segunda-feira, janeiro 24, 2005

Só.

Escrevo-te, aqui, nos limites quase bonitos, muito frios, do meu próprio…sono. Sei que já passou muito tempo, as músicas não têm ajudado. Ficaste com quase todas elas… tudo aquilo que me lembrava de ti, porque o achava belo, te dei, e assim tenho ficado neste limbo marginal, entanto os dias um por um. É o fim do dia, quase as seis, mas ainda te vejo entrar no messenger, enquanto decido não falar contigo só desta vez, violando a tua promessa de hoje não teres ido trabalhar, porque doente ainda – gostava de suspirar e dizer, É assim o meu amor, sempre demasiado dedicada a tudo em que se mete. Mas não posso, porque não está aqui ninguém. Então digo-o para mim mesmo. Perdi o jeito para escrever cartas de amor, e acho que perdi o jeito para escrever. Este exercício, esta vontade de nunca me querer perder, para onde foi…? Acompanhou o meu desespero estúpido, quando te via ires-te embora, perguntava sempre a mim mesmo, o que era isto. O que era isto que sentia por ti.
Vais-me desculpar, sabes. Estas coisas são bonitas mas não serei eu decerto que as farei assim. Sou cru, sou triste demais para isso. Sou algo menos, agora. Perdi-me um destes dias quando olhei com tristeza para o dossier onde guardo todas as obras de arte que crio que cabem dentro de um papel, e perguntei-me, Até agora, quantos poemas a mais o curso de Direito me roubou. Não quis mais saber. E se tu és praticamente o centro da minha vida (é engraçado como tudo se desmorona sem ninguém reparar, as grandes amizades, o fulgor inicial de um novo universo, as expectativas brilhantes), então talvez só fará sentido escrever para ti. Por ti e para mim, na esperança vã, quase engraçada…? De me encontrar. Quero dizer-te que te amo sem artifícios. Dizê-lo sem lágrimas, sem qualquer estilo, só com uma voz cinzenta que deveria ter a mesma força como quando digo o teu nome, e ele reverbera. Ouve. Só quero reencontrar-me, e perceberes que tenho dentro de mim, que embargo em mim, um tristeza tão grande – maior que os dias. Sou uma pessoa triste, um solitário, sinto-me só. E se sempre cultivei a imagem oposta, que interessa isso. E tenho medo por isso, porque sei que um dia vou mostrar-me, porque a tristeza é tão bela, meu amor – sabe tão bem partilhá-la com alguém para poder matá-la momentaneamente. Tu sabes quando eu tenho aquelas quebras, não sabes… quando estás a falar e eu ponho “aquele olhar”, olho para ti em silêncio ouvindo tudo o que disseste e mesmo quando acabas eu não consigo falar, quero tornar o momento eterno, percebes; e não olha para ti em estupor de admiração muda – não é isso. É uma tristeza, uma tristeza bonita porque sei que te vou perder, um dia, que me assola e me destrói naquele momento. Sou assim. Vou perder-te um dia, nunca mais vais sorrir ou rir para mim da mesma maneira, os momentos que criámos nunca mais poderão ser nossos, e vou ter de te esquecer, para te criar noutra pessoa que rezarei para que seja o oposto total de ti. Eu amo-te. E se não serve, eu digo-te, que estou, aprendi, percebi, que estou apaixonado por ti. Que saxofone é este? Mas o silêncio interpõe-se como uma muralha.
Quando fico em silêncio penso mais do que isso. Vejo-te toda, observo a minha vida fora de mim, como se fosse outro – o meu filho, doutor. Apetece-me qualquer coisa que aos homens não deveria ser permitido. Então suspiro. A vida dos imbecis sentimentais é assim, nunca ninguém sabe muito bem o que pensam, nunca sabem muito bem como é que tanto sentimento pode caber nas suas cabeças desmioladas. Já não tenho raiva, amor. Só pena. Quando agonizavas no hospital há uns dias atrás, corpo suado, a febre alta, a dormires – perguntei-me de novo quem, porquê, quem era eu. A minha vida é isto? Para o que vivo? Estas perguntas, oh, a juventude. Já todos as terão tido, não. Já todos foram mais humanos do que eu, não. Fodam-se. Esta música que sinto agora nunca poderá ser igual para mais ninguém, nem como eu poderei um dia explicar a cem por cento o que sou, e porquê, mesmo que nunca ninguém mo tenha pedido – era por isso que escrevia, por isso e para me tentar encontrar, e quando me apercebi que já não valia a pena – que rumo tomar. Porquê amar-te ainda.
Passou-se o quê, mais de uma semana. Mais de uma semana. Não tenho andado bem – tenho andado essencialmente como quando era mais novo, com o factor acrescido de já saber o que é a felicidade mínima, de como ela nos pode trocar as voltas. E sinto-me horrivelmente só. Só comigo mesmo, e vejo as pessoas a aprenderem a despedir-se de mim. O resto que encontro ainda são só sombras. Não tenho jeito para isto – nunca tive jeito. Sempre soube despedir-me bem de pessoas, de sentimentos, de emoções, sempre foi… uma questão de protocolo. Agora, nunca pensei ter jeito para isso. Era só dizer-te aquilo que sou, o que sou e porque fui o que sou agora, e era perder-te de forma tão bela que até doeria. E saberia que talvez nunca mais escrevesse nada durante pelo menos um mês, numa confusão de dores de coração, negras, negras – tu deves saber. Como as tuas.
Mas sem expressão física.




Adeus, leitores do blog. Não sei quando voltarei.

4 Comments:

At 24 de janeiro de 2005 às 20:47, Anonymous Anónimo said...

Espero que voltes em breve. Terei saudades de sentir a violência dos teus textos.

 
At 24 de janeiro de 2005 às 20:55, Blogger Navalha said...

é de todo insuspirável a beleza que nos magoa. confesso que certas palavras tuas, certos textos, certos momentos, me magoam sem crueldade. e agradeço-te por isso. agradeço-te porque pouca coisa me importa o suficiente para me atingir. agradeço-te porque sei qual é a inocência que te leva a tal. e sim, poderia dizer-te bem mais, mas respiro fundo e ganho coragem para permitir que sejam os dias a decidir isso por mim. e eles decidirão. e a mim não me interessa o que farei com isso. não me interessa se faço o que quer que seja. é de um mundo novo que se trata, é verdade. e se ele vier, estupidamente honesto, então não há nada que se possa evitar. quero as tuas palavras, não por inveja ou vontade de as usurpar. quero-as porque existem. e abemos bem que são muito poucas as coisas que efectivamente...existem. mais do que isso, estou disposto a abdicar de algo. espero que não esqueças a boa amiga que é a solidão, certamente que nãio o farás, mas também espero que nem sempre te faças acompnhar por ela.
e para terminar,gostaria de me despidir com uma saudação de velhote. por nenhuma razão em especial, acho apenas que sempre achei que seria engraçado terminar um texto assim

um bem-haja.

seja lá o que isso for.

Pedro

 
At 25 de janeiro de 2005 às 21:04, Blogger papiro said...

Aprendi a passar por este blog de todas as vezes que abro a Internet, só para ver se mais palavras existiam e agora fiquei triste por ler que talvez aqui não voltes... podias ao menos dizer que algures vais continuar a escrever, apesar de não me satisfazer completamente, uma vez que ia perder as tuas palavras, mas satisfazia-me o facto de saber que não tinhas deixado de produzir. Não desperdices o dom que tens de conseguir fazer os outros sorrir, mesmo quando as tuas palavras são tristes e cruéis; a mim, as tuas palavras sempre me fizeram sorrir, porque as considero efectivamente muito, muito boas.
Espero que este espaço não morra aqui e que regresses novamente, com o mesmo brilho, às tuas letras... uma vez que elas jamais te vão abandonar, só elas são totalmente tuas... o resto pode ser levado pelo vento, mas a capacidade de encontrar em palavras o som perfeito para o que estás a sentir, que é o que fazes, isso só tu podes ser capaz.
Volta depressa... os leitores assíduos, como eu, esperam ansiosamente pelas tuas palavras.

Mas, se decidires não regressar, desejo-te tudo de bom a todos os níveis.

Muitos beijinhos!

Vânia

 
At 6 de fevereiro de 2005 às 14:12, Anonymous Anónimo said...

Vou fazer um comentário tipo "comentário à João":
JÁ POSSO COMENTAR?

sapa

 

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