quarta-feira, janeiro 19, 2005

gente urbana, parte I

Não nos conhecemos mas podemos ser amigos. Estás disponível para um abraço e eu sinto-me perdido. Não sei para onde vamos mas passaremos os dias juntos, se possível. Tenho ouvido os lobos a uivar, certamente morreu alguém esta noite e tenho medo da solidão. Escrevi num papel: está tudo bem. Desconheço a veracidade da frase mas temo pela minha sanidade. Sinto-me demente. Incapaz de me levantar. Estava sentado ao balcão a beber mais um copo de whisky, duplo, quando tu apareceste vinda de lado nenhum. È noite de karaoke neste bar de pouca luz e estou cansado de ouvir o gordo a cantar desafinado. Talvez tenha saído há pouco tempo o hospital e esteja cansado dos lençóis brancos, da cama desconfortável e da comida insípida que lhe davam, mas isso não é desculpa para me causar dores de cabeça. Queria falar com alguém que, fosse quem fosse, que não estivesse a rir, que me fizesse companhia esta noite. Entraste com os cabelos negros a esconderem-te o rosto, com um andar deselegante, quase que desnorteado, e percebi desde logo que, esta noite, só tu me poderias compreender. Sentaste-te a meu lado, não sei ao certo se por opção ou fruto do acaso, mas não importa. Importa apenas que o fizeste. Sabes, não tenho nada de interessante para te contar sobre mim, há uns dias atrás ia sendo atropelado numa das minhas caminhadas de sonambulismo, pouco mais. Só soube quando acordei numa rua qualquer que me era estranha e um velhote que me seguira, preocupado com a ocorrência, veio ter comigo dizendo que se quisera certificar de que nada de mal me acontecia. Contou-me depois tudo o que me vira fazer. Tomámos café num local ali próximo e ele lá foi à sua vida. Mas diz-me, que é que te trouxe até aqui, a este bar. Talvez tenhas andado, como eu, a pensar no que fazer com a vida. É normal, gente como nós faz isso demasiadas vezes. Olha, queres ir dar uma volta? Hmmm…pois, parece que não. Talvez estejas entediada, se sim, peço desculpa, não é por mal mas costumo ter esse efeito nas pessoas. Acho que só a minha mãe conseguia encontrar alguma paciência para mim, é normal, eu e ela sempre tivemos muito em comum. O meu pai deixou-a quando soube que estava grávida. Ia em viagem de negócios por uns dias, tinha uma qualquer reunião muito importante no outro lado do oceano. Devem ter passado perto de trinta anos, não sei ao certo, mas a reunião ainda não deve ter acabado. É assim, o meu velhote… Mas sabes, gosto de ver o pôr-do-sol, não por uma qualquer ideia arcaica de beleza, apenas gosto de ver o dia lentamente a desintegrar-se. E ele desintegra-se sempre, nunca falha – é sempre bom saber que há coisas que nunca mudam. Não tenho lá muito dinheiro, mas gostava de te pagar a bebida. Que é que tinhas pedido? Deixa estar, não precisas de responder, eu pergunto ao empregado. Ah, sabem bem estes momentos, ter alguém que nos ouça e fale connosco. E mesmo que essa pessoa não seja muito faladora como parece ser o teu caso, mas já é bom ter alguém que nos ouça, mesmo que de um surdo se trate, afinal de contas, também é gente, não é? Sabes, acho que seremos bons amigos. Temos tanto por fazer, dar as mãos, entrar num autocarro para destino incerto, contar piadas ou apenas histórias divertidas. Sabes, odeio muitas coisas na minha vida, mas estou a gostar bastante da nossa conversa. Mas falando em histórias divertidas, no outro dia folheava um jornal e deparei-me com uma bastante interessante. Era a de um tipo a quem a mulher o levara a tribunal por ser impotente, ah mas isso não era tudo, a amante dele também o levara a tribunal mas por querer que ele reconhecesse e assumisse as responsabilidades pelo filho deles. Ora o homem lá terá achado que sairia vencedor de pelo menos uma das acusações. O filho da amante era a prova de que não era impotente; a impotência alegada pela mulher dizia sem margem para dúvidas que o filho não poderia ser seu. O que aconteceu é que, julgado por tribunais diferentes, perdeu as duas causas. Engraçado, não? As coisas que a vida nos conta, sempre tão cheias de ironia. È a ironia o que move o mundo, já dizia o outro. Bem…mas falando de coisas mais sérias. Reparei que trazias na mão dois bilhetes de embarque num voo. Digo-te o mesmo que vi um gajo dizer num filme a uma rapariga. Contigo, vou para onde tu quiseres. Provavelmente não tens com quem ir, pelo menos já não, é o que me diz o teu silêncio. E se chegaste a ter, foi só desilusão. E eu tenho um conhecimento vasto no que a ilusões diz respeito. Eu próprio sou uma. Mas a verdade é que… (pausa) vejo que te estás a levantar. Já vais de partida, não é? Pois bem, talvez tenha chegado a hora por que esperavas pacientemente. Só por curiosidade, o teu nome é…(pausa) não me vais responder, pois não? Ok, deixa estar, então. Bem, nesse caso, Boa viagem. A gente vê-se por aí. Também tenho que ir à minha vida. Coisas por fazer. Ando ocupado, muito ocupado, a sério que ando…muito ocupado, mesmo. Bem, é aqui que os nossos caminhos se separam, e não te preocupes, eu pago a tua conta. Até um dia.
Ou até sempre, se for esse o caso.



(Pedro)