domingo, dezembro 26, 2004

A Cidade.

Quero falar da cidade. Deste grande animal devorador do qual faço parte, e do qual não consigo amar.
Estranhas visões morte-sonho projectam-se-me entre as sinapses frias do meu cérebro.
Eu vi.
O verdadeiro sofrimento entre sangues de fogo lento em chamas laranja, entre os pedintes mais lúcidos do que eu, com os seus olhares de cristal musical, incorpóreo. Quero falar da cidade, é preciso. Alimentada com chuva azul e negra em noites maiores do que a própria vida quando vividas sem dormir.
A cidade.
Corpo estranho no seu próprio mistério por definir.
Começo agora, dentro dela, a tentar decifrá-la. Atravessando todas as ruas na sua penumbra cor de chumbo, um castanho cor de ferrugem contrastando com o céu cinzento das imagens já não utópicas de blade runner. Bandos de homens esfomeados fazem companhia aos cães danados e fantasmagóricos, sempre calados, sempre sem ladrar, que de noite capturam pessoas e devoram sem deixar um único rasto, apenas uma poça de sangue no chão.
Nos bairros de lata, a vida recria-se ao som cortante do vento a bater nas chapas de zinco; e a cidade chama as criaturas esfomeadas com as suas promessas de fumo e de uma vida difícil recompensada com dígitos suados e artificiais numa conta bancária.
A cidade cresce, como um vírus, nas tempestades de pó quando não chove, e cria prédios de lama quando as chuvas arrastam os caixotes do lixo e entopem os escoadores, que contam mitos urbanos que nunca ninguém teve a coragem de tentar decifrar.
A cidade. Como uma garra de muitos dedos vertical, devorando tudo à sua volta. Somos os seus pequenos seres no seu organismo, parasitas, fervilhamos na sua crosta e apodrecemos, até nos deixarmos levar por ela.
Eu sei. Eu vi tudo isto em formato estéreo, de phones nos ouvidos, no início de dias fratricidas e noites sem alma povoada por sombras de humanos e monstros de aços, criaturas da noite, que penso que nunca vi de dia.
Uma selva quadriculada sem ninguém que lidere o topo da cadeia alimentar.
Saio todos os dias para decifrá-la, percorro ruas e vejo imagens e frases aguadas presas nas paredes de tijolo com verdades lúcidas e absolutas, desenhos inconcretos e poças de sangue e vomitado no chão, nuvens de fumo que nos fazem sentir demasiado duros, perros e presos às fundações da nossa própria criação. As pessoas não me sorriem e eu não sorrio a elas. E quando tento sair da minha cidade, entro noutra, aprendo a amar as diferenças mais abismais de cada fileira de prédios iguais de mais, as suas cores mortiças, o seu desespero constante em querer tocar no céu o mais alto possível, um mundo sem sentimentos nem qualquer tipo de coração.
E isso excita as pessoas.
A cidade é antes de mais uma criatura, um organismo vivo, como recifes de coral. A cidade é tudo. É a personificação degenerada da tentativa de se aperfeiçoar fisicamente do homem, através dos seus prédios secos como estacas de madeira no deserto, ruas ácidas de pavimentos rachados e esburacados, empedrados oleosos onde mendigos dormem o sono dos injustos. Portos cinzentos onde o mar, e o rio, abraçam um porto de água amarga e escura ou um areal feito de construções de restos dela própria.
E venero-a. Venero-a justamente por causa disso, pela moldura humana que representa. Pela minha própria face reflectida em cada pessoa, parede com escritos, rua, cão, morte, prédio, poça de sangue, resto de vómito, poeira nos olhos quando não chove, óleo e fumo na chuva quando ela cai e eu desprotegido, frio quando se abre aos ventos frios, ou calor abrasivo quando o Sol castiga-a impiedosamente, e árvores não existem porque a cidade as devorou.









































































































































































































Odeio-a.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Não há garantias.

Aproximo as mãos trémulas lentamente da lareira para me aquecer um pouco. Mudei-me para esta velha casa onde em tempos viveram meus avós porque morrerei dentro de dias. Não estou doente – nunca estive. Há três meses atrás voltava a casa pela mesma estrada de sempre, olhava para os carros que todos os dias faziam o mesmo percurso de regresso à sua vida familiar. Um rebanho de gente cansada em mais um final de tarde cinzento. Olhei pela janela do carro. À minha direita, uma miudinha que não poderia ter mais do que cinco anos, de cara sardenta, fazia-me caretas despreocupadas. Apeteceu-me sorrir. Na rádio ouviam-se as noticias de mais um dia de quedas na bolsa, de acidentados não muito longe dali, de políticos cheios de ideias, de mais um atentado terrorista, das vitórias e derrotas no futebol; e apercebi-me de que não mais sairia daquele cenário, de que estava eternamente preso. Desliguei o carro e as vozes na rádio pararam de falar. Saí. Fechei a porta e senti ligeiros olhares à minha volta de quem estranhara a minha decisão. Não me importei – sabia que também eles pouco se importavam. Olhei novamente para a miudinha que ainda há pouco me fazia caretas. Sorri-lhe. E fiz-me ao caminho. Cheguei a casa era já noite cerrada. Passei as horas seguintes acordado a queimar as últimas cartas que recebera alguns anos antes. Já não havia razão para ficar. Deixei a chave na porta, podia ser que alguém precisasse de dormida e encontrasse ali um refúgio. Respirei fundo...e parti. Houve quem lhe chamasse rapto. Loucos houve que lhe chamaram magia. Sempre tive alguma predisposição para acreditar um pouco mais nas palavras de quem não se rege pelos padrões habituais a que aprendemos tão inconscientemente a designar por sanidade. Estava sozinho e podia fazer o que quisesse, mas não havia grande coisa que me apetecesse fazer. Podia ter chorado, podia ter implorado, Por favor, não me deixem partir. Mochila velha às costas, pouca roupa guardada, alguns objectos pessoais, um leitor de cd’s, alguma música, uma caneta, algumas folhas, um maço de tabaco, um isqueiro, algum dinheiro e muita tristeza no corpo. Durante duas semanas caminhei sem destino definido. Pela primeira vez senti que tinha, de verdade, um objectivo. Disse bom dia às poucas pessoas que por mim passaram e eventualmente cheguei à casa dos meus avós que tinha agora um aspecto abandonado, a mesma casa onde passei alguns verões da minha parca infância. E lembro-me do quanto adorava correr, rir, jogar à bola, tocar à campainha de alguns vizinhos na companhia dos putos que comigo se aventuravam pelas ruas da aldeia, lembro-me de como nos divertíamos a ver o velhote de barbas que irritado nos perseguia, a quem inocentemente chamávamos de pai natal – ainda hoje acredito que ele não via maldade nos nossos actos e que docemente se divertia connosco, brincando ao faz de conta, no papel de vilão. Encontrei no sótão da casa a velha bicicleta vermelha que me tinham dado por altura dos meus anos, por ter tido boas notas. Sentei-me com algum custo nela e fui pela aldeia, pedalando durante alguns minutos por entre as ruas desertas. Parece que ao longo dos anos as pessoas foram partindo em busca de novos endereços e que aqueles que ficaram, cedo ou tarde, morreram de solidão. E senti-me só. Já em casa, tentei ainda espreitar de relance pela janela na esperança de que nas estrelas ou na lua cheia encontrasse alguma companhia. Mas já era tarde. Durante as semanas que se seguiram estabeleci nova rotina. Levantava-me cedo e ia para o quintal cuidar da laranjeira que o me avó lá colocara com tanto apreço poucos dias antes de falecer, o resto do dia era passado a tentar consertar o soalho, a pintar paredes, a recuperar mobílias, a tentar dar nova vida à casa, a tentar construir harmonia num cenário de desolação; já de noite, sentava-me junto à lareira para escrever no diário que ultimamente se tem sido o meu consolo nas longas horas de frio mais intenso.
Certa noite terminei a obra. Com orgulho observei a casa e o brilho que agora decidira lá morar. Porém, senti-o novamente, o mês vazio que me havia trazido até tão longe. Constatei a minha verdade: não poderia fugir de quem era. E o meu destino já está traçado. Uma decisão sem pompa nem circunstância, uma simples opção de vida. Dentro de dias, quatro ou cinco, não mais, subirei ao sótão onde o cenário da minha execução já está montado. Subirei para o cimo de um bano de madeira e à volta do meu pescoço colocarei a corda que me levará até à eternidade. E por fim, num sulco, num impulso, num momento, num centésimo de segundo, darei o último balanço e sentirei o meu corpo dormente cair por curtos instantes que mais parecerão largos minutos, e já não sentirei o pescoço partir se tiver sorte. Não sufocarei, quebrarei apenas. E poderei, por um dia ou para todo o sempre, se possível, deixar de sentir dor, deixar de me sentir só, deixar apenas de sentir. E pode ser que desta vez tudo faça sentido. Mas...



(Pedro)

quarta-feira, dezembro 22, 2004

adeus, feras portentosas. iremos cristalizar-nos por entre as areias deste tempo esquecido para sempre.

vamos tirar umas pequenas, curtas férias, eu e o Pedro, não para nos encontrarmos em nós mesmos, só mesmo para tirarmos férias. eu, continuarei pelo menos a escrever no papel. ele não sei... mas sei que iremos escrever juntos poemas que nunca ninguém se terá lembrado de perguntar.
neste momento repousam já à minha volta algumas prendas de natal, algumas prendas de anos, uma máquina fotográfica com cenas a preto e branco de uma vida quotidiana e onde a nossa juventude será relembrada para sempre. música bela demais para ser decifrada por palavras anda por aqui, nste escritório onde néons de uma rua lá fora brilham-me na cara, o frio - era como dizer que o nosso único crime é sentir o que quer que seja.
não quero filosofias aqui, nem agora. não quero coisas doces. quero desejar um natal, feliz se for possível, a todos vós, leitores, amigos, ou ambos. um núcleo que, se não duro, é pelo menos um núcleo em si mesmo.
vergonha. shame shame shame...
obrigado por todos os comentários forçados, esforçados, sentidos e tristes ou apaixonados. até mesmo os que são mandados por e-mail por alguma razão que desocnheço mas aos quais dou exactamente a mesma importância - que é toda - e aos que são apenas ditos por palavras, visto que não existe uma coragem de escrever o que quer que seja. eu e o Pedro compreendemos tudo isso, não nos cansamos de dizer qwue vos adoramos, a todos, os que dizem e os que lêm, para continuarmos com o nosso trabalho, para continuarmos a desbravar o que quer que exista para ser desbravado.












é importante.


































































































































obrigado.
feliz natal.

adeus, feras portentosas. iremos cristalizar-nos por entre as areias deste tempo esquecido para sempre.

vamos tirar umas pequenas, curtas férias, eu e o Pedro, não para nos encontrarmos em nós mesmos, só mesmo para tirarmos férias. eu, continuarei pelo menos a escrever no papel. ele não sei... mas sei que iremos escrever juntos poemas que nunca ninguém se terá lembrado de perguntar.
neste momento repousam já à minha volta algumas prendas de natal, algumas prendas de anos, uma máquina fotográfica com cenas a preto e branco de uma vida quotidiana e onde a nossa juventude será relembrada para sempre. música bela demais para ser decifrada por palavras anda por aqui, nste escritório onde néons de uma rua lá fora brilham-me na cara, o frio - era como dizer que o nosso único crime é sentir o que quer que seja.
não quero filosofias aqui, nem agora. não quero coisas doces. quero desejar um natal, feliz se for possível, a todos vós, leitores, amigos, ou ambos. um núcleo que, se não duro, é pelo menos um núcleo em si mesmo.
vergonha. shame shame shame...
obrigado por todos os comentários forçados, esforçados, sentidos e tristes ou apaixonados. até mesmo os que são mandados por e-mail por alguma razão que desocnheço mas aos quais dou exactamente a mesma importância - que é toda - e aos que são apenas ditos por palavras, visto que não existe uma coragem de escrever o que quer que seja. eu e o Pedro compreendemos tudo isso, não nos cansamos de dizer qwue vos adoramos, a todos, os que dizem e os que lêm, para continuarmos com o nosso trabalho, para continuarmos a desbravar o que quer que exista para ser desbravado.












é importante.


































































































































obrigado.
feliz natal.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

doce.

Hoje disseram-me, não a este som de Ryan Adams que me repete constantemente que o amor é um inferno, que não sabia fazer absolutamente mais nada a não ser ler e escrever. Nulos, talentos, para outras tarefas que requeressem jeito. Génio, desembaraço. No fundo, sou um pintor que não sabe pintar. Então decidi desenhar palavras.
E as férias que vêm. Eu sinto-me perdido, na verdade. Prometi, a amigos meus, que iria escrever um post. Frases curtas, pontos finais com a força de um murro. Mas… que de facto farei eu a escrever? Escrever valerá a pena…? Tenho pensado muito nisto nestes meus últimos dias. Quero… quero saber se vale a pena, verdadeiramente, escrever. Oferecer como amarga prenda de natal ao meu amigo Pedro, a chefia final deste blog. Remover-me, como se eu fosse um pedaço de mobília velha numa casa demasiado espaçosa mas a necessitar de ser arejada. Procurei sempre a beleza nas palavras, mas é inútil procurar beleza onde ela não existe. Afinal, as palavras são sempre palavras - e se eu escrevia para me manter são, para encontrar a calma e encontrar-me, então admito que me queria perder um pouco, desconhecer-me, não saber o que quero. Talvez assim a vida seja mais fácil de suportar.
Isto talvez pareça demasiado soturno… pergunto-me, mas sem me importar muito… que tipo de imagem de pessoa eu transmitirei às pessoas que aqui vêm ler e que não me conhecem…? Ainda bem, nesse sentido, que são poucas. Vou-me envolvendo neste devaneios e pensamentos, a prosa vai crescendo, mas mastigada sempre com o mesmo cinzentismo de sempre. E este texto não está interessante e ninguém vai lê-lo até ao fim porque não vale a pena. Tanta lucidez às vezes e ainda escrevo… para quê escrever, expliquem, para quê um homem escrever o que quer que seja quando ele já matou e inverteu as palavras expandindo, até, na sua mente, pelo menos, os limites do seu universo. E, ninguém se importando ainda por cima.
Não.
Queria. Tirar umas férias. Aprender…a soltar rasgos de fúria através de uma guitarra eléctrica. Poder exprimir da maneira correcta a minha tristeza e melancolia agora tão saborosas, acreditem… - com a toada triste de um saxofone solitário. Sabem, aquelas melodias tão bonitas que só aparecem nos pedintes cheios de estilo em filmes sobre Nova York, em céus azuis de chuva rítmica.
Até já…
O dia foi violento. As colunas do meu pc estão estragadas. E isto não interessa para ninguém. No entanto, porque sou humano, percebem…? Porque sofro e esta é a melhor maneira de extravasar tudo, porque os sonhos não conseguem ficar presos neste meu horizonte de imagens e filosofias que é a minha mente, escrevo. E porquê…? Não seria bem mais fácil enlouquecer de outra forma, através da sanidade adormecida…?
Alguém me explica o que se está a passar?
Gostaria de dizer, depois de ter cortado os pulsos e visto o meu sangue quase preto a escorrer, hospital com ele rápido, a revelação que a vida é um milagre triste, que estou mais calmo… sim. Mais calmo. Era preciso, não era…? Que espécie de ser esquizofrénico sou eu, que mato pessoas e escrevo pela boca de crianças violadas, em meus poemas…?
Afinal, somos todos monstros. Mas que tipo de monstro sou eu.?
Um dia o Carlos Cruz, há uns anos, queria tentar o suicídio. A notícia apareceu há uns anos num jornal que agora não me recordo. Morte em grande; a pistola estava encostada à têmpora, casa vazia, claro, um homem que é homem deve morrer solitário e sozinho, o suicídio se for feito com estilo pode por uma figura contornável da televisão na história. Um amigo ligou-lhe, por acaso. Não sei que falaram, não sei porque se queria matar. Mas a sua vida de hoje é certamente bem pior do que a de há uns anos. Então, pergunto-me.
A pergunta é óbvia. Não percebo. Juro que queria isto: … não, não vou escrever isto. Chega. Tanta lucidez assusta-me ainda. Porque um
Quando agora inspirei para teclar de novo as ideias cortantes não surgiram de novo. Só as dúvidas. Que texto é este, que texto é este que é todo fruto da minha mente. Quero amar-te devagar, escrevi. Quero também sentir-me devagar, amar a minha vida devagar, sinto sempre, caros leitores meus amigos, que não sou merecedor dela. Precisava de umas mortes na família, precisava que alguém me desse um par de estalos por estar a dizer tantos disparates. Não consigo parar, é óbvio. Ninguém muda assim tão completa e radicalmente, admito que existe também um pequeno, bem escondido… prazer mórbido que leva as pessoas a fazerem esgares com a face quando lêem o que escrevo.
Mas só sei escrever, não é. Sou um diletante, na verdade não sou nada disso. A cena é esta: eu nem sequer isso acho que mereço ser merecedor de tal conotação. Talvez seja da heroína que tomei ontem, a minha primeira viagem a um mundo melhor. Talvez seja das ideias que escorrem como uma cascata pela minha boca, nariz e que me dizem que estou condenado a sobreviver, a existir. A perder, e a levantar-me de novo, fazendo manguitos à vida com a mão esquerda.
Gostava de ter sabido desenhar bem. Pintar umas notas musicais que não soubesse tocar, para complementar as que já soubesse.





























































O sentido deste texto deve ser visto à luz da criação artística cheeeeia de sono.
Não, ainda não quero acabar a minha reflexão implexo-invertida.






























































































Vibra.
Quero também dizer algo mais. Fronteiras…? Que fronteiras? Existe este medo: meter tudo arrumadinho, quebrar os cânones é entrar nos non-senses que os mestres repudiam por já terem visto a luz que nunca os queimou.
Quero dizer várias coisas. Sou um gajo porreiro. Rio-me muito, leio pouco hoje em dia. Escrever…? Foda-se. Três poemas Sábado, quando os dias ainda eram jovens e eu acreditava em mim mesmo - matar. Nunca. Não quereria na verdade. Sinto-me demasiado bem a imaginar como seria, para ter de escrever sobre isso.
Raiva. Mas certamente. E quero ainda dizer algo belo, que é amo-te. Amo-te imenso, ainda mais nos intervalos das palavras que não digo, é verdade… amo-te mesmo imenso, dói um bocado, mas vale decerto a pena quando estamos juntos. Sei lá, amo-te, percebes…? Parece que a palavra, que nunca soube bem, sabe bem agora, como se fizesse todo o sentido, mesmo depois de ter sido mutilada em milhares de mensagens de telemóvel de betos e juras ditas nos primeiros namoros como se seguisse um protocolo. A palavra parece renascer agora, eu amo-te. Quero estar contigo, fazermos amor sem olhar para o relógio, adormecer depois a teu lado quando estivermos demasiado cansados para nos beijarmos. Amo-te, percebes. …Amo-te e é como se eu tremesse todo, com medo de mim mesmo quando te digo isto, que te amo e porque te amo, como se tu não o soubesses… Mas a verdade é que amo tudo em ti, mesmo que depois me tornes cego com cada beijo que me dês - e eu nunca quis que partisses. A forma como mexes o teu café, como mexes no teu cabelo, como te ris envergonhada, ou como fumas tão discretamente, como se o cigarro fosse apenas uma extensão do teu corpo. Sem qualquer estilo. Estou cansado, meu amor. Tanto, e tanto… queria estar contigo agora, apareceres enquanto escrevo, olhar para ti como se fosse normal de facto estares aqui, comigo, neste momento em que te tenho mas não te sinto. Abraçar a tua cintura, e enterrar a cabeça no teu peito, respirar o teu perfume. Unir os nossos lábios húmidos com o magnetismo de uma prece tantas vezes imolada, pelo menos cada vez que te relembro, cada vez que não te tenho. Dizer amo-te enquanto os nossos corpos se unem (o Inverno pode ser tão pouco condescendente com os amantes…) e deixar, de sentir frio. O meu coração falha batidas, sabes.
…quero dizer. Que te amo. Quero dizer ao ouvido sem ter cabrões a ouvir ou a intrometerem-se entre o nosso amor frágil e belo como as lágrimas de uma pomba branca, de asas partidas, que te amo, amo-te meu amor, é isto… suspirar e deixar os gestos
Espera. Amo-te mesmo fora destas palavras.











































Parte três.
Hinos. Hinos são tudo aquilo que eu posso ter querido dizer, ideias gerais… um pedido de desculpas em forma de insulto por ter estado tão longe (o meu gato está agora no meu colo…), tentar perceber porque é que faço o que faço, assomo de vergonha. Amo-te.
Pedido de desculpas.
Hoje deve ter sido o meu dia de sorte. Era algo que gostava de te ter dito, quando te vi. Quero justificar-me, perante a vida. Vender um livro bonito, não muito complicado. Um sapateiro que cuida de uma mongolóide que a mãe deixou e se foi embora, na sua sapataria.
Gostava de beijar-te agora, abraçar-te, ser um bocado um puto novamente, não sei se compreendes. Estou frio esta noite. É pensar…
Acho que a vida me corre bem, cada vez melhor. De dia para dia.
Então, porque é a começo a senti-la tanto quanto uma curva?

































































Obrigado a todos os que leram. A todos… palmas. Vocês merecem tudo o que eu nunca vos poderei dar.
Definam lá o que isso é, por favor.









































































Obrigado.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

adeus, meu amor.

Odiaria ter que te dizer adeus
sem ter de ti um último sorriso.
Mas ouve o que te digo
quando falo em passado
ou tristeza ou vazio.
A verdade é que não os conheço
como a ti conhecia.
Não sei se te apressaste
para te vires despedir
no dia em que parti.

Sabes, não tive medo de partir
apenas receei que te esquecesses de mim.
E acredito que a altura chegou
de te dizer que não me esqueço.
Outrora quis dizer adeus
e nunca percebi se foi coragem
deixar tudo por terminar.
a verdade é que o que fica inacabado,
cedo ou tarde,
nos traz de volta a dúvida.

E lembro-me bem de ti
e de como te conheci:
Mas o que é a vida
senão dúvidas de ressaca?
Despedi-me da vida eterna -
a teu lado seria imortal.
Mas eventualmente todos perecemos.
E eu não queria fazê-lo -
agora que deitado vou convalescendo -
sem antes te dizer, adeus, meu amor.


(Pedro)

estou a afastar-me do propósito de ter um blog puramente para prosa e poesia? não. este blog é o que eu quiser, e excepções podem e devem existir.

My japanese name is 秋本 Akimoto (autumn book) 明 Akira (bright).
Take your real japanese name generator! today!
Created with Rum and Monkey's Name Generator Generator.







quarta feira, ou quinta, entro de ferias, os testes acabam, e poderei voltar a postar.

domingo, dezembro 12, 2004

Se não me engano, qualquer coisa

É domingo e para mim geralmente é sinónimo de pouco fazer. Decidi passar por aqui, deixar algo de pouco relevante talvez por algum sentimento de culpa pelo facto de a única coisa que postei para vocês nos últimos dias ter sido motivado por alguém que não sei ao certo o que é nem de onde surgiu - mas que surgiu. O que vou eu fazer? Por isso peço desculpa e venho tentar lembrar-vos de que as motivações deste blog vão um pouco além de tricas e disparates. Pese embora o facto de, democraticamente falando, também estes terem lugar. Mesmo aqui. Quer isto dizer que me arrependo do que escrevi? Obviamente que não. Tenho orgulho em todas as palavras que depositei neste espaço pois foram também para vocês, tem disso, sejamos honestos, até que teve (a sua) piada. E o que me protege a mim? E que foi feito de nós os dois, João? Não te preocupes, caro companheiro de letras. O que tiver de acontecer fará sempre sentido num plano final. E está descansado, o que quer que se verifique abandono aqui a minha certeza de que gente como tu faz sempre a coisa certa e mesmo quando erra...fá-lo com estilo.
Há poucos dias fiz anos. Nestas alturas sinto sempre receio de ser assombrado por uma qualquer nostalgia “própria da idade” – expressão fantástica porque pode ser aplicada a qualquer idade. Independentemente disso, queria só deixar aqui um modesto voto de apreço por todos aqueles que me deram a possibilidade de poder dizer com clareza e sem receio, que as pessoas existem, que nem sempre é incorrecto da minha parte relaxar...e apreciar o que vejo.
Queria agradecer a quem tem comentado. Queria agradecer a quem tem lido. Queria agradecer a quem.
É de louvar que haja quem tire uns minutos dos seus dias apenas para dar mais uma oportunidade a um par de jovens incautos (Ah a juventude, a juventude) que pouco mais querem do que escrever...
E escrevem.



E escrevem.


(Pedro)


P.S.: Se não me engano, acho que esta foi a primeira vez que postei algo que quase, só mesmo quase, se assemelha a uma qualquer espécie de reflexão...mas não se assustem, não foi certamente por mal.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

calhambeque - [Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

VRRRRUUUUUUUMMMMMMM lá vem o poeta, louco, destemido, que grita sem piedade: EU SOU O MELHOR NAQUILO QUE FAÇO (realce-se as maiúsculas...ensinaram-me em tempos que todo o pequeno ser sente necessidade de enfatizar as suas certezas).
A multidão delira, inebriada pela irreverência do ferrari poético que se aproxima.
Pára um pouco, o tal poeta. Sofre uma brutal crise de inspiração...baixa as calças e recita.

Sou poeta
eu cá não sou rabeta
repito-o a toda a hora
para não o pensarem sem demora


[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Eu não conto a ninguém – a verdade é que hoje descobri a luz...veio de um jovem em crise de supra identidade, ou seja, tem tanta certeza sobre quem é, sobre o que é que faz, que acredita do fundo de si mesmo que já não tem nada a aprender. Pois bem, meu rapaz, tenho a tua idade e um pouco mais de ousadia, portanto vim aqui hoje dar-te uma pequena lição (é terrível, mais um “professor” a querer assombrar-te), não de carácter, descansa, em primeiro lugar, lembra-te de que o meu nome é pedro, caso sintas necessidade de fazer algumas das tuas brilhantes rimas dedicadas a mim, por favor faz isso... e sim, vamos delirar os dois, faço-te hoje, aqui e agora, a proposta, seremos tão felizes os dois juntos. Tu a mandar, eu(e todo um mundo) a obedecer. Sabemos bem que é assim que tu gostas das coisas, não é...?
Em primeiro lugar, vamos por partes. Já fiz uma passagem pelo teu blog, gosto de aprender com as pequenas coisas. E agora sim, porque sei que és infantil ao ponto de achares que não o és, porque sei que depois de ter conhecido através das tuas...hum, digamos, “palavras” terei mais uma história para contar aos meus netos sobre o tempo em que atravessei países à procura de personagens para o livro: “Aberrações e afins – um manual para todos aqueles que SÃO DOS MELHORES NAQUILO QUE FAZEM”. Ou nem tanto. Sei que gostas de atenção...todas as crianças gostam, principalmente as mais...espevitadas. Oh sim, meu caro amigo, confesso, foste tu quem me deu o meu maior orgasmo de comicidade até hoje. Mas já me arrependo, apercebi-me de que a arte do teu escárnio não advém do que dizes, nem de quem és, mas sim de toda a personagem artística que, consciente ou inconscientemente, decidiste criar. Um pouco com aquele outro...um tal de Castel Branco – e digo isto sem querer apropriar-me de todo carácter cómico inerente à simples referência de tal ser, nem o poderia fazer, pelo amor de deus, afinal de contas, já vão em quase dez os minutos do meu precioso tempo dedicados a...coisas, como tu, caro blogger.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Mas sejamos um pouco sérios, por instantes, embora pareça difícil. Disseste no teu blog Se calhar, e muito provávelmente, não sabes quem sou./Não imaginas as merdas porque passei, não sabes o que eu vivo.../Como podes tu avaliar aquilo que eu sinto?/Ou aquilo que eu escrevo?

Eu podia ser mesquinho e fazer das tuas minhas palavras e o mundo seria logo mais bonito e justo porque toda a gente respeitaria as outras pessoas. Mas não. Sabemos bem que não é assim. A verdade é que pouco me importa aquilo por que passaste. Aprendi ao longo dos tempos que as melhores pessoas que passaram pelos piores momentos não sentem a necessidade de se vitimizar. Quanto a ti, lamento. Apenas isso. Passas os dias a chafurdar na tua própria noção do que é bom e deixa de ser. E pronto, ficaste por algo relativo: és o melhor. Eu limito-me a prestar-te tributo, és grande, tás lá e tal, tudo isso. Sabemos bem que gostas de o ouvir.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]

Continuem a prestar atenção às mensagens subliminares. Quanto a ti joão, tenho que ser honesto contigo...foste, em parte, ingénuo ao ponto de pensar que este jovem imberbe teria a maturidade emocional para assimilar uma crítica. Negativa, por certo, mas construtiva. Não te preocupes, terás outras oportunidades, por certo mais aliciantes. Mas pronto.

Uma pequeno reparo, meu caro Ankh Aton, não penses que te criticam por maldade ou gozo...a verdade é que mete um pouco de pena esse teu complexo de superioridade absoluta. E não, não entres na simples critica do “ah o joão não se consegue defender sozinho e tal” (se tens o mínimo de intelecto certamente já terás percebido o contrário), ou então nas que tu gostas bastante de índole sexual e tudo o mais.
Divertes-me a sério. Conseguiste, com primazia o teu tão almejado objectivo. Mas olha, tenho de ir, lamento se não consegues lidar com o que se faz neste blog com humildade e imparcialidade. Sabemos bem que teríamos todo o gosto, tanto eu como o joão, de o fazer em relação ao que tentas transmitir...embora não facilites.

[Ankh Aton é o profeta dos nossos tempos]



(Pedro)

resposta breve a um post de um gajo que quer que eu lhe meta o punho no cu.

Recebi hoje no blog que vos deixei há uns dias, um novo poema dedicado a mim. Olha que porra… sou importante. O projecto deste blog está a ficar demais, de facto. O Pedro penso que escreveu qualquer coisa também, ele depois posta aqui. Deixo este comment aqui porque o sitio pós comments do nosso caro Ruben não tem parágrafos; as estrofes ficam assim, então, obviamente, fodidas. Fui politicamente correcto, entre um cd que estava a ouvir bem calmo por acaso, e conversas entre pessoas no msn, por isso demorei mais tempo a escrevê-lo. Para verem o blog que o miúdo me deixou, vão a http://lts.blogs.sapo.pt/


Caro ank, se é que te poderei chamar Ruben
As únicas batalhas em que participei
Rasgaram-me o corpo de mil cores como ventos ciclónicos
Batalhas em que perdi e amei
A própria derrota que vi pelos olhos cónicos
E cansados ardendo em fogo lento tão delicioso
Não direi que mereces uma resposta à altura
Por isso repara, uso o teu estilo, que me é contra-natura
Quanto ao resto pouco mais poderei dizer
Tenho plena consciência de que o web surfer se sabe defender
É meu amigo, claro
mas tu ao pé dele não vales mesmo a ponta de um charro.
é engraçado: dizes que poesia como a tua eu não sei fazer
e que a minha está datada; pergunto-me se terás conhecimentos de poesia
a sério; não te custava nada a aprender
e a engolires talvez um pouco a ousadia
de te considerares o melhor nesta arte tão ampla e criativa.
O resto são insultos vazios
Acredita que arranjaria reposta e também formas de te humilhar para cada boca
E cada rasgo de tremor frio
Que tiveste quando num mail pessoal me vieste pedir tréguas
com palavras ocas
não embarcando com lógica num espírito combativo
mas é óbvio que o orgulho, o maior assassino humano, te atingiu
a mim também, um pouco, mas somente no sentido de te mostrar
que eu não sou como o que bateu e depois fugiu
gostei da tua crítica negativa
tu certamente mereceste a minha
mas só devido ao facto de a achar tal coisa
;mas não ma deste, é engraçado; dás-ma agora
para talvez os teus amigos verem
e talvez erroneamente perceberem
o miúdo infantil que és quando chega a hora.
Não és grande; és somente um miúdo assustado
Que se sente sozinho nos ecos dos momentos em que pára para pensar
O desespero dos teus pensamentos é encoberto pelo sarcasmo
Mas, é óbvio, não será alguém como eu, “poeta” desterrado
Que te fará admitir isso.
Batalhas? Que batalhas? Brandes o teu punho no ar, proclamando a tua vitória
Mas não é comigo que lutas, é contigo mesmo
E com a tua dúvida clamorosa
Que te aperta o peito
Qual é não sei
Mas como sempre te disse
Nem sequer me interessa se amanhã já não existes.
Continuo a pensar que faço metade, do que tu fazes
Pelo menos em poesia e prosa, as minhas têm de certo raízes
Mas não tenho nada publicado, nunca ganhei um prémio
Duvido muito que tu tenhas alguns recebido
Quanto ao teu livro
Dá-me o nome para eu o comprar e ler atentamente
Pode ser que quem sabe, eu ao contrário de ti tenha a humildade suficiente
Para talvez aprender algo
Quanto mais que não seja a fechá-lo
Prematuramente.
Há, e… nunca vi o 8mile, e não curto eminem
Prefiro o caos de outras bandas que afirmo-te, não têm nada de zen
Não quero fazer nada contra um puto que não quer saber
Mas pensa que tipo de pessoa te tornarias se de facto quisesses
Bocejo em relação a isso, ri-me com alguns insultos teus
Não é sequer uma questão de se, ou não, os merecesses
Apenas insultos.
Vultos
De raiva disfarçada de risos mudos
De um puto
Que não sabe aceitar uma crítica negativa…um ditador
Se tivesses um dia essa chance na vida.
Tou-me a cagar para os teus erros
Se não os desses diriam talvez que eras menos lerdo
Dás os que quiseres desde que não seja eu
E em relação à arte da riam, como podes saber?
Já a pratiquei,
Já a emulei pelo simples prazer de a fazer
E nunca a viste;
logo as tuas críticas são tristes
Mas soube voar mais alto
Para ti, mais baixo
São opiniões, claro
Mas ela deixou de me dizer tudo o que tinha para me dizer
Para poder procurar-me gritando de forma mais clara a um mundo mais áspero.
Para finalizar…
(não porque não tenha argumentos para te foder,
mas porque descer ao teu nível não me dá nenhum prazer)
não tenho nenhum complexo de inferioridade
quando chegares à minha idade, e tiveres a obra que possuo
e ser considerado pela minha editora um trunfo
espero que olhes para as tuas batalhas
livros
prémios e algum falso prestígio
e te sintas pequeno
não em relação a mim, amigo
mas a ti mesmo.
Porque aí, talvez tenhas crescido.



Em relação à minha dica em inglês…

“we are always in the gutter but some of us are looking at the stars”
Oscar Wilde.
Poderás considerer-te tu, ahnk, um desses delizardos (ou, quem sabe, amaldiçoados?



Se quiseres uma resposta em prosa, terei todo o prazer em te cilindrar.



Pessoal, comentem. Gostaria de ouvir a vossa opinião. Mas não sejam como o web surfer (Nuno para quem não sabe, um amigo meu que não vejo há um ano, e que deixou o comment no post dele sem eu saber de nada. E falo a sério aqui. Nem sabia que ele tinha deixado lá um.)

quinta-feira, dezembro 09, 2004

o meu primeiro comment negativo ppl!! não sou assim tão bom quanto dizem-...e...parabéns amigo.

haaaaaaaaaa como estou feliz o meu primeiro comment depreciativo!!! tou mesmo feliz, este gajo conseguiu ser brilahte: levou omeu nome na poeria suja destas cidades abandonadas ao comparar-me com um calhambeque... eh pah e tal sim senhor. para quem quer ler a sua poesia, que diz ser melhor (coisa a que estou pronto a brir um debate sobre isto, não exitse poesia melhor nem pior, apenas poesia MAIOR e MENOR), consulte o seu blog, http://lts.blogs.sapo.pt/ , estando a fazer o favor que ele quer, que é divlugar o seu blog, pelo que já disse em alguns poemas seus: não interessa se falem bem ou mal de miml oque interessa é que falem. isto não é o começo de uma guerra. nunca tive paciência para guerras, e se o estivesse isso penas seria prova que estaria inseguro em relação à minha poesia. ank, lê mais blogs, não podes tirar nenhuma ideia geral enqaunto não leres TUDO. tens coragem., meu? lê por exemplo, o post "apeteceu-me chorar" - é prosa, mas um gajo revoltado como tu acho que vai gostar. mas continua a vir cá, espero eu, muito mesmo, que estes poucos poemas que ponho (no papel ultrapassam os 600, penso), te façam, a pouco e pouco, mudar de ideias - todos nós gostamos de convertidos à nossa escrita. de resto...aproveito para felicitar o Pedro, o meu caro amigo de letras e momentos, que hoje faz 18 anos. mandem cuecas autografadas para bairro da anta, numero doze, primeiro esquerdo. de mulheres, claro. tu merecias um post só para ti, mas que porra pedro... já escrevi muito hoje. parabéns amigo.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

O Nada.

Estou prestes a fazer o exercício mais benéfico e mais incrível na minha parca carreira de escritor, e cujo resultado determinará, somente, se sou de facto um génio literário (e não, um génio, atenção, pois a cada dia que passa a universidade me faz sentir mais estúpido), ou apenas um aspirante a tal condição. O momento, deve-se dizer, parece perfeito, o que equivale a dizer - comum, como todos os outros, pois este é um teste que não deve ser realizado sob qualquer - nenhuma - condição especial.
Devo pedir desculpas pois quebrei o fio de raciocínio, parei por uns momentos. Levantei-me, fui buscar bolachas, estava com fome, no fundo isto não é uma excepção, vou retomar onde parei. Dizia eu que isto que faço não deve ser feito sob nenhuma condição especial - mas, se estiver cansado, ou exaurido (ui que bela palavra, que sarcástico eu sou), apenas me será dado um bónus pela perseverança e força anímica por ter conseguido o que de facto consegui. Esta introdução está a ficar longa como o caraças.
Única excepção…? Ouço uma música agora que considero bonita, a sparks, dos royksopp ou lá como se chama o grupo. Excepção? Sim, as músicas belas em algumas pessoas (ainda bem que eu não sou excepção) conseguem criar um torpor e uma moleza sentimental que as leva a diferentes voos prosaicos, ou poéticos, não direi mais altos. Mas estou confiante que isso não poderá ser razão para me afectar - esta música, também, já acabou tantas vezes em mim, e em mim morreu tanta vez, que não causará assim um grande efeito por aí além. Digo isto - e terminou agora mesmo. Escrever demora mais tempo, é um exercício mais lento, do que se pensa.
Erase/rewind.
É necessária uma explicação? Absolutamente. Completamente, diria, se estivesse a falar sobre uma rapariga entre o loiro e o moreno. Esta é uma teoria que me tem acompanhado (e todos os meus textos), e que, juntamente com a minha confiança quase arrogante neste mundo da escrita tão complexo ás vezes como um bocejo, me permitiu desbravar sem medos todos os horizontes da escrita, pois usando a confiança como arma, sei que nada que farei poderá se considerado menor que bom, certamente não medíocre.
Explicação, então: sempre fui um defensor daquilo que considero ser "a máquina lírica". A história pela história, trejeito de desdém agora na minha face por favor, ainda chegará o dia que farei alguma assim, um livro pela história, apesar de todos os livros contarem uma história, hum? Ainda chegará o dia em que farei um livro sem história, mas não um simples livro sem história - um livro sem história que ultrapasse os outros. Ideais utópicos de loucura? Não importa, são os loucos que fazem mover o mundo, certamente não vocês. E, se de louco tenho algo, também tenho uma quantidade de sanidade suficiente que me permite, sempre, apenas verter, e digo bem, verter, a minha loucura para o papel. E, se é essa a desculpa que querem dar, se é essa a explicação plausível que querem criar (que maçada, nós, necessitarmos de explicações para tudo.!), então chamem-me louco à falta de palavra ainda por inventar, chamem-me génio com o risco crescente de levarem uma reprimenda minha se eu estiver por perto. E o que é a máquina lírica?
Memory. Decerto me imploram calma, por favor vai mais devagar, quero um texto mais simples e delicioso, a que seja fácil deixar um comentário para ficares feliz, e eu ficar contente por ver que é preciso tão pouco para te deixar satisfeito. Mas falava-vos eu da máquina lírica, o que é…? A máquina lírica é, a meu ver, a capacidade de escrita do escritor, que obviamente abrange tudo na sua escrita. Tirando, talveeeez… a genialidade de se saber todos os ingredientes para se contar uma boa história? Muitas vezes andam de mãos dadas com a simplicidade fútil dos romances light. Tenho pensado nisto desde os meus 14, talvez 15 anos, quando li, e a leitura, meu Deus, que não acabava, O Ano Da Morte De Ricardo Reis, de José Saramago, que como todos sabem era um heterónimo de Fernando Pessoa (digo, Ricardo Reis. Saramago é talvez o escritor que Pessoa gostaria de ter sido, obviamente a nível prosaico). O livro, o meu preferido do autor, é absolutamente uma palhaçada total. Escrito a meio da carreira, Saramago confronta-se com uma ideia quase sem história… e não era fixe se tipo, portantos, o Pessoa morreu, mas tipo os hum heterónimos perduravam ao gajo, tipo porque, e se eles tivessem sido sempre reais, mas sei lá, haaa, de qualquer maneira sobrevivessem a Pessoa mas fossem criações que tomaram vida a partir dele? E depois acabassem por morrer também? Alberto Caeiro está morto, claro, restam Reis e Campos, que nem sequer aparece, o corno, acredito que animaria muito o livro, e Alexander Search, esse, parece ter sido esquecido por Fernando Pessoa, bem como Bernardo Soares, que direi, contrariando e inflamando muitas opiniões, era talvez o mais interessante heterónimo de Fernando Pessoa, com o seu Livro do Desassossego. Reis então chega do Brasil, para onde tinha ido num rasgo de genialidade ridícula pessoana regada certamente com muito ópio, para exercer a sua função de médico, de barco, claro, apanha um táxi, mete-se num hotel, onde conhece o porteiro e uma empregada chamada Lídia (ironia, ironia) com a qual vai ir para a cama, e no dia seguinte vai ver o túmulo de Pessoa. Dias depois, ainda no mesmo hotel, regado por uns capítulos onde conhece alguns convidados e estreita, mas tudo muito difusamente, as relações com as pessoas que conheceu (um advogado, penso, ou jurista, e uma mulher loira que não mexe a mão esquerda, ou melhor, o braço na sua totalidade, pela qual acaba por se apaixonar, mas de forma tão "triste"). Capítulos depois, talvez uns dois ou três, aparece Pessoa no quarto de Reis, quase desafiando parodicamente o leitor que Pessoa é menos real que Reis, afirmando-lhe que ele, seu heterónimo, tem somente nove meses de vida antes de partir, para se despedir das coisas e pessoas que mais ama, mas sabem, Pessoa era um frustrado de merda, bebia e drogava-se para esquecer a infelicidade da vida, porque não tinha nenhuma: cometeu, aliás, suicídio algo directo-indirecto quando soube pela boca do médico que, se bebesse mais um copo de álcool, era o fim. Fechou-se no seu quarto, com uma garrafinha de ópio, e bebeu durante uma tarde inteira, queimando os últimos cartuchos de uma vida decadente que ninguém, nem ele, tendo sido o melhor aluno do seu colégio em Inglaterra, sonhara ter. como tal, os seus heterónimos são… tristes, como ele. Álvaro era a total tristeza, Caeiro, porque camponês e solitário, morreu cedo, Reis era um paganista falso escrevendo a uma Lídia idílica, e Bernardo o ateu total, não acreditando somente em Deus, mas também nas pessoas. Reis não tinha sequer pessoas que conhecia, Pessoa não as criou, e Saramago vê-se, supostamente, preso numa armadilha que ele para si mesmo criou. O seu livro acabou aqui, o que é que um homem, que não teve ninguém nem nunca se pensou ter, e era quase uma cópia da personalidade de Pessoa, iria fazer durante nove meses (nove meses.! Relembro que o livro Sombras de luz difusa, por exemplo, tem apenas a duração de três dias e meio, penso eu, já nem eu próprio sei bem…ridículo.). mais importante, como iria Saramago escrever sobre esses seis meses.
Se ele, pelos últimos livros que fez não merecia hoje o Nobel, por aquele e obra anterior, já o merecia certamente (ninguém me convence que há um único livro mesmo bom dele depois de Todos Os Nomes, polémicas políticas à parte). Saramago é aqui um mestre, brilhante, evoluindo e usando a sua técnica escrítica, de prosa rasteira e virgulada, muitas vezes mesclando-se com as suas próprias teorias filosóficas sobre nós mesmos, para contar uma história sem história, relatando, quase dando-nos uma bofetada página a página que passa, mostrando que o está a conseguir, e a superar todas as expectativas, da vida deste heterónimo que nunca a teve. Reis vive de facto os nove meses, dá umas voltas por Lisboa, encontra Pessoa mais um par de vezes, vai a Fátima um dia, volta, e compra uma casa nos últimos meses da sua vida, que habitará sozinho, se não contarmos com visitas ocasionais de Lídia, personagem a quem Saramago nem atribui especial destaque. No fim, Pessoa aparece para o ir buscar, deixando uma Lídia grávida, para ir dar uma volta por Lisboa. O grandessíssimo filho da puta consegue, assim sem mais nem menos, usando só o seu génio, criar o seu melhor livro. E que ninguém diga o contrário, que ninguém diga que é o Memorial Do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ou o Ensaio Sobre A Cegueira (talvez A Jangada De Pedra, não?). É este, somente - somente, atenção! - pelo génio de Saramago, que consegue tornar, juro, interessante, interessantíssimo, um livro sem história, recorrendo apenas à sua escrita. Palmas.
Foi uma das maiores lições de vida para mim enquanto escritor, se é que me posso chamar tal coisa - todos os homens são escritores. Percebi que o que faz um bom livro, um bom escritor, não é a forma como conta as histórias que relata ou as histórias em si - a ideia pode parecer óbvia, mas é somente a forma como escreve. Só, e nada mais. E o que torna um livro bom é em última analise também isso.
Ou seja, a ideia é escrever um post que não fale de porra nenhuma, mas que seja interessante só porque está bem escrito… entenda-se. Todos somos levados a fazer coisas incríveis, ou pouco plausíveis, somente pelo porque sim; extremamente politicamente incorrecto, é isto… palavras, amontoado delas, sem expressão nenhuma, apenas a génese dos meus próprios pensamentos desinteressantes, escoados para sítios menos próprios de tudo o que se situa dentro do meu crânio.



No fim, tudo o que sobra é um desalento incrível, acreditem. Como se nunca iremos ser bons, ou bons demais. Apenas paranóicos.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Salinas

O poema que se segue não precisaria de explicações, porventura, pelo simples facto de não o ter feito com os meus outros poemas. Mas talvez a moda tenha pegado, digo, moda… com o meu amigo Pedro, que explicitou de forma tão boa o poema “A Casa De Roxo”, e talvez porque a música que ouço me permita a outros devaneios prosaicos, que me façam, hum… digo:
Afastar-me, talvez, só um pouco da ideia inicial desta explicação, para poder dar largas ao amor, para fluir… talvez seja necessário.
Escrever coisas belas talvez nunca tenha sido considerado crime.
Este poema é só mais um poema como outros meus, pelo menos à primeira vista. Não é, decerto, o melhor, talvez não seja dos melhores, é apenas mais um filho. Criei-o, como crio tantos dos meus poemas preferidos, depois de uma febre de noites a sonhar, como se o meu cérebro me desse pistas para encontrar este poema na minha mente. Quando o acabei de escrever, apercebi-me que o tinha visto, que ele se tinha formado em mim, enquanto, há coisa de dois, três anos atrás, fazia zapping, e apanhei, apenas difusamente, por cinco, sete segundos, imagens de um documentário sobre as salinas do rio Tejo. Anos depois, as imagens que capturei começaram-me a aparecer em sonhos, a picarem-me o cérebro enquanto não pensava em nada, e não conseguia dizer o que era, lembrava-me dessa ideia dessa paisagem, e é como se de facto estivesse lá. Escrevi o que sentia, e finalmente me lembrei. Estes são dos poemas mais incríveis que se me afloram. Sonho com eles, perseguem-me como se tivessem vida própria, e finalmente capturo-os no papel.
Considero-os poemas à parte. Primeiro porque, geralmente, são poemas feitos a partir de imagens, ou fotos, ou lembranças dispersas que um dia pensei ter esquecido e que de repente, anos depois num sonho, relembrei, e referem-se geralmente sempre a paisagens. Não sei… considero-os diferentes, e não tanto pelo estilo poético, que, como se sabe e já pode ter sido aqui observado tenho muitos. Este poema é então uma paisagem. Não amorosa, não glamorosa, simplesmente a lembrança de uma paisagem. Sem grandes demoras, é com orgulho (porque é de orgulho que se trata, em relação a este particular poema) que vos apresento a obra, Salinas.



Chegaste
Mesmo a tempo de desintegrar
esta paisagem toda
de sal exóneo como uma brasa
Que se estende por todo o comprimento do meu braço
De fogo seco, e
fátuo
é uma chuva de luz castanha, uns
;intervalos
entre duas ou três palavras que proferimos
a bem do ritmo
Loucos
Sal em
Montanhas trepam
por essas erectas estruturas larvais
como saliva esfomeada. Mas eu
Vi
Sereias com bocas de insecto
a cantarem a sua cegueira de queimadas,
abrasivas rainhas; festins em tempos nocturnos
fantasmagóricos e húmidos de azul escuro, pesadelos
como gritos ao longe neste local
abandonado
homens de bigode e anciãs que irrompem
deste chão de lodo, destes
favos de saliva e desespero
fundidos: lagos
de água podre onde fénixes
morrem
como construções humanas.
Como humanos…
Castelos, só
e nada mais.



De sal.




Ao som de Azure Ray


00/38/01/02/11/04

sexta-feira, dezembro 03, 2004

A casa de roxo

(Há uma música de Jimi Hendrix chamada “Red house”, um dos mais sinceros e interessantes exercícios de blues que se ouviu de Jimi. Acerca dos blues, disse um dia “The blues are easy to play, but not too feel”. Talvez isso explique em parte o alcance da sua música. Quanto a este poema da minha autoria, fi-lo a ouvir esta mesma música, e embora as palavras pouco tenham a ver com o que é cantado, confesso que o escrevi a tentar transmitir os sentimentos um pouco díspares que esta música me trazia à memória naquele instante. “A casa roxa” tem este titulo, em parte, como simples tributo, embora subtil e dúbio, àquele que foi o criador de “Purple Haze”, que convenhamos, trata-se de muito provavelmente do sucesso deste artista que sofre maior influência de LSD e afins. Nada de perverso. Sejamos honestos, por vezes a arte, em jeito de criação, tem todo o direito de jogar no limite com os sentidos. Jimi Hendrix fê-lo na perfeição - juntamente com os seus dedos milagrosos que faziam chorar a mais dura das guitarras. Sem mais demora, passemos à leitura. Obrigado.)


Há uma casa que se veste de roxo
na esquina que controla a tua vida.
Ali -
onde os teus antepassados cresceram,
onde se fizeram homens e mulheres.

É tarde,
Já não vês as crianças a brincar
mas sabes que existem
que ainda há alguém a sorrir e
A brincar.
Sabes que já foste como elas
que já foste até
como aqueles homens e mulheres.

Tornaste-te um anjo?

Sei que ganhaste asas e voaste
mas não vejo auréola nenhuma,
mas também é verdade
que os anjos só têm asas.
Sei porque partiste.
Só não me lembro
por que razão te vi partir.
Porque te vi partir -
e embora os anos tenham passado
sei que voltarás a casa...
à casa que se veste de roxo.



(Pedro)

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Directions

Os idiotas enlouqueceram e antes de escurecer aprenderemos que não há nada em absoluto que nos diga o que fazer. E em oposição a isso estabelecemos uma lista de prioridades e deveres tão inúteis quanto irrefutáveis pelos quais tencionamos sempre reger os nossos hábitos. E toda a gente quer ser especial sem ter que encontrar novas formas de enfrentar as pausas com que nos deparamos durante os dias às quais aprendemos a chamar tão delicadamente de tédio. E entre nós, em surdina, recordamos aqueles que se lançam para o abismo caindo como anjos por entre os arranha-céus e lá vão eles 1 2 e 3 como se seus corpos batalhassem desesperadamente contra aquilo que a sue mente já aceitara anos antes. E seremos todos, porventura, presas vulneráveis, enquanto a chuva intensa nos ritma a existência como num jogo de ironia desmesurada que precocemente fomos educados a designar por vida. E não será fácil mas valerá a pena percorrer os caminhos dourados da incerteza durante os anos em que os sonhos são relatados no papel como se de obras de arte se tratassem. E por que não dar as mãos e saltar em conjunto como faria a mais perfeita das orquestras? E a nossa sinfonia seria lembrada e honrada pelos que haveriam de tentar repetir a nossa façanha. Porque sim. Porque falhar é não mais do que tropeçar naquilo que se pensa conhecer. Porque vivemos enganados e pensamos que a rebeldia é feita sem se correr sem rumo – incansavelmente. Porque se pensa que as lágrimas que deslizam face abaixo só fazem sentido perante a tristeza. Mas não. É pura intuição. Mas nos soluços que desculpamos por desconhecer a sua origem estará nova questão. E saliente-se que fazemos todos parte da mesma mescla que compõe o nosso mundo. E quantos entre nós terão a coragem de explodir com as fundações do mundo, com toda a sua história, apenas para ter a liberdade necessária para o reconstruir? E a democracia estará nos beijos inocentes. E a inteligência estará em assistir a um espectáculo de fogo de artificio e sonhar apenas em como se poderá de desaparecer num cenário de cores e rebentamentos somente para acordar no dia seguinte e perguntar: onde estou? Sim, meus amigos e inimigos, é na dúvida que subsistirá a resposta. E só aqueles que entre nós tiverem como meta a mais inatingível das respostas poderá dizer Eu falhei, mas com todo o estilo que se exigia a um revolucionário. Poucos actos e ainda menos palavras Perdoem-me, mas o resto estará por desvendar...

(Pedro)

quarta-feira, dezembro 01, 2004

primeiro ponto do sexto capítulo

Eu pergunto-me Quem é o senhor? E dirá, enquanto me acompanha em direcção ao carro, sem eu precisar de mais explicações, talvez
- Eu sou eu
(eu sou o Pedro)
…Não, estou a imaginar coisas não é possível.
-… Fugir daqui, já. Leve consigo a maleta de receitas, enfie pia abaixo as folhas do processo, agarre na mulher e nos filhos e parta.
“Visões morte – sonho a projectarem-se mais uma vez.
“Parta em direcção a uma qualquer ilha paradisíaca, esqueça-se dos seus problemas, vamos ignore-me vá lá vamos lá, desafio-o a ignorar-me, eu é que não posso fugir eu –
“Alguém tem de lhe dizer que a insanidade não é a resposta para o cinzentismo da vida, sabe.
“Palmeiras bravas, a projecção dos anúncios. A projecção dos concursos de televisão ganhe dinheiro por demonstrar que tem cultura geral, que sabe trivialidades muitas delas inúteis, veja-se no espelho, observe o céu cinzento e a si mesmo, desconfie em tom de certeza o que já andava a pensar há muito tempo, talvez perceba que a sua mulher o ande a trair –
“Esquecer o seu amor. Enquanto entra no carro
“Meu Deus parece-me que já estou a ver, o dia com pouco Sol, a discussão ligeiramente pendente de há duas semanas, a –
“A irritação do trabalho, o dia difícil, o perceber dos quarenta, o querer ter dezoito. Fugir a ritmo de passo do edifico grande, vidros negros espelhados, o indicador parece que esbarrou ali na mesa e passou como uma lixa, no hall, parece limado, levá-lo à boca e chupá-lo enquanto se pensa coçando com a outra mão o joelho dorido que bateu contra um bico de uma secretária, e sentir a mala, outrora tão firmemente agarrada a debandar agora pelos dedos frouxos, que como tarefa adicional têm ainda que puxar as calças do fato para não se meterem na língua do sapato castanho-claro, perna direita. Parece-lhe uma epifania constante, a lembrança das treze vezes únicas em que se sentiu, de facto, bem mais pequeno do que o mundo. Começou, pensa. O deslizar quase insectóide de um samurai demente que pretende cortar-lhe a espinha dorsal da vida, sob a forma de um outro melhor, de a sua mais apta, mais disposta a, tentar de novo, o tempo sempre manejou bem as espadas do destino. Está à sua mercê e pretende-se que lute.
“Sim parece-me que estou a ver. Sim, sim sim. Sim, e tentar perceber, sim tentar perceber. Onde se falhou na vida, a nostalgia de algo perdido. A morena que amava de pele judia com um sinal quase imperceptível junto à sobrancelha direita, que vinha do Norte de Portugal e que não era da sua universidade esqueceu-se de si quando teve medo. Pensou Tem uma luz interior. E com medo, talvez, de apagá-la, nunca se chegou ao pé dela, nunca meteu conversa com ela, nunca arriscou. Arriscou com muitas, mas com aquela, não. Mas onde está ela agora. Onde está agora, repare não sabe. Pensa que – pensa que está a dirigir-se para o carro mas está na verdade à beira de um abismo.
“… Chega. Tenho de para de imaginar que o estou a ver. Eu perdi-vos, a todos vocês que agora não quero aqui. Mas podia dizer. Sabe que podia dizer, podia dizer Sim, e a chorar, sentir uma lágrima tão quente a formar-se, sim tem consciência que podia dizer,

eu poderia dizer se eu não fosse eu, Venda a casa, mas antes cuidado, será que tem licença de porte de arma? Pode estar escondida no carro em que agora mete a chave à porta, como eu, tire a nove milímetros, a calibre trinta e seis, a magnum, a não sei quantas que se vêm, nos filmes de polícias e como nos filmes de cowboys, sete ou seis balas devem ser suficientes, tenha cuidado para não dar nas vistas, qual será o seu modus operandi? Planeie as coisas com cuidado já que está prestes a perder tudo.
“Ou ligar devagar. Sentir a aragem quente do fumo dos carros, e ver o céu castanho e cinzento. Oito dias de ouro a preços imbatíveis, de seis a vinte e quatro de Novembro, ignorar com força de quem fecha os olhos os anúncios.! O seu carro precisa de ser levado à Autoredal, o maior especialista de manuseamento de carros no país, contacte já o professor Mamadu, grande médium espiritual, parte de uma família de grandes feiticeiros com poderes hereditários, trata de todos os seus problemas: sorte ao jogo, ejaculação precoce, impotência, dores de costas, amarra casais, preparação para exames escolares, negócios, depressões, por consulta ou por carta. Loiras com lábios esborratados de batons cheios de glamour, o esquecimento de quem oferece as melhores propostas de sonho, lembrar-se que um dia acreditou que a sua vida iria ser perfeita quando viu uma mulher toda envolta em branco, a sua mulher, percebe? Voltar-se a lembrar com raiva, não se esqueça da raiva e veja os seus braços fininhos, já não tem assim tanta força e não vale a pena, ele deve ser mais forte e mais sofisticado, mais bom na cama. Esqueça: ponha a outra perna dentro do carro que devido à baixa auto-estima não considera bom o suficiente, enquanto vê a interessante visão de um zeppelin a passar. Não era suposto eles não voarem mais? No céu castanho do seu dia, do meu, parece que ainda existem coisas interessantes na vida.
“Diga adeus. Diga adeus como eu disse, aperceba-se do seu fracasso. Contemple a imensidão da tarde e inveje os imbecis. Entre para dentro do carro, como eu, e eu sei – eu simplesmente sei – que as ideias assassinas darão lugar a ideias suicidas. A pistola que pode estar escondida, ou a que pode comprar, por intermédio do seu amigo que tem contactos nessas zonas, começará, na sua cabeça, a servir para rebentar com os miolos, dar um tiro no peito, fazer haraquiri. Diga adeus. Lamente a sua vida por saber que falhou no mais importante, contemple-se cansado, sentado na cama do seu quarto, o pedaço de metal frio nas mãos, a calma ponderação antes da última decisão. O julgar ouvir uma última música que se lembra, dez, quinze, vinte anos antes, quando ser feliz consistia somente em ser-se feliz. Liberte-se do seu pesar – a sua vida nunca mais seria a mesma, de qualquer maneira. Porque só agora começa a perceber o quanto ama as coisas que, julgava até à tarde de hoje, seriam eternas. Uma certeza rápida como um flash acabou com tudo. Premonições que só agora compreende.
“Sinta-se cansado. Enquanto abre a porta do carro e o põe a trabalhar, lembre-se dos tempos em que chegar a casa era a melhor parte do dia. Os miúdos novos, ou quem sabe ainda novo, ela ainda nova, a oferecerem-se um ao outro como presente por uma boa vida a dois. Sentir fagulhas invisíveis nos olhos, à sua frente, desejando ardentemente que sejam lágrimas para poder chorar onde ninguém o veja. Desejar que a viagem de carro de volta seja eterna, ou algo parecido a isso. O motor trabalha. Está demasiado ligado à rotina para fugir. Sinta-se cansado, como eu estou agora. Não por saber que falhei na vida, mas por saber precisamente isso mesmo. Deixei-me cair na armadilha da vida comum quando julgava a minha vida demasiado comum para tal acontecer. Não faz sentido. Parece que trabalho para um proxeneta.
“E por vezes – gostava que ouvisse as melodias como eu as ouço, como eu as sinto,

como quando entro nos bares me sinto parte de um todo tão, tão grande. Tentei libertar-me, como se tenta libertar, mas repare. Está tão cansado. Deseja permanecer uma hora no sinal vermelho que apanhou mal entrou no carro, deixar que a sonolência o invada, a música de embalar pode perfeitamente, ser o motor, a trabalhar, a embalar. Eu sei – já me senti, e sinto-me assim, desejo fugir de mim mesmo, tal como deseja. Sentir a falta dos tempos em que tudo era perfeito, a juventude, os inícios de vida, as últimas aventuras que se tiveram antes de se entrar para a idade adulta – o primeiro mês na primeira casa com a primeira companheira. Eu nunca tive verdadeiramente nenhuma, sabe. Tive-as diferentes, acredite. E o que ouve pode não ser nada – este vício instalou-se já como uma espécie de premonição. Eu percebo-vos, mais do que a mim. Porque foi necessário perceber-vos, para sobreviver-vos.
“Esqueça então as ideias homicidas e as ideias suicidas, e concentre-se agora na única ideia que se forma depois de tudo o que passou nos primeiros sete minutos, querer ser esquecido e esquecer-se para sempre, de tudo, desejar ter Alzheimer para poder voltar a ser criança.
“Esqueça o seu amigo que trabalha ou trabalhou na tropa, esqueça o fácil acesso ao porte de arma, esqueça os filhos, se os tiver. São já crescidos o suficiente para começarem a raciocinar, quem lhes dera poder esquecerem-se de si, também. E daí, talvez comece a pensar que nunca foi verdadeiramente importante para nenhum deles. Mas, por favor, abandone esta ideia por agora. Além disso, quem sabe – talvez esteja a levar uma apitadela por não seguir quando o semáforo ficou verde, lembre-se da sua primeira namorada, como poderia talvez ter sido feliz com ela, quem sabe não terá sido também o seu grande amor. Muito castanha muito banal, bonita antes de ter engordado com o segundo filho. E lembre-se daquela morena que um dia viu passar, morena mas pálida, uma pele clara e pálida, e o cabelo solto em caracóis, a passar pela rua de Coimbra, que nunca mais viu, parecendo-lhe que tinha uma luz interior, e que sonhou com ela ainda durante sete meses seguidos, para depois se tornar, somente, uma lembrança. Pensar no que poderia ter acontecido se –
“ (desculpe eu sei que isto pode parecer um pouco, hm como dizer um pouco impetuoso, mas eu eu vi-a a passar, e gostaria de a conhecer, porque acho que nunca vi ninguém como você em toda a minha vida, por favor, aceite o meu número de telefone, diga-me o seu nome)
“A verdade é que eu nunca tive nada disso. As fantasias e lucubrações sumiram-se quando percebi que não havia lugar no mundo dos sonhos para pessoas como eu, ou melhor, para pessoas que buscavam o que eu buscava – nessa altura, ainda acreditava nisso. Hoje – hoje tive, para perder, mas gostaria de lhe dizer que não vale a pena pensar nisso – porque eu penso nisso muitas vezes e não quer dizer que o possa ter; perceba que não fez o que poderia ter feito, nunca arriscou. A sua vida escoou-se, pensará. Bem. Não lhe direi nada disso, eu também sigo no meu carro, por vezes tenho pena de ser como sou. A culpa persegue-me muito mais do que a si. Garanto-lhe. Houve uma altura – em que eu odiava a maior parte das pessoas, como terá odiado também. Na altura da adolescência, quem sabe, na idade pré adulta, estou quase disposto a acreditar que a sua geração, que a nossa geração, não tenha ainda conhecido a maldade, propiciada pela aceitação fulgurante da liberdade. O que acha? Eu estou disposto a redimir-me, mas não posso. Como não pode também. O passado não se pode mudar. Se desse o tiro na sua mulher que o traiu, e depois em si, ou somente em si ou somente na sua mulher, eu sei, eu simplesmente sei, que não lhe estava a dar um tiro, pelo menos não dentro de si. Repare que estaria a dar, isso sim, o tiro na sua

vida, no seu próprio fracasso, tentaria dinamitar o que tem agora e procurar, de algum modo, começar tudo de novo: é uma jogada desesperada, que nada tem de estúpido, quando se vê as coisas pelo seu prisma. Mas perceba que está velho, mais velho pelo menos. E que o tempo não volta atrás. O tempo – bem, quem me dera que voltasse atrás para mim, não ter gostado das pessoas erradas, não ter feito uma coisa muito estúpida, não ter manchado as minhas mãos para sempre; o tempo não volta atrás, sabe disso, claro. Eu sei. E ainda estou também, a aprender a viver com isso. Preciso de me perdoar, redimir-me, de alguma maneira, mas não posso. Acho que é isso que nos separa, a mim e quem sabe a si. Eu sei o que fiz de mal e sei o que preciso de fazer para me sentir em paz comigo mesmo. Consigo é diferente, consigo – consigo, direi que é mais complicado. Tenta compreender o que fez de mal para perder as oportunidades da vida, e agora, agora sabe que errou, que foi de certa maneira culpa sua, que é também o seu próprio vilão, mas que não fez nada de concreto para tal acontecer. Eu procurei libertar-me. Entre a libertação e estar junto, preferiria obviamente esta última, porque eu sei que, se fizesse, se cometesse ou tentasse cometer a separação, chamar-lhe-ia a última aventura. A derradeira, todo o processo iria agradar-lhe, a
luta, para reerguer de novo a sua vida. É de todo possível que eu tentasse fazer o mesmo também, sabe. Eu… eu acredito que este tipo de escolhas não somos nós que as fazemos. A minha, não foi, tenho a certeza. Foi inexplicável. Incontornável. Agora, eu nunca tive a oportunidade de tentar voltar atrás, pedir para me darem uma nova orientação, para que eu pudesse ter uma vida minimamente normal. Sofri muito, sabe. Penso que acabei, no fim, por fazer a escolha errada. Ou escolhas, sim, as escolhas, ao contrário de si. Teve oportunidade de poder ter sido totalmente feliz, mas eu? Sabe o que é estar neste meio? Não me arrependo do que sou, mas existe tanto ostracismo. Gosto de ser como sou, mas parece-me impossível uma vida completamente normal, sabe. Tenho pena. Tentei sempre ser feliz – e vi tantos morrerem, por dentro ou por fora. Não vou dizer que é impossível não atingir a felicidade assim, não está a perceber. É possível. Mas não acredito, pura e simplesmente, que exista um caminho fácil. Sabe que – bem, a verdade é esta: gostei de uma mulher, uma vez. É verdade, admito-o. Acredite, pode-lhe acontecer o mesmo a si, mas ao contrário, garanto-lhe que é possível. Sabe que gostei mesmo um dia, de uma mulher. Ela fez-me gostar de ser como sou, acredite que já não queria ser eu. Eu… sinto, sabe que sinto a falta dela, sabe. Sinto mesmo muito a falta dela. Foi-se embora, sabe. A vida dela não resultava aqui. Eu não resultava para ela, ou talvez o contrário. Nunca fui um homem especial, percebe? Talvez tenha tido medo, talvez terei feito o que fiz… um dia, por raiva, por raiva de mim, por raiva deles, de todos eles. Perceba que a culpa foi inteiramente minha. Mas perceba que sempre fora difícil para mim descobrir o lado feliz, sem ser sórdido, da realidade. A verdade é que somos sempre diferentes e isso é impossível negar. Ou talvez eu seja apenas um pouco mais triste e frustrado do que os outros, apesar de achar que venci no que me pediram. Mas nunca, ouça, nunca. Nunca me consegui vencer, aceitar-me e gostar do que sou. Nunca. E tenho pena.
“Percebe porque é que eu me sinto assim em relação, a si? Vá lá, em relação a mim? Eu amava-a. E perdi-a. E voltei a ter raiva de tudo. Olhe, esqueça, tente compreender o que lhe digo. Tente… tente perceber. Eu falo e não me ouve, ou talvez fale para mim mesmo na esperança que ouça. Perceba o que lhe digo, enquanto agora o trânsito já desapareceu e o carro já faz suavemente os quilómetros. Perceba. Perceba que, sim senhor, tudo bem, falha na vida, e não existe redenção possível. Que um dia, ao sair do trabalho, a ver o céu estranhamente castanho, e os prédios mais obsidianos, percebe que falhou. Falhou na vida,

não gosta minimamente do seu trabalho; que a sua mulher diverte-se bem mais do que se diverte, e que as probabilidades de ter um, ou mais, amantes, nem lhe chamará isso talvez, sejam mais do que muitas. Perceba que não tem músculos para desfazer a cara a alguém, a pistola para rebentar quem quer que seja, a imaginação para suicidar-se em grande estilo. Que as suas cores do seu fato são mortiças. Que o seu ou seus filhos, pura e simplesmente, não são lá muito inteligentes e que o que fazem, apenas, é exigir, é exigir, é exigir e sair à noite, nada mais. E que os seus amigos nem lhe ligam muito, sempre foi o caso contrário. Perceba, então, que falhou porque foi um imbecil. Perceba que existiu mérito naquilo que ganhou. Perceba que está a ter uma ideia pessimista da vida, um dia comeu aquela loira durante dois meses até acabar tudo e voltar à sua vida de casado. Perceba que é uma estatística. Como eu. Perceba que a sua vida é boa. Apesar de sentir, hoje – esta tarde – que falhou na vida, que está velho, que tudo lhe passou pelos olhos (vinte e sete anos, meu Deus) como um borrão de tonalidades amarelas.
“Eu – é diferente. Percebe? Eu nunca escolhi a vida que teria, mais ao menos, de fazer. E que talvez, quem sabe sei lá, a vida dá tantas voltas, me lixe a sério nos próximos anos. Porque eu tenho a minha cruz, sei lá chame-lhe o que quiser, e tenho de aguentar a minha vida assim, vive-la. Saber que nunca será normal como a dos outros – como a sua, tão banal e que poderia ter sido feliz na sua banalidade.
“Perceba isso. Perceba que estou a tentar expiar a minha culpa, falando consigo. Que o invejo. Que invejo a sua capacidade de libertação. Que não me está a ouvir e que não exista de facto. Perceba que me tento…
“ Manter são.
- Cheguei ao bar cedo demais.