O inicio do fim
Apenas algumas horas passaram desde a nossa última conversa e não consigo deixar de sentir que te vou perder. A saudade caminha de mão dada com a solidão e só agora que penso em ti me apercebo da brutalidade que me cega e já não vejo, perante a sequência de imagens doces e violentas que se entrelaçam, confundindo-se. E sei, meu amor, e sei que só assim me posso sentir. Inocentemente, trouxeste-me de volta a tristeza que julgava perdida e esta é agora maior do que alguma vez poderia ser. E peço-te uma simples razão que justifique o acaba de morrer em mim. Mas temo que os sorrisos que pereceram o tenham feito em vão. E anseio por levar a cabo a mais fantástica ideia que me poderia trazer de volta o mais simples dos gestos. E no meu íntimo sei que vou falhar, que não sou capaz de revisitar o teu mais suave toque. E é-me indiferente o eu pensas agora fazer porque sei que o farás longe de mim. E minto. Porque sei que isso é de facto a minha única preocupação, mas talvez seja o momento de mostrar a coragem que não se tem e dizer, Eu aguento, mesmo sendo esbofeteado pela distância, eu acho que aguento. Acho. E sinto-me agora só enquanto escrevo sob uma fraca luz e fumo o cigarro – espalhando cinzas pelo papel que nestes instantes se torna o meu corpo – que me levará até à eternidade. É este o momento, sei bem. Talvez também te sintas só neste instante mas certamente farás um esforço um pouco maior do que o meu para não o admitir. E não, não te vou dizer qual de nós está mais correcto, não teria a humildade necessária para dizer que és tu e muito menos a arrogância para dizer que sou eu. E interrompo o leve suspiro. Vou manter-me assim: caminhando errante condenado a sentir. E sei, sei o que acaba de acontecer. Dizes-me que é o fim e talvez tenhas razão. Também estou cansado, sabes, não de ti, mas de me sentir triste. É o fim. Acabou. Mas será que tudo tem, de verdade, um fim? Observo a sombra que se prolonga pelas paredes e apercebo-me de tudo por um último instante. Tenho vontade de deixar tudo. O amor de todos os tempos. Foi esse amor que me fez sentir criança e não vou chorar por isto. A última lágrima que me lembro de verter foi por ti, há uns anos atrás. Nada faria prever o que se haveria de seguir. Mas pergunto-me. Quando será que te voltarei a beijar. Será que algum dia voltarei a sentir a tua suave pele? Quando foi que tudo isto deixou de fazer sentido para ti? E penso. Estás a fazê-lo de novo e não consigo perceber porquê. Não sei do que estás a fugir e muito menos o que te leva a tal. Eu. Não compreendo. E magoa-me demasiado pensar que tem de ser assim. Não é justo, garota, e só queria que soubesses o quanto me dói imaginar-te assim. Longe e perdida. Passa-se algo contigo. Sei isso. E vejo que fazes com que tudo pareça mais difícil. Será este o tempo devido para assassinar o que tão docemente se construiu? Ao que parece. Sim. Só te peço que não me afastes assim, embora acredite que seja esse o teu desejo. Não merecemos que tudo o que aprendemos a ser nas nossas horas de companhia se desmorone assim. Sabes, só te queria ter aqui comigo. Por favor, fala comigo. O teu silêncio é…
Talvez tenha sido a nossa ousadia o que nos fez esquecer que nem sempre é possível. E talvez tenhamos vencido por momentos o impossível. E podia ser este o momento em que tudo mudava e finalmente nos seria concedida a oportunidade que tão bem saberíamos aproveitar. E acho que também o sentiste, não é verdade? O mesmo carinho que provou ser capaz de vencer o vazio. E às vezes penso que o mundo terá mais para dar. E às vezes penso que sim, que um dia tudo será mais simples. E não consigo entender, perdoa-me mas não consigo. Queria ligar-te, saber que desse lado me ouvirias. Mas provavelmente não há nada que me permitas dizer e talvez seja por isso que me sinto tão fraco. E só queria saber se choraste no dia em que me fizeste partir. Um dia, contarei às pessoas quem fomos. Até lá quero manter certas memórias só minhas e esperar que um outro dia façam sentido serem sonhadas. Porque esta noite dói-me o coração de imaginar sonhos desfeitos. Os dias passarão e pergunto-me o que farás tu com as minhas cartas, com as nossas fotografias, os nossos passos a dois, os mais sinceros sorrisos que soltámos, os ternos e eternos abraços. E temo só de pensar que não quererás ter coragem para os relembrar comigo. Beija-me uma última vez. Apenas para podermos dizer que um dia tudo aconteceu pela primeira vez naquele fim de tarde já escuro naquele lugar que àquela hora parecia abandonado por todos e que só tinha luz à nossa volta.
Que foi que nos faltou para tudo ser perfeito?
Diz-me se um dia voltaremos a tentar.
Diz-me se um dia voltaremos a sorrir.
E se o plano já não era maior do que isso, talvez seja, então, altura para perguntar se ainda se sente o mesmo, se ainda há uma possibilidade. E talvez tenha sido assim por exigência do destino. Tinhas de partir e levar contigo tudo o que fomos um dia. E tirei tudo de ti, até a mais pequena circunstância -, e para quê? Talvez para poder saber. Talvez, meu amor, talvez. E disseste que tinha sido tão bom. E disseste que tinha sido tudo tão bonito. E não podemos fingir, tentar esconder o inevitável. Juntos ensinámos um ao outro algumas das coisas que a vida tem de positivo. E sabemos bem que não são muitas.
Se passares por mim na rua fingiremos distracção? Falarás comigo como se só soubéssemos ser vulgares? Eu.
Não sei.
Pediste-me para partir – e pergunto-me se terá de ser sempre assim.
Mas despeço-me, então. O que quer que o futuro nos reserve chegará um dia, quem sabe, quando menos esperarmos. Mas digo adeus. Porque só isso me pediste para fazer.
Talvez um dia nos voltemos a ver.
E a sentir.
Pedro.
(Este será o meu último post no nariz empinado. Faltam poucos dias para o encerramento deste blog. Acho, por bem, que este percurso a dois termine como começou. João, o último texto será teu. Este blog será como um albúm de recordações, feito apenas por palavras. Obrigado, caros (perdoem-me a formalidade do termo) leitores – assíduos ou esporádicos – por nos terem acompanhado ao longo deste ciclo que agora termina. Esperamos ver-vos em breve num outro local. Nada morre verdadeiramente – vejamos se é esse o caso.
Obrigado por tudo.
Até breve.)
O inicio do fim.

1 Comments:
Olá Pedro.
Achei o teu poema... lindo, as tuas palavras levaram-me para recordações remotas, todos nós já tivemos uma história de partida, de Adeus indesejado e por isso gostei tanto do que escreveste. Mas, depois fiquei triste, por ler que tu e o João iam abandonar este espaço. Se me permites, gostava de pedir que não o fizessem, não me privem de ler o que escrevem. Tornou-se um hábito muito bom, partilhar, através das vossas palavras, bons momentos passados em frente ao computador.
Se decidirem mesmo fechar por aqui a vossa escrita, gostava de pedir, para ser avisada quando criassem outro espaço... vão dando notícias.
Beijinhos, tudo de bom para ti.
Vânia
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