Em relação à minha dica em inglês…

“we are always in the gutter but some of us are looking at the stars”
Oscar Wilde.
Poderás considerer-te tu, ahnk, um desses delizardos (ou, quem sabe, amaldiçoados?



Se quiseres uma resposta em prosa, terei todo o prazer em te cilindrar.



Pessoal, comentem. Gostaria de ouvir a vossa opinião. Mas não sejam como o web surfer (Nuno para quem não sabe, um amigo meu que não vejo há um ano, e que deixou o comment no post dele sem eu saber de nada. E falo a sério aqui. Nem sabia que ele tinha deixado lá um.)