sábado, janeiro 08, 2005

Forget Her.

Às vezes sento-me aqui antes de escrever nada em concreto, neste blog, quando me lembro que ele não tem piada.
Não tem.
Nem uma única piada (a não ser um post do meu amigo Pedro sobre um puto rapper revoltado), e não creio que isso seja algo mau, simplesmente não reflecte tudo o que nós os dois escrevemos, tudo o que nós os dois somos, enquanto… não quero usar o termo escritores.
Mas sento-me aqui, ligo as colunas, abro as minhas músicas… e não consigo.
Neste momento ouço Jeff Buckley, um artista, um cantor, acima de tudo um grande compositor, que nós os dois e alguns leitores deste blog conhecem, que conheceu a morte tragicamente novo demais, o seu novo álbum não estava ainda completamente acabado. O seu segundo. Álbum. Neste momento ouço a sua voz, num verbo que os ingleses sumarizam na perfeição, in its haunting, chilly voice. Ou dois verbos. Referia-me, obviamente, ao verbo to haunt. A sua voz persegue-nos, torna-nos seus, dele, da sua figura, um jovem com o cabelo desalinhado e cadência ligeiramente aguda e baixa, que um dia, infelizmente, decidiu ir tomar banho num rasgo de vontade quase irracional, sendo só depois descoberto, o seu corpo, nas cidade onde os blues nasceram. A sua mãe enterrou um marido e um filho. A história da música ainda não conseguiu enterrar o seu génio.
Nem o deve. Conheci Jeff Buckley através justamente do Pedro, estávamos os dois penso no décimo primeiro ano, acabávamos de o iniciar. Ele tinha descoberto Jeff Buckley por outro amigo dele, e como é óbvio, Jeff, que nos encanta, encantou-o também, e como não poderia deixar de ser, quis ter o prazer de passar o legado a todas as pessoas que pudesse, ou pelo menos (porque a música boa, custa por vezes tanto a ser partilhada com pessoas que julgamos “imerecidas” dela – como se tal fosse possível), às quais soubesse que o iriam reverenciar como um dos grandes talentos, perdidos demasiado cedo, para a música. Assim eu tive o meu primeiro contacto com o seu disco póstumo, my sweetheart the drunk, que iria ser acabado, completado e remasterizado pela banda – que quando saia do avião para se dirigir à casa onde ele estava, sozinho, a compor num rasgo de freneticismo que deixou anotado nos seus cadernos, não sabia que nesse preciso momento mergulhadores entravam nas profundezas do rio cujo o nome (que interessa? O que importa é que o real tornou-se lenda e para sempre restarão músicas dele e histórias dele para descobrir, contar e cantar) não me recordo, na tentativa vã de recuperarem o seu corpo. Rendi-me a Buckley, filho pródigo do seu pai também cantor, e só descobri grace, na verdade a sua real (e porque mais não fez) obra-prima, meio ano ou assim, depois. Ouvi-o e esgotei-o e amei-o por tudo o que ele era e cantava e me fez escrever, sentir, sonhar, sofrer. Porque, como dizia, sad songs are love songs.
E depois esqueci-o.
Não sei explicar muito bem… esta música chama-se forget her, das grace sessions, mas posso muito bem dizer that I have forget him. Or forgot him. I forgot him, not being able to explain how or why, but the truth is I almost completely stopped listening to his music, and thus… I simply forgot him.
Ou julgava.
Este Natal saiu uma nova caixa com eps do seu primeiro álbum, versões ao vivo, raridades, nada que não conhecêssemos já, em bootlegs ou ficheiros piratas (piratas…? Não deveria a sua música ser partilhada por todos quantos o querem ouvir, o legado de um morto…?) na Internet, mas existia uma música, que eu pelo menos não tinha ouvido, atingiu-me com a força de um murro, fez-me no dia a seguir, um sábado frio, ouvir Grace de novo como se fosse a primeira vez, enquanto caminhava pelas ruas de Benfica e me amaldiçoava pelo que tinha perdido, nesse ano. Um ano sem ouvir Jeff Bukcley, quase. Como foi possível…? Procurei a resposta encontrando-a em cds novos que comprei, sentimentos novos que presenciei e que precisava de expurgar com novas músicas, não interessa talvez também saber o absoluto porquê. Ouvi Grace como se fosse a primeira vez, e senti como se fosse um absoluto milagre, embora ninguém no comboio ou na rua o conseguisse perceber – a chance tinha-me sido dada de, miraculosamente, repito, conhecer esse grande, grande génio breve uma vez mais. Senti-me fazer amor com a sua música, pensei nela, lembrei-me de tudo o que era quando o ouvi pela primeira vez – e a dúvida se me colocou, estaria preparado… para sentir tanto. A música que ouvira no dia anterior nunca a tinha ouvido, ouço-a agora, é bela demais, forget her, a questão coloca-se, porque tinhas de morrer…? Preferia que tivesses entrado em decadência musical, dizer que dos teus três ou quatro álbuns só gostava mesmo era de dois, qualquer coisa, desde que não morresses, desde que me continuasses a brindar, para sempre, com músicas assim. Com o teu sofrimento assim, com a tua voz assim, bela e única, sofredora e envolvente, reinventando o amor nos seus agudos, na sua realidade de cometa fugaz demais, frio demais, meu Deus – e partiste, deixando-nos para sempre a imaginar o silêncio que, um dia, poderias ter feito.
Hoje ouço Jeff Buckley quase todos os dias, as músicas que saco da net, raridades, versões ao vivo, demos, qualquer coisa – porque compreendi que apenas Jeff me faz sentir, à sua maneira especial, uma coisa.
Que sou humano, homem, e ainda assim (espanto dos espantos), sinto, ainda assim amo, ainda assim sofro, porque…
Porque um dia me rendi à sua música. Só por isso afinal.
(Don’t) Forget Him.

1 Comments:

At 9 de janeiro de 2005 às 13:26, Blogger Nuno said...

Genial! Único! Keep up the good work. []

 

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