Piso quatro, sala dois, cama doze.
A tarde foi estranha, como que num sonho. Voltei de táxi. Encontro-me aqui, sem saber o que escrever, ou como fazê-lo. Quem diria… - que eu seria assim, tão insensível.
Obviamente que ouço música. Não é necessário escrever. Eu não sei que músicas… eu.
O hospital Pulido Valente é estranho, uma pequena aldeia de doentes. Tem portões de ar, delimitados por muros de tijolos, e muralhas de betão, que me obrigaram a dar a volta toda quando saí de lá, pela única entrada. Têm até, em resquícios de cheiros de velhos e pastilhas de sabor a cheiro de consultório, uma carrinha com protecções como nas montanhas russas e um pneu debaixo do banco do acompanhante, para transportar os doentes ou as visitas, para as diferentes zonas. Na unidade de pneumologia, piso quatro, sala dois cama doze, o meu futuro reorganizava-se em frente a meus olhos, e dava infelizmente mais um passo a tudo o que haveria de tornar-me adulto. Tenham dó. Sou só sensível.
A morte que me rodeia já não me assusta, e então, quando vi as velhas com a lucidez dos preparados para a última viagem muito sorridentes e a chamarem-nos de bebé, que quando de lá saíssem nos iriam fazer uma visita, não estranhei nada. O ar coado talvez faça isso às pessoas, o pó de milhões de comprimidos diferentes impregna-se no ar, bem como o cheiro a desespero, medo e morte, e talvez criem, ou ajudem a criar, essa atmosfera irreal, esse mundo à parte, tão ilúcido para uns que as linguagens e os gestos que se criam sejam justificados pela sua própria fome de partirem e nunca mais voltarem, saberem-se vulneráveis, humanos, tremendamente breves. O piso quatro da unidade de pneumologia tem mulheres a entrar na velhice a espremer gordura, esforçando-se por caberem nas cadeiras e com cateteres nos narizes, e mais velhas amarradas a postes de soro que levam com elas para todo o lado, devagarinho, sempre muito devagar. E velhos, que percorrem os corredores à espera de encontrar algum médico que os ajude a ir à casa de banho. As velhas fazem-no ali mesmo, nas camas, em penicos de aço inoxidável, e pediram-me tantas vezes para sair, esperar junto aos corredores estreitos onde haviam janelas, que só pessoas de mais de um metro e noventa poderiam usufruir. Eu só via prédios ao longe, num desenho de cidade que não conhecia. Senti-me longe, longe de tudo, um caso à parte; meia hora atrás, eu sai da minha universidade e, despindo-me, começava a correr. Deixei que as costas escorressem suor, deixei impregnar-me por todo o fusível queimado de força que a cidade me proporcionava, que os autocarros me desesperavam, que as pessoas me não sabiam. Corri até chegar ao meu destino, perguntei-me o que era tarde, o que era o tempo, se teria vindo demasiado cedo, impossível se demasiado tarde, ou se nunca, nunca, fosse possível chegar tarde. Ou cedo. O Sol molestava-me, e eu sabia que quando chegasse nunca saberia o que fazer. Poderia era fingir que sabia.
No hospital Pulido Valente os médicos estão acostumados a todos os worst case scenarios que podem existir, as ambulâncias vêm de todo o lado. Pontinha, Beja, Carnaxide. O guarda fez um turno de pelo menos oito horas, pois estava lá quando eu lá fui as onze, e ainda estava lá quando me fui embora, quase eram seis e meia e ninguém talvez me diria que o dia se poria em noite tão rápido no seu processo de desistir lento.
Em suma, e só como aprender a não respirar mais, deixar a infecção dos brônquios, em conjunto com arritmias cardíacas e taquicardias, subjugar os pulmões, fazer talvez chorar um pouco, deitar-se para o lado e simplesmente adormecer. Se a Lua não ajudar muito na condição do enfermo, paciência. O Sol amanhã ressuscitará para aprender a morrer por falta de oxigénio de novo. Até lá, nós que tão indiferentes, vamos continuando a existir.
Quatro possibilidades descabidas para a minha própria escrita.
Eu não sei em que pessoa me tornaria se agora perdesse tudo. Penso que não estaria interessado, familiares bafientos de alguma preocupação forçada não me seduzem.
Vamos sentindo falta de todos os que já partiram, e enquanto aprendemos a tornar os dias lentos e a respiração um pouco mais rápida, é necessário adormecer, as sensações.
Mesmo nesse estado e ainda estavas tão bonita.
Não consigo escrever sobre isto.
Não consigo escrever como te vi, a dormir, a fazeres um esforço intenso para respirar, outrora ligada a máquinas; não consigo descrever com pormenor como subi as escadas piso a piso, percorri os corredores estreitos, perguntei às médicas onde estavas. Não consigo, não consigo escrever sobre isto, como te vi, os olhos aguados, tão bonita ainda, com a mão e o nariz entubados. Não consigo escrever sobre como morbidamente me apeteceu tirar fotografias a cada plano de visão, para te ver; ou quando viravas-te para o lado, imediatamente depois de teres estado a falar comigo, segurando ainda a minha mão, e adormecias logo. Não consigo. Não consigo perspectivar tudo isso, deixar-te para passares a noite num hospital que não é o teu, num cenário decadente, não consigo compreender ou escrever a forma como choraste de desespero e em que só dizias, Eu não quero ficar aqui, eu não quero ficar aqui. Rodeada de velhas, cheiro a mijo, entubada, a soro, e com uma televisão alta demais, a transmitir os programas felizes da tarde para pessoas como tu que estão presas numa cama de ferro.
Não consigo estar aqui, não consigo. Não consigo escrever bem o suficiente para explanar o que vi, o que senti e a forma como cheirei toda aquela atmosfera irreal preparada para mim; não consigo perceber como é que me esgotas, quando eu chego a casa e apetece-me voltar para.
Trás.
Não consigo respirar. Como tu.
E sinto a tua falta, sozinha, numa cama de hospital gigante e povoado por fantasmas sólidos, barulhentos, com luz natural escondida por cortinas amarelas.
Mas quis tentar.

4 Comments:
Quem não consegue escrever sou eu. Não posso dizer que sei como é que te sentes neste momento, mas posso tentar imaginar. Sei que devia deixar palavras de conforto, dizer que tudo irá correr pelo melhor, e muito sinceramente espero bem que sim, mas neste momento só te posso dizer que ao contrário de "familiares bafientos de alguma preocupação forçada" eu, como tantos outros, estou aqui. Como tu um dia me deixaste bem claro: "Se precisares de alguma coisa não hesites"! Agora faço das tuas palavras minhas! Boa sorte e .....tudo há-de correr bem! de certeza!
Ricardo Martins
has-de acabar por engolir tanto ar quando tudo isto passar...vai tudo correr bem.
as melhoras prá cris.
tens-me aqui se precisares.
um abraço
fatito
é lindo, rapaz. que texto tão sentido, tão magoado. toda a violenta atmosfera dos hospitais ganha aqui vida própria. tudo o que dizes é descrito de tal forma que a vontade seria fazer das tuas sensações um simples filme. muito bonito. e parece-me ser tudo tao honesto, quando falas na vontade mórbida de fotografar o momento, no ambiente anestesiante do espaço em si, na dificuldade em respirar, em tudo. o voltar para trás a terminar é o mote que define a ciscunstância. quando se sabe como sentir os momentos, acontecem coisas assim.
Pedro.
ensina-me a comentar isto. está perfeito. tu é que és o deus. dá para viver quando se lê.
Enviar um comentário
<< Home