segunda-feira, janeiro 31, 2005

e agora para algo completamente diferente.

a que velocidade é que temos medo? perguntem ao paneleiro do meu tio ernesto quando morreu atropelado por uma velhina num buggy. o mundo é assim, cheio de encontros e desencontros. nada faz muito sentido, só quando se esté bêbado. quando se está bêbado todas as pessoas são fixes e nossas amigas, e se por exemplo nos mijarmos no meio da via pública, calças abaixo numa sinfonia de riso feliz, só nos chamarão corno de merda, nem sequer nos batem. ou paneleiro. ou bêbado, somente. mas não que isso importe muito, porque a bebedeira é uma coisa que assim meio machona. eu gosto de me embededar, porque é das poucas vezes em que putos de seis anos me podem atirar com fezes secas de cão e eu ainda mandar caralhadas mas não fazer nada, ou seja; em suma, tenho uma razão para me armar em preguiçoso. talvez seja como beijar a minha avó: não posso forçar muito o linguado porque é possível a dentadura desfazer-se, o mais sólido que ela anda a comer estes dias são batatas cozidas e côdeas de pão molhadas em água quente, o seu chá poupador - chá normal, mas sem a infusão de ervas.
é fodido amar-se a nossa avó. ainda da última vez que estive com ela disse, avó, caralho quero mesmo dar-lhe uma pinocada. e diz ela, o quê, minha filha? (não, não é por eu parecer uma virgem qualquer, é porque teve uma filha e desde então nunca mais se habituou), e eu digo-lhe, olhe, esqueça. vamos amarmo-nos. quero amá-la devagar, chupar as mamas descaídas e enrugadas e sentir a minha língua, com tanto prazer e amor, na sua vulva quente a saber a chichi, quando resgar a fralda com os dentes. e quero enfiar o meu pau no seu rabo, com tanto amor, que gema de felicidade, apertar-lhe as mamas que lhe chegam ao umbigo por trás, sei lá - beijá-la várias vezes na boca sem dentes e apenas com três salientes, com um bigode maior que o meu - porque, compreenda, me excita. não, não diga nada agora, quero ainda que depois me faça uma mamada, chupar algo pensando que é o aspegic ou o bissolvon mesmo que lhe chegem lágrimas aos olhos quase cegos e edepois se engasgue com o meu quente leite salgado. era enfiar-lho todo na boca, percebe? e depois beijá-la de novo, outra vez, despi-la toda a e contemplar o seu corpo, e tirar fotografias com o sentimento amoroso ardente dos apaixonados. mesmo com a trombose, avó, mesmo com a dificuldade em se levantar hoje em dia. é fodido amá-al, mas eu amo. vamos foder? e assim seriam as coisas, mas a minha mãe não quer. é estranho. às vezes, quando percorro as ruas de lisboa para ganhar algum dinheiro levando no cu, eu penso na minha avó. fecho os olhos e penso nela, par tornar as coisas menos dolorosas, e fico a pensar como é bom fazer tudo o que ando a fazer, mesmo sabendo que quem me está a pôr o pénis na boca ou quem me está a fazer snagrar o rabo são velhotes. mas eu amo-a e por ela faço o esforço. e com o dinheiro que arranjo comrpo fraldas, das descartáveis, claro, para poder cheirar o seu cócó quandolhas mudo, às vezes toco nele com a minha língua, e quase que tenho um orgasmo.
a vida é bela quando te tenho ao pé de mim, então.
amo-te avó.

sábado, janeiro 29, 2005

Maresia violenta.

Procurei
uma forma de inutilizar
a ajuda
Rompendo
as redes de um mundo
só meu
como o brilho
que se cria
a cada instante de melancolia
a cada poema que exige morrer.

Mas sem ti
optei por esquecer
tudo aquilo que me trouxe
Até aqui
e bem sei
que permaneci igual
mesmo longe das certezas
que um dia
me haviam feito homem
indefeso.

E senti o medo que me fez
vacilar
Fechei os olhos
e sonhei com a particular leveza
que compõe os sonhos
E por onde andei
pensei saber onde
Ficava
E houve até um instante
em que imaginei a maresia.

E então o mar desistiu de bramir.


- Pedro -

quinta-feira, janeiro 27, 2005

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UM SOPRO IMPOSSÍVEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEL
!
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!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!






IMPOSSÍ










- Assomados. Os verdadeiros reis da noite sem face cuja existência abstracto-sistemática desafia as leis da poética, erguem-se.
Imprevisíveis na sua beleza negra ante o sangue invisível que escorre das sarjetas
Deste mundo.
Que tanto odeio por já nada ter para me oferecer.
Oh
Eles estão aqui… este crescendo silencioso… não se sentirá a reverberação?
Perdemos tudo quando tentamos decifrar a loucura da racionalidade e os invocámos.
Nada se reflectiu na nossa mão de prata.




Nada foi o que sonhamos.



A sensação de sabermos que aquilo que pensamos que nos transcende e por isso o percebemos, mas na verdade NOS TRANSCENDE MESMO.
A realidade impossível da loucura. Nós vimo-la. Ri-me até os dentes caírem em cascatas de vinho cheio de mosto. Todos. E a garganta, nesse espasmo incontrolado, espremeu sangue das minhas cordas vocais enegrecidas, uma música gorgolejante, enquanto eles vinham, e nos subjugavam.
Salve, reis e rainhas de outras eras futuras. Quem somos nós. Porque nos matais, quando apenas procuramos respostas. Todos morrerão como nós? Este segredo é grande, é segredo demais para nunca ser decifrado. Temos medo. Eu sei que essa faca que me corre pela artéria esquerda e me faz sono, enquanto morro à tua face, segundo.
Não pode ser real, como eu sei que ela o é. É preciso
É preciso avisar as pessoas! É preciso avisar depois deste nosso bruxedo, que vocês só existem se acreditarmos em vocês, pessoas, ouç











Ao contacto da memória. À imperceptibilidade gasta pelas noites de deboche insano em telas, em folhas brancas desenhadas em código, palavras em forma de lâmina.



















Eu vi

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Só.

Escrevo-te, aqui, nos limites quase bonitos, muito frios, do meu próprio…sono. Sei que já passou muito tempo, as músicas não têm ajudado. Ficaste com quase todas elas… tudo aquilo que me lembrava de ti, porque o achava belo, te dei, e assim tenho ficado neste limbo marginal, entanto os dias um por um. É o fim do dia, quase as seis, mas ainda te vejo entrar no messenger, enquanto decido não falar contigo só desta vez, violando a tua promessa de hoje não teres ido trabalhar, porque doente ainda – gostava de suspirar e dizer, É assim o meu amor, sempre demasiado dedicada a tudo em que se mete. Mas não posso, porque não está aqui ninguém. Então digo-o para mim mesmo. Perdi o jeito para escrever cartas de amor, e acho que perdi o jeito para escrever. Este exercício, esta vontade de nunca me querer perder, para onde foi…? Acompanhou o meu desespero estúpido, quando te via ires-te embora, perguntava sempre a mim mesmo, o que era isto. O que era isto que sentia por ti.
Vais-me desculpar, sabes. Estas coisas são bonitas mas não serei eu decerto que as farei assim. Sou cru, sou triste demais para isso. Sou algo menos, agora. Perdi-me um destes dias quando olhei com tristeza para o dossier onde guardo todas as obras de arte que crio que cabem dentro de um papel, e perguntei-me, Até agora, quantos poemas a mais o curso de Direito me roubou. Não quis mais saber. E se tu és praticamente o centro da minha vida (é engraçado como tudo se desmorona sem ninguém reparar, as grandes amizades, o fulgor inicial de um novo universo, as expectativas brilhantes), então talvez só fará sentido escrever para ti. Por ti e para mim, na esperança vã, quase engraçada…? De me encontrar. Quero dizer-te que te amo sem artifícios. Dizê-lo sem lágrimas, sem qualquer estilo, só com uma voz cinzenta que deveria ter a mesma força como quando digo o teu nome, e ele reverbera. Ouve. Só quero reencontrar-me, e perceberes que tenho dentro de mim, que embargo em mim, um tristeza tão grande – maior que os dias. Sou uma pessoa triste, um solitário, sinto-me só. E se sempre cultivei a imagem oposta, que interessa isso. E tenho medo por isso, porque sei que um dia vou mostrar-me, porque a tristeza é tão bela, meu amor – sabe tão bem partilhá-la com alguém para poder matá-la momentaneamente. Tu sabes quando eu tenho aquelas quebras, não sabes… quando estás a falar e eu ponho “aquele olhar”, olho para ti em silêncio ouvindo tudo o que disseste e mesmo quando acabas eu não consigo falar, quero tornar o momento eterno, percebes; e não olha para ti em estupor de admiração muda – não é isso. É uma tristeza, uma tristeza bonita porque sei que te vou perder, um dia, que me assola e me destrói naquele momento. Sou assim. Vou perder-te um dia, nunca mais vais sorrir ou rir para mim da mesma maneira, os momentos que criámos nunca mais poderão ser nossos, e vou ter de te esquecer, para te criar noutra pessoa que rezarei para que seja o oposto total de ti. Eu amo-te. E se não serve, eu digo-te, que estou, aprendi, percebi, que estou apaixonado por ti. Que saxofone é este? Mas o silêncio interpõe-se como uma muralha.
Quando fico em silêncio penso mais do que isso. Vejo-te toda, observo a minha vida fora de mim, como se fosse outro – o meu filho, doutor. Apetece-me qualquer coisa que aos homens não deveria ser permitido. Então suspiro. A vida dos imbecis sentimentais é assim, nunca ninguém sabe muito bem o que pensam, nunca sabem muito bem como é que tanto sentimento pode caber nas suas cabeças desmioladas. Já não tenho raiva, amor. Só pena. Quando agonizavas no hospital há uns dias atrás, corpo suado, a febre alta, a dormires – perguntei-me de novo quem, porquê, quem era eu. A minha vida é isto? Para o que vivo? Estas perguntas, oh, a juventude. Já todos as terão tido, não. Já todos foram mais humanos do que eu, não. Fodam-se. Esta música que sinto agora nunca poderá ser igual para mais ninguém, nem como eu poderei um dia explicar a cem por cento o que sou, e porquê, mesmo que nunca ninguém mo tenha pedido – era por isso que escrevia, por isso e para me tentar encontrar, e quando me apercebi que já não valia a pena – que rumo tomar. Porquê amar-te ainda.
Passou-se o quê, mais de uma semana. Mais de uma semana. Não tenho andado bem – tenho andado essencialmente como quando era mais novo, com o factor acrescido de já saber o que é a felicidade mínima, de como ela nos pode trocar as voltas. E sinto-me horrivelmente só. Só comigo mesmo, e vejo as pessoas a aprenderem a despedir-se de mim. O resto que encontro ainda são só sombras. Não tenho jeito para isto – nunca tive jeito. Sempre soube despedir-me bem de pessoas, de sentimentos, de emoções, sempre foi… uma questão de protocolo. Agora, nunca pensei ter jeito para isso. Era só dizer-te aquilo que sou, o que sou e porque fui o que sou agora, e era perder-te de forma tão bela que até doeria. E saberia que talvez nunca mais escrevesse nada durante pelo menos um mês, numa confusão de dores de coração, negras, negras – tu deves saber. Como as tuas.
Mas sem expressão física.




Adeus, leitores do blog. Não sei quando voltarei.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

gente urbana, parte I

Não nos conhecemos mas podemos ser amigos. Estás disponível para um abraço e eu sinto-me perdido. Não sei para onde vamos mas passaremos os dias juntos, se possível. Tenho ouvido os lobos a uivar, certamente morreu alguém esta noite e tenho medo da solidão. Escrevi num papel: está tudo bem. Desconheço a veracidade da frase mas temo pela minha sanidade. Sinto-me demente. Incapaz de me levantar. Estava sentado ao balcão a beber mais um copo de whisky, duplo, quando tu apareceste vinda de lado nenhum. È noite de karaoke neste bar de pouca luz e estou cansado de ouvir o gordo a cantar desafinado. Talvez tenha saído há pouco tempo o hospital e esteja cansado dos lençóis brancos, da cama desconfortável e da comida insípida que lhe davam, mas isso não é desculpa para me causar dores de cabeça. Queria falar com alguém que, fosse quem fosse, que não estivesse a rir, que me fizesse companhia esta noite. Entraste com os cabelos negros a esconderem-te o rosto, com um andar deselegante, quase que desnorteado, e percebi desde logo que, esta noite, só tu me poderias compreender. Sentaste-te a meu lado, não sei ao certo se por opção ou fruto do acaso, mas não importa. Importa apenas que o fizeste. Sabes, não tenho nada de interessante para te contar sobre mim, há uns dias atrás ia sendo atropelado numa das minhas caminhadas de sonambulismo, pouco mais. Só soube quando acordei numa rua qualquer que me era estranha e um velhote que me seguira, preocupado com a ocorrência, veio ter comigo dizendo que se quisera certificar de que nada de mal me acontecia. Contou-me depois tudo o que me vira fazer. Tomámos café num local ali próximo e ele lá foi à sua vida. Mas diz-me, que é que te trouxe até aqui, a este bar. Talvez tenhas andado, como eu, a pensar no que fazer com a vida. É normal, gente como nós faz isso demasiadas vezes. Olha, queres ir dar uma volta? Hmmm…pois, parece que não. Talvez estejas entediada, se sim, peço desculpa, não é por mal mas costumo ter esse efeito nas pessoas. Acho que só a minha mãe conseguia encontrar alguma paciência para mim, é normal, eu e ela sempre tivemos muito em comum. O meu pai deixou-a quando soube que estava grávida. Ia em viagem de negócios por uns dias, tinha uma qualquer reunião muito importante no outro lado do oceano. Devem ter passado perto de trinta anos, não sei ao certo, mas a reunião ainda não deve ter acabado. É assim, o meu velhote… Mas sabes, gosto de ver o pôr-do-sol, não por uma qualquer ideia arcaica de beleza, apenas gosto de ver o dia lentamente a desintegrar-se. E ele desintegra-se sempre, nunca falha – é sempre bom saber que há coisas que nunca mudam. Não tenho lá muito dinheiro, mas gostava de te pagar a bebida. Que é que tinhas pedido? Deixa estar, não precisas de responder, eu pergunto ao empregado. Ah, sabem bem estes momentos, ter alguém que nos ouça e fale connosco. E mesmo que essa pessoa não seja muito faladora como parece ser o teu caso, mas já é bom ter alguém que nos ouça, mesmo que de um surdo se trate, afinal de contas, também é gente, não é? Sabes, acho que seremos bons amigos. Temos tanto por fazer, dar as mãos, entrar num autocarro para destino incerto, contar piadas ou apenas histórias divertidas. Sabes, odeio muitas coisas na minha vida, mas estou a gostar bastante da nossa conversa. Mas falando em histórias divertidas, no outro dia folheava um jornal e deparei-me com uma bastante interessante. Era a de um tipo a quem a mulher o levara a tribunal por ser impotente, ah mas isso não era tudo, a amante dele também o levara a tribunal mas por querer que ele reconhecesse e assumisse as responsabilidades pelo filho deles. Ora o homem lá terá achado que sairia vencedor de pelo menos uma das acusações. O filho da amante era a prova de que não era impotente; a impotência alegada pela mulher dizia sem margem para dúvidas que o filho não poderia ser seu. O que aconteceu é que, julgado por tribunais diferentes, perdeu as duas causas. Engraçado, não? As coisas que a vida nos conta, sempre tão cheias de ironia. È a ironia o que move o mundo, já dizia o outro. Bem…mas falando de coisas mais sérias. Reparei que trazias na mão dois bilhetes de embarque num voo. Digo-te o mesmo que vi um gajo dizer num filme a uma rapariga. Contigo, vou para onde tu quiseres. Provavelmente não tens com quem ir, pelo menos já não, é o que me diz o teu silêncio. E se chegaste a ter, foi só desilusão. E eu tenho um conhecimento vasto no que a ilusões diz respeito. Eu próprio sou uma. Mas a verdade é que… (pausa) vejo que te estás a levantar. Já vais de partida, não é? Pois bem, talvez tenha chegado a hora por que esperavas pacientemente. Só por curiosidade, o teu nome é…(pausa) não me vais responder, pois não? Ok, deixa estar, então. Bem, nesse caso, Boa viagem. A gente vê-se por aí. Também tenho que ir à minha vida. Coisas por fazer. Ando ocupado, muito ocupado, a sério que ando…muito ocupado, mesmo. Bem, é aqui que os nossos caminhos se separam, e não te preocupes, eu pago a tua conta. Até um dia.
Ou até sempre, se for esse o caso.



(Pedro)

domingo, janeiro 16, 2005

Lugar de mistério/exercício de vontade.

Será este um lugar de mistério ou apenas mais um exercício de vontade? Chegarei brevemente, assim que o meu coração fatigado me permita alcançar-te. Chegarei brevemente sem a certeza de ter quem me espere ou a mais pequena ideia do que farei quando te vir, se te vir. Um dia disseste-me que te assustava a minha terrível capacidade de esquecer pessoas, que receavas que passado um tempo, alguns anos, quem sabe, não mais me lembrasse de ti. E não te vou enganar, houve um tempo em que eu próprio temi perder-me. Mas sabes que não tens de te preocupar comigo, embora não o consigas evitar. Continuo a reviver cada palavra doce que te sussurrei como se a estivesse a germinar na minha mente neste preciso instante, e pergunto-me: Como poderia eu esquecer-te?
E as próprias palavras nunca perceberão o seu alcance. Sabes, vivi um período de espera que me pareceu interminável. Era jovem, mas tudo o que sentia parecia carregado de séculos de solidão. Senti-me velho, como se já existisse, tristemente, no tempo em que os meus antepassados ainda não eram nascidos. De noite, era assombrado pelo mesmo sonho de sempre, o brutal cliché do ancião barbudo que se isolou nas montanhas para não mais ser visto. Seria eu, perguntava todas as manhãs ao fitar o meu rosto cansado no espelho. Curioso, nunca consegui ultrapassar a ideia de que era com desdém que esse rosto me fitava de volta. E acho que sei por que razão chegámos a este ponto, tu e eu, sem certezas. E se me concedessem um desejo, por mais pequeno que fosse, desejaria que um dia pudéssemos apenas…acreditar. E, quem sabe, se não é isso o que estou a tentar fazer agora. É Inverno e a beleza parece ter perdido toda a sua esperança. Habito numa cidade onde o que se perde não mais será encontrado. Podia ser outra cidade qualquer, é verdade, mas sei o quão violento este espaço urbano consegue ser. E ainda tento compreender esta cidade, tento vislumbrar nos olhos das pessoas que por mim passam ou se sentam à minha frente no comboio, se têm algo que as guie. Talvez um dia incendeie esta cidade. E perdoem-me, por favor, por tudo aquilo que vos digo hoje. Por tudo aquilo que nunca disse e que temo nunca chegar a dizer. Onde está o futuro quando a única coisa que se quer é vivê-lo? É um tempo engraçado este que nos é apresentado. Sinto que não voltarei atrás. Sinto-o, apenas. Desencontrei-me com a minha paz interior no dia em que te vi partir indefinidamente. Mas há que resolver os problemas com os quais somos presenteados, cada um a seu próprio modo.
Confesso as minhas fraquezas. Sem querer parecer moralista. E pergunto-me, Quem seríamos hoje se tivesses chorado enquanto me falavas do que sentias? E se eu te tivesse dito, Não vás.?
Não vás. Pensei que parecesse mais fácil. Mas nunca foi. Se olhares com atenção verás que nada mudou. Foram tantas as vezes que tentei dizer-te adeus.
(Adeus, que palavra tão sublime, tão independente.)
Maior foi o número de vezes em que tentei afastar-me de mim próprio e de quem nunca deixara de ser. Como podes ver, este noite não veremos flores a desabrochar. Talvez alguém saiba onde se esconderam. Mas não nós. Parece que as memórias mais tristes nunca nos abandonam de verdade. Virá o dia em que me poderei reinventar. Tal qual uma máquina rejuvenescida. Como se o destino ou a pura casualidade tivessem estabelecido o preciso instante em que o coração começa a bater num palpitar desenfreado, como se tentasse libertar-se das amarras que o prenderam. E num segundo que mais se assemelharia a uma explosão, haveria mudança.
Miúdos como nós nunca tiveram a oportunidade devida.
De vida.
Direccionem os holofotes para a nossa ausência de preocupações, pois não nos importamos com o lugar onde os nossos corpos poderão descansar, se é que tal venha alguma vez a acontecer. E nós não nos importamos, de tão novos que somos. Tentamos apenas cimentar sentimentos frágeis para tanta gente. Mas para nós, sob o olhar atento das estrelas, haverá sempre uma resposta. Desconhecemos as regras, sem maldade. E o que isto tem de chocante é o facto de - se é que existem factos – sabermos que não há mais ninguém à nossa volta quando desejamos que assim seja. A inocência é o nosso tesouro. E se tentarem estilhaçar o secretismo dos nossos sonhos, sabemos bem que falharão. Acreditamos no nunca. Mais do que isso, acreditamos no sempre, se for sequer possível separar um do outro, mas deixem-me dizer-vos desde já, sem necessidade de eventualmente me voltar a repetir: as nossas falhas serão colmatadas com amor. A noite chegou para nos fazer recordar de quem somos.
Viemos reclamar o que nos pertence. Dinamitámos os nossos medos a partir do momento em que testemunhámos o nosso êxtase. E o sono não chegará até aos nossos corpos cansados enquanto houver algo por fazer. Minha querida, perdoa-me o termo se o achas demasiado corriqueiro, mas sentirei sempre a tua falta onde quer que vás. E talvez precise um pouco de ti, neste momento, porque certas horas mais demoradas parecem querer quebrar-me em milhares de pedaços e espalhar-me pelo planeta, criando um puzzle complexo. E o dia de hoje será a nossa desculpa para voltar a sentir a genuína blasfémia do nosso carinho, porque é pecado de que se trata. Novamente não durará muito tempo, mas será o suficiente, pois consegues fazer-me sentir que cada instante de companhia é eterno. Perdido em pensamentos e palavras soltas pareço conseguir perdoar toda a gente. E tu, serás a minha contraditória desculpa.
E já começo a ouvir o estalar titubeante dos nós dos dedos, num qualquer exercício de aquecimento prévio à construção da mais fulminante das melodias. E temos perante nós um problema de funestas variantes, pois apetece-me ferir mortalmente o silêncio e apenas…gritar.
Gritar.
E se tiver sorte, fumarei o meu décimo terceiro cigarro antes de parecer tonto. E quando tiver acabado, sorrirei com ironia. E se a mais pequena ideia de perversidade, então fará sentido, por muito chocante que possa parecer. E o frémito suave que o virar de página me permite ouvir, dá-me sempre uma certa noção de dever cumprido. De satisfação. Uma simples forma de dizer que hoje me sinto orgulhoso. E sinto. Por ti e por mim. Não me considero um contador de histórias, se calhar porque nunca o tentei devidamente ser. Caso tal venha a acontecer, prometo que sairei para a rua no instante em que terminar, olharei em redor onde quer que esteja e fingirei que não voltarei a repetir a proeza, porque é mesmo de uma proeza que se trata.
E caminho sozinho, em breve estarei contigo, penso. Acredito que sim e por muito que possa recear o contrário, não vacilarei. Pé ante pé, como se fosse uma criança a aprender corajosamente como anda. Até chegar junto de ti e carinhosamente te beijar a face, e de seguida os lábios. E o que tiver de acontecer, acontecerá inevitavelmente. E talvez seja esse o nosso mistério, a vontade de viver e de amar prevaleceu sempre.
E para sempre.


Pedro.


(Escrito na madrugada de 13/01/05. Munido apenas de papel, caneta e muita vontade.)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Piso quatro, sala dois, cama doze.

A tarde foi estranha, como que num sonho. Voltei de táxi. Encontro-me aqui, sem saber o que escrever, ou como fazê-lo. Quem diria… - que eu seria assim, tão insensível.
Obviamente que ouço música. Não é necessário escrever. Eu não sei que músicas… eu.
O hospital Pulido Valente é estranho, uma pequena aldeia de doentes. Tem portões de ar, delimitados por muros de tijolos, e muralhas de betão, que me obrigaram a dar a volta toda quando saí de lá, pela única entrada. Têm até, em resquícios de cheiros de velhos e pastilhas de sabor a cheiro de consultório, uma carrinha com protecções como nas montanhas russas e um pneu debaixo do banco do acompanhante, para transportar os doentes ou as visitas, para as diferentes zonas. Na unidade de pneumologia, piso quatro, sala dois cama doze, o meu futuro reorganizava-se em frente a meus olhos, e dava infelizmente mais um passo a tudo o que haveria de tornar-me adulto. Tenham dó. Sou só sensível.
A morte que me rodeia já não me assusta, e então, quando vi as velhas com a lucidez dos preparados para a última viagem muito sorridentes e a chamarem-nos de bebé, que quando de lá saíssem nos iriam fazer uma visita, não estranhei nada. O ar coado talvez faça isso às pessoas, o pó de milhões de comprimidos diferentes impregna-se no ar, bem como o cheiro a desespero, medo e morte, e talvez criem, ou ajudem a criar, essa atmosfera irreal, esse mundo à parte, tão ilúcido para uns que as linguagens e os gestos que se criam sejam justificados pela sua própria fome de partirem e nunca mais voltarem, saberem-se vulneráveis, humanos, tremendamente breves. O piso quatro da unidade de pneumologia tem mulheres a entrar na velhice a espremer gordura, esforçando-se por caberem nas cadeiras e com cateteres nos narizes, e mais velhas amarradas a postes de soro que levam com elas para todo o lado, devagarinho, sempre muito devagar. E velhos, que percorrem os corredores à espera de encontrar algum médico que os ajude a ir à casa de banho. As velhas fazem-no ali mesmo, nas camas, em penicos de aço inoxidável, e pediram-me tantas vezes para sair, esperar junto aos corredores estreitos onde haviam janelas, que só pessoas de mais de um metro e noventa poderiam usufruir. Eu só via prédios ao longe, num desenho de cidade que não conhecia. Senti-me longe, longe de tudo, um caso à parte; meia hora atrás, eu sai da minha universidade e, despindo-me, começava a correr. Deixei que as costas escorressem suor, deixei impregnar-me por todo o fusível queimado de força que a cidade me proporcionava, que os autocarros me desesperavam, que as pessoas me não sabiam. Corri até chegar ao meu destino, perguntei-me o que era tarde, o que era o tempo, se teria vindo demasiado cedo, impossível se demasiado tarde, ou se nunca, nunca, fosse possível chegar tarde. Ou cedo. O Sol molestava-me, e eu sabia que quando chegasse nunca saberia o que fazer. Poderia era fingir que sabia.
No hospital Pulido Valente os médicos estão acostumados a todos os worst case scenarios que podem existir, as ambulâncias vêm de todo o lado. Pontinha, Beja, Carnaxide. O guarda fez um turno de pelo menos oito horas, pois estava lá quando eu lá fui as onze, e ainda estava lá quando me fui embora, quase eram seis e meia e ninguém talvez me diria que o dia se poria em noite tão rápido no seu processo de desistir lento.
Em suma, e só como aprender a não respirar mais, deixar a infecção dos brônquios, em conjunto com arritmias cardíacas e taquicardias, subjugar os pulmões, fazer talvez chorar um pouco, deitar-se para o lado e simplesmente adormecer. Se a Lua não ajudar muito na condição do enfermo, paciência. O Sol amanhã ressuscitará para aprender a morrer por falta de oxigénio de novo. Até lá, nós que tão indiferentes, vamos continuando a existir.
Quatro possibilidades descabidas para a minha própria escrita.
Eu não sei em que pessoa me tornaria se agora perdesse tudo. Penso que não estaria interessado, familiares bafientos de alguma preocupação forçada não me seduzem.
Vamos sentindo falta de todos os que já partiram, e enquanto aprendemos a tornar os dias lentos e a respiração um pouco mais rápida, é necessário adormecer, as sensações.
Mesmo nesse estado e ainda estavas tão bonita.
Não consigo escrever sobre isto.
Não consigo escrever como te vi, a dormir, a fazeres um esforço intenso para respirar, outrora ligada a máquinas; não consigo descrever com pormenor como subi as escadas piso a piso, percorri os corredores estreitos, perguntei às médicas onde estavas. Não consigo, não consigo escrever sobre isto, como te vi, os olhos aguados, tão bonita ainda, com a mão e o nariz entubados. Não consigo escrever sobre como morbidamente me apeteceu tirar fotografias a cada plano de visão, para te ver; ou quando viravas-te para o lado, imediatamente depois de teres estado a falar comigo, segurando ainda a minha mão, e adormecias logo. Não consigo. Não consigo perspectivar tudo isso, deixar-te para passares a noite num hospital que não é o teu, num cenário decadente, não consigo compreender ou escrever a forma como choraste de desespero e em que só dizias, Eu não quero ficar aqui, eu não quero ficar aqui. Rodeada de velhas, cheiro a mijo, entubada, a soro, e com uma televisão alta demais, a transmitir os programas felizes da tarde para pessoas como tu que estão presas numa cama de ferro.
Não consigo estar aqui, não consigo. Não consigo escrever bem o suficiente para explanar o que vi, o que senti e a forma como cheirei toda aquela atmosfera irreal preparada para mim; não consigo perceber como é que me esgotas, quando eu chego a casa e apetece-me voltar para.
Trás.
Não consigo respirar. Como tu.
E sinto a tua falta, sozinha, numa cama de hospital gigante e povoado por fantasmas sólidos, barulhentos, com luz natural escondida por cortinas amarelas.
Mas quis tentar.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Fossanova e afins

A música providenciará o chamamento. Seremos novamente rebeldes a partir do instante em que se tome consciência das nossas falhas e não fará sentido, como fez em tantas outras vezes, adiar a brutal essência relativa à feroz noção de vazio. No dia em que percebermos que uma bala pode desfazer tudo num segundo, saberemos então que pautamos todo um incompreensível caminho através dos tempos, percorrendo cada ano como o anterior, envelhecendo apenas porque se envelhece e não porque somos algo mais. E se podemos conseguir, apenas com a força das palavras e dos gestos, mudar toda uma existência, então será definitiva a ideia de que até teve um certo propósito tentar. E eu quero tentar, saber que neste dia me cansei sem ter sido em vão, saber que para sempre haverá algo por dizer e lamentarei apenas se ninguém se levantar dos escombros para dizer, Estou aqui, vou contar-vos a minha história.

Ontem, no comboio, vi uma mulher que deveria ter cerca de quarenta anos tirar da mala um pequeno livro, de capa vermelha, cujo titulo era apenas: Como acordar feliz. Ironicamente, pareceu-me triste todo aquele cenário de viagem urbana. Alguém talvez tenha acreditado um dia encontrar a receita da felicidade num livro diminuto. Engraçado, também eu me senti diminuto.

Também eu me senti humano.

E é de todo sinistro julgar que estou isento de tão dissimulada forma de demência. Nunca se sabe ao certo se o que se teme é a própria realidade ou a tomada de consciência da nossa própria fragilidade. Ainda não sei ao certo o que se deve ou se pode fazer quando há pouco a dizer. Confesso que geralmente estou do outro lado da barricada, tenho sempre muito a dizer, mesmo que pouco esteja a fazer. Talvez tenha sido a minha forma de, inconscientemente, camuflar a falta de certas aptidões. E eu sou inapto. Ou tenho sido. Ou poderia sê-lo. Ou estou apenas confuso (e com um pouco de sorte e ironia à mistura , também quem me lê). Mas ok ok ok. Faz sentido até certo ponto. A verdade é que por vezes não sei ao certo se é de alguma maneira plausível a ideia de que tenho algum jeito para isto, whatever that means.

Fossanova* tem inicio:
Se sorrires talvez venhas a lavar a sujidão impregnada nos espíritos imundos que povoam a crosta terrestre. E dá-me a mão, dá-me um estalo seguido de um beijo, podes tornar-me humano, obrigar-me a ser melhor, ajudar-me a perceber a ternura que nos consome docemente. Vem comigo. E com algum esforço seremos imunes à morte do amor. E se se trata de sorte acho que nunca saberemos, mas não deixes que isso tenha importância, nunca quis teorizar algo assim. É essa a minha filosofia: assassinar a razão, escondê-la de determinados sentimentos, pois tenho receio de que os venha a tiranizar. E às vezes questiono-me, que acontecerá aos sonhos quando são esquecidos? Será, porventura, uma espécie de morte prematura. E é esta a minha tentação exótica, idílica, elitista até, quem sabe. Talvez seja esse o preço a pagar pela poesia. E terei todo o prazer em pagá-lo, em tentá-lo, em satisfazê-lo, sem barreiras ou patéticas restrições. E pode ser que assim se percam as contradições...calmamente. Ou, pelo contrário, se criem mais e mais contradições, novas dúvidas, ferozmente, com uma música cheia de charme e sensualidade a acompanhar. E sim: há novas ideias, elas nunca param de surgir, caso contrário será a morte do criador, do artista, por esquecimento e falta de audácia.

Confesso que por vezes não paro de escrever com receio de que as palavras me fujam.

E mesmo assim nem sempre consigo.

Mas tragam-me o vinho num copo gelado, desligarei a televisão e no ar carregado de nicotina e vozes cansadas teremos dois dedos de conversa (mas que raio de expressão me vem a ser esta??)e há que saber definir o centésimo de segundo ideal para esconder o embaraço que nos fulmina a cada vez que tentamos ilibar-nos dos nossos vícios de emoção e sentimentos. E como pode um homem lidar com a sua dor sozinho? Mas deve-se aproveitar o beijo gentil, deve-se saborear cada batida do coração como se não houvesse seguinte – com estilo e presença de espírito seremos cada vez mais humanos.

E quem entre nós acredita que é possível? Desta vez, por favor, quando colocarem a mão no meu ombro em gesto de compreensão, não assumam que voltarei a dormir sem ter feito um último esforço numa corrida pela liberdade de sensações. Quais serão as esperanças que a vida roubou, perguntou um dia Sérgio Godinho. Que é que foi que ele disse? Ah, já sei “hoje soube-me a pouco”. Engraçado, também a mim, meu amigo.
Mas voltando ao frenético momento até ter sido interrompido – é o que acontece quando se escreve à mão e depois se quer passar tudo para o computador para vocês lerem.

(Pausa).

Respiro fundo.

E serei o meio que me envolve. E hei-de formalizar as festividades sanguinárias projectadas incandescentemente pelas imagens televisivas, que mas vão cuspindo contra a face. Se as cores já me tornaram cego, talvez seja altura de dar espaço à loucura para fazer o seu famoso número por entre símbolos e expressões imperceptíveis ao raciocínio comum.

De um grito farei um poema.

Lavarei do corpo as incertezas. Diremos, em uníssono, Nós existimos. Reconhecerei os planos que havia feito milénio antes e com um sorriso escorreito nos lábios, de plena perfeição e destreza e harmonia, eventualmente farei a tão famigerada questão, Quem foi que matou a nossa humanidade.(?) – E esta última, a humanidade, digo, já de si triste, perderá as suas forças de tão ínfimas que eram e...talvez ainda seja um sonho

E porquê?

De olhos bem fechados e mãos enregeladas tentarei agarrar as estrelas segundos antes de me perder num espectáculo cruel e psicadélico. Serão drogas mas não só. Serão receios mas não só. Silenciarei.

Quebrarei., ou melhor, sejamos ambiciosos, quebranterei a máscara que me sustém antes de dar o fatídico suspiro. Finalmente verei a tão afamada luz branca de que os antigos (e alguns presentes) falavam. ... E começará a chover durante anos a fio. Serão os deuses a tentar dissimular o sangue adormecido no alcatrão negro. E será solidão. E não mais parará - por muito que se queira retardá-la – a madrugada do fim dos tempos. E é transcendental. E é um sinal dos crimes cometidos no passado. E se algum dia houver esperança de salvação, é hoje que ela começa. Aqui e Agora. Até ao último homem...ou mulher, for that matter, cair sob os seus joelhos, cedendo. Estamos a poucos metros do precipício e queremos andar, a poucos minutos do desespero final e o tempo não pára – somos presa fácil perante os infortúnios da vida. E alguns de nós encontrarão no amor mútuo uma resposta, o qual é, em última análise, a grande droga. Com d maiúsculo. Ah como me saberá bem perceber os desígnios do destino quando chorar. E chorarei. Algo petrificante. Perdido e inquebrável, ou, novamente, inquebrantável. Algo sem nexo. Algo...humano? Escrevo textos magoados para aliviar a dor, é essa a minha triste verdade. E foda-se que bem me sabe. Notável, sem dúvida. Notável como qualquer dissidente foragido por vocação, como qualquer aperto de mão entre amigos, como qualquer Che Guevara supra revolucionário, como qualquer pseudo-intelectual no canal A Dois, o do governo.

Mas que se calem de uma vez por todas os profetas que, como eu, insistem em falar. Que os escorracem como os cães que são. Quanto a mim (finalmente, dirão alguns), ficarei em silêncio. Sensata e inexplicavelmente bem – em silêncio.

Por fim, Perdoem-me.




*( Fossanova é o titulo de um álbum de uma banda portuguesa chamada Belle Chase Hotel. Escolhi plagiar o titulo porque ainda hoje não percebi o alcance deste – do mesmo modo que não percebi o alcance do que escrevi, mas também raramente percebo esse – de qualquer maneira se alguém me souber dizer o que é ou quem raio é Fossanova, por favor que me avise, ou só tenho uma estúpida ideia. Todo o “fossanova” – texto – foi escrito a ouvir esse álbum em modo aleatório, a referência a sérgio godinho surge no momento em que passava a computador o texto e ouvia determinada música dele, descubram vocês qual, sinceramente acho que até tinha explicado no texto o que se passara, mas bem, pouco importa, estou cansado.)



Pedro.

sábado, janeiro 08, 2005

Forget Her.

Às vezes sento-me aqui antes de escrever nada em concreto, neste blog, quando me lembro que ele não tem piada.
Não tem.
Nem uma única piada (a não ser um post do meu amigo Pedro sobre um puto rapper revoltado), e não creio que isso seja algo mau, simplesmente não reflecte tudo o que nós os dois escrevemos, tudo o que nós os dois somos, enquanto… não quero usar o termo escritores.
Mas sento-me aqui, ligo as colunas, abro as minhas músicas… e não consigo.
Neste momento ouço Jeff Buckley, um artista, um cantor, acima de tudo um grande compositor, que nós os dois e alguns leitores deste blog conhecem, que conheceu a morte tragicamente novo demais, o seu novo álbum não estava ainda completamente acabado. O seu segundo. Álbum. Neste momento ouço a sua voz, num verbo que os ingleses sumarizam na perfeição, in its haunting, chilly voice. Ou dois verbos. Referia-me, obviamente, ao verbo to haunt. A sua voz persegue-nos, torna-nos seus, dele, da sua figura, um jovem com o cabelo desalinhado e cadência ligeiramente aguda e baixa, que um dia, infelizmente, decidiu ir tomar banho num rasgo de vontade quase irracional, sendo só depois descoberto, o seu corpo, nas cidade onde os blues nasceram. A sua mãe enterrou um marido e um filho. A história da música ainda não conseguiu enterrar o seu génio.
Nem o deve. Conheci Jeff Buckley através justamente do Pedro, estávamos os dois penso no décimo primeiro ano, acabávamos de o iniciar. Ele tinha descoberto Jeff Buckley por outro amigo dele, e como é óbvio, Jeff, que nos encanta, encantou-o também, e como não poderia deixar de ser, quis ter o prazer de passar o legado a todas as pessoas que pudesse, ou pelo menos (porque a música boa, custa por vezes tanto a ser partilhada com pessoas que julgamos “imerecidas” dela – como se tal fosse possível), às quais soubesse que o iriam reverenciar como um dos grandes talentos, perdidos demasiado cedo, para a música. Assim eu tive o meu primeiro contacto com o seu disco póstumo, my sweetheart the drunk, que iria ser acabado, completado e remasterizado pela banda – que quando saia do avião para se dirigir à casa onde ele estava, sozinho, a compor num rasgo de freneticismo que deixou anotado nos seus cadernos, não sabia que nesse preciso momento mergulhadores entravam nas profundezas do rio cujo o nome (que interessa? O que importa é que o real tornou-se lenda e para sempre restarão músicas dele e histórias dele para descobrir, contar e cantar) não me recordo, na tentativa vã de recuperarem o seu corpo. Rendi-me a Buckley, filho pródigo do seu pai também cantor, e só descobri grace, na verdade a sua real (e porque mais não fez) obra-prima, meio ano ou assim, depois. Ouvi-o e esgotei-o e amei-o por tudo o que ele era e cantava e me fez escrever, sentir, sonhar, sofrer. Porque, como dizia, sad songs are love songs.
E depois esqueci-o.
Não sei explicar muito bem… esta música chama-se forget her, das grace sessions, mas posso muito bem dizer that I have forget him. Or forgot him. I forgot him, not being able to explain how or why, but the truth is I almost completely stopped listening to his music, and thus… I simply forgot him.
Ou julgava.
Este Natal saiu uma nova caixa com eps do seu primeiro álbum, versões ao vivo, raridades, nada que não conhecêssemos já, em bootlegs ou ficheiros piratas (piratas…? Não deveria a sua música ser partilhada por todos quantos o querem ouvir, o legado de um morto…?) na Internet, mas existia uma música, que eu pelo menos não tinha ouvido, atingiu-me com a força de um murro, fez-me no dia a seguir, um sábado frio, ouvir Grace de novo como se fosse a primeira vez, enquanto caminhava pelas ruas de Benfica e me amaldiçoava pelo que tinha perdido, nesse ano. Um ano sem ouvir Jeff Bukcley, quase. Como foi possível…? Procurei a resposta encontrando-a em cds novos que comprei, sentimentos novos que presenciei e que precisava de expurgar com novas músicas, não interessa talvez também saber o absoluto porquê. Ouvi Grace como se fosse a primeira vez, e senti como se fosse um absoluto milagre, embora ninguém no comboio ou na rua o conseguisse perceber – a chance tinha-me sido dada de, miraculosamente, repito, conhecer esse grande, grande génio breve uma vez mais. Senti-me fazer amor com a sua música, pensei nela, lembrei-me de tudo o que era quando o ouvi pela primeira vez – e a dúvida se me colocou, estaria preparado… para sentir tanto. A música que ouvira no dia anterior nunca a tinha ouvido, ouço-a agora, é bela demais, forget her, a questão coloca-se, porque tinhas de morrer…? Preferia que tivesses entrado em decadência musical, dizer que dos teus três ou quatro álbuns só gostava mesmo era de dois, qualquer coisa, desde que não morresses, desde que me continuasses a brindar, para sempre, com músicas assim. Com o teu sofrimento assim, com a tua voz assim, bela e única, sofredora e envolvente, reinventando o amor nos seus agudos, na sua realidade de cometa fugaz demais, frio demais, meu Deus – e partiste, deixando-nos para sempre a imaginar o silêncio que, um dia, poderias ter feito.
Hoje ouço Jeff Buckley quase todos os dias, as músicas que saco da net, raridades, versões ao vivo, demos, qualquer coisa – porque compreendi que apenas Jeff me faz sentir, à sua maneira especial, uma coisa.
Que sou humano, homem, e ainda assim (espanto dos espantos), sinto, ainda assim amo, ainda assim sofro, porque…
Porque um dia me rendi à sua música. Só por isso afinal.
(Don’t) Forget Him.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Vergonha.

Vergonha
Ainda
Talvez
O que tenho sentido em relação a
Nós
Quando
Tu
me perguntas sem perguntar Quem sou eu
e eu só consigo sentir
Saudade.
è vergonha
Quem diria que ela um dia
Me iria fazer amar sem palavras
a tua bioquímica
Electricidade.



Vergonha é
Aquela melodia em jeito de verdade irrepreensível
Que me faz sorrir.
A felicidade estúpida que
Agora
Sinto
Que me faz ficar silencioso
depois do estupor
de um beijo magnetizado à minha saliva
que é o teu
Ondas na minha boca
Vergonha em assumir a vaga
Vergonha quando te despir e beijar
a tua pele branca e
Algo maculada.



Vergonha é o medo deste silêncio, que já sinto
- Com a calma dos profetas cheios de
Charme -
Calmo
Ante a absolutamente neutra
leitura
De mais esta confissão
Conceptualizada
Por magrévias de veludo vermelho e negro
ante um suspiro
Quase em segredo
teu.




Vergonha
É trair-te
com o meu sonho de ti mesma.







Para C.
Ao som de Smashing Pumpkins, Adore, nona música.

21/36/07/01/05






quinta-feira, janeiro 06, 2005

brilhantismos.

Antes de começar estas linhas, disse a amigos meus algo como isto, Tenho de ir escrever, tenho saudades de mim mesmo.
Poses. Como sempre, tenho todos os assuntos do mundo para começar, e nenhum em especial ao mesmo tempo. Digo a todos… apetece-me chorar. Digo… de alegria. Eu sou isto. Eu sou isto e ainda não o tinha percebido. Eu sou toda a soma de todos estes textos, e todos os que ficam por escrever na minha mente torturada, foi preciso tanto, tanto tempo sem escrever para o perceber. apetece-me chorar de alegria, enquanto teclo quase sem pensar rapidamente estas teclas numa orgia quase de sentimento, porque simplesmente me estou de novo a encontrar, finalmente estou a dizer Amo-te com todas as letras completas, finalmente estou a dizer Ser, Quase, Tudo, com todas as letras completas, não deformadas, e se este cenário à noite porque já é noite meu Deus parece de facto improvável, então eu digo que tive testes, tive férias, tive medo de mim mesmo, destreinado, para sempre incapaz de conseguir ressuscitar aquilo que eu considero ser uma sublimação quase perfeita de tudo o que era eu mesmo na génese de tudo isto, decidir tudo – dizer, rangendo, partindo os dentes de raiva, Nunca mais vou escrever. Porque sou fraco. Porque vi nascer abelhas do calor do plasma nas barbas repletas de estrelas cadentes dos velhos com caudas de sereia, é tudo o que peço, um pouco de beleza, morrer afogado no meu próprio amor pela tristeza total, inventar novas palavras para todos os sentimentos que por enquanto são só a merda da porra da filha da puta de um grito mudo que se contorce e se grita em espasmos de música apoteótica que arde e desconforta e queima na nossa cabeça e nos nossos ventríloquos e no nosso corpo como um frio e nos faz querer pegar numa mota e acelerar até ao momento final apoteótico a mais de duzentos à hora contra uma de quente abraço parede de betão ou um salto de uma falésia terrosa em suspiros de vento quente do fim da tarde, correr até as roupas se rasgarem com a liberdade do corpo, conseguir por fim gritar o nome na língua desconhecida que é a nossa, mais do que um orgasmo, mais do que o amor total e permanente, mais do que o desespero da perda de uma mãe pai ou um filho, esse mesmo desespero aliás invertido em total e irreconhecível sentimento, CRIAR! Um poema só conseguindo articular essas palavras, a língua sangrar como um beijo nunca dado ao ar à atmosfera carregada de electricidade da amarelidão ofuscante sem óculos de Sol do Verão, fechar os olhos, pender a cabeça… rir. Meu Deus, rir, ante a total resposta que é este absurdo da vida, perceber tudo. Perceber tudo, pergunto-me se alguém um dia já o sentiu, pergunto-me se alguém já compreendeu o mistério, a questão da vida, se encontrou a resposta como se se transformasse em signo de Zodíaco, se calhar no primeiro orgasmo a dois, no abraço depois desse orgasmo, uma noite quente de gritos e mortes belas como filmes mudos a preto e branco, murmúrios a sépia numa casa abandonada, o nosso antepassado descoberto numa pintura ou fotografia com aquele bigode que nos fez entender que estamos apenas de passagem, somos apenas escuma nas ondas da vida neste mar de incertezas e humanas improbabilidades… efemérides tão belas. que merecem ser partilhadas.
Peço desculpa. era necessário. A apoteose toda, entendem. Ninguém me vai responder, mas era necessário, eu que não escrevia há semanas, cujos poemas (que dossier logo a noite se abrirá para mim? Ir-me-à proporcionar novas viagens?) ainda não renasceram no meu coração, na minha mente que os idealiza mas que não os consegue escrever, eu… e tinha tantas saudades. Escrever rápido, sem pensar, deixar os pensamentos fluir como… como… é ver-te, é ter-te, e eu sinto todos esses, todos estes frémito, escoriações em forma de gadanha na seara verde que é o meu espanto mudo perante ti, perante mim, somos ceifados em nossos corpos porque juntos, porque instrumentos criados um para o outro, eu quero, eu queria e tinha tantas saudades…
De fazer.
Esta dança.
Escrevi que me queria encontrar. A prosa.
A poesia.
São e serão somente sempre isso.
Sempre isso. Não vale a pena negar. É um alívio. Uma descarga eléctrica, bioquímica, como quiserem, que me faz sentir mais do que um animal e por vezes certamente mais do que um humano. Que me faz renegar o homo vulgaris. Que cresce com a força de uma explosão nuclear quando os nossos lábios se tocam por exemplo depois de milénios de lutas e histórias e quedas de impérios vistos, contados e presenciados em mim a cada pessoa que observo e não és tu. Espelhos de reflexos aguados nesta face faiscante de Sol real que nos torna subliminares em relação a nós mesmos – todos estes novos sentimentos; será a minha doutrina? Inventar palavras novas para tudo o que sente?
Se for.
Morrerei cumprindo de bom grado, até ao fim dos meus dias.
Tal missão.
Obrigado. Já tinha tantas saudades. Obrigado por lerem. Obrigado por fazerem os meus textos existirem, quando lêem. Obrigado por todas as críticas.
Obrigado.
Por tudo, afinal.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Lisboa sem ti.

Conquista-me –

Agora que a relatividade subjacente à poesia
nos permite viajar.

Sei o que queres fazer.
Tornaste-te o sol que me deu vida
e se pereci
foi por saber que não brilharia sem ti.
Desci a avenida da liberdade em silêncio
com um sorriso na cara
recordando a conversa da noite anterior.
lembro-me de como repetira para mim mesmo
tudo o que te queria dizer
como se temesse perder-te
por dizer a palavra errada.
Talvez tenha apodrecido
enquanto explorava lisboa suja.
Em momento algum
identifiquei a minha face nas vitrinas -

(sabia que não te podia ter
pois os sonhos não passam disso mesmo)

Vigiei a cidade nocturna
bem do alto da minha existência.
Havia sinos a tocar
e o tejo parecia prolongar-se até beijar as estrelas.
Testemunhei nas suas tristes águas
tudo o que havia perdido.
Vi os dias passar sem ti naquela noite
senti a entediante leveza de sensações precárias.
Sabia quem eras
mas já desconhecia o meu nome.
Quis navegá-las
às mistficações de almas perdidas
que um dia me haviam falado.
Afiei a navalha no lancil do passeio e
quis ressuscitar sem saber como fazê-lo.
Sentei-me no último banco que restava
junto à berma da estrada
o único onde não dormia ninguém

Escondi nas mãos o rosto
que já não via como meu
e esperei pelo fim da noite
na esperança de que voltasses até mim
sem receio ou alarido.
Ouvi a sirene que se afastava
gritando
e apercebi-me de que não te voltaria a ver
e de que jamais sentiria o teu toque subtil
por uma última vez.



(Pedro)