terça-feira, junho 29, 2004

data

As férias do Verão começaram, e parece-me tanto que se arrastam como uma melodia de um carrossel a ser tocada, muito lentamente, muito dementemente, ao contrário. As férias chegaram, estão aqui. Agora é matar um tempo com o que nada nos possa sequer parecer minimamente interessante.
Pergunto-me. Tudo se resumirá a isto? Passar tarde após tarde com. Esperem. Vou começar de novo.
Dia três de Julho é um dia especial. Ou, pelo menos, devia ser mas. Mas é-o, pelo menos para mim. Devastado por tudo o que esse dia possa ter trazido para mim, faz hoje um ano, um ano certo, inteiro, compacto, que aprendi a dar valor a um simples dia de uma simples data do que tudo se resumiu a um simples momento. É possível reger a vida das pessoas através de um momento, de um nascimento, de uma guerra, de uma morte, de um encontro. A Bíblia já o fez, com o nascimento do seu grande primogénito, a primeira pop star a nível internacional; e eu agora, faço-o, tanto para manter a minha sanidade como para explicar o porquê do meu comportamento durante todo este inteiro ano, como se um só dia o pudesse explicar. Os motivos são, como se sabem, todos eles pessoais. Os efeitos somos nós.
O dia três de Julho deverá, penso, ter sido um dia normal para muitas pessoas, pelo menos para a sua esmagadora maioria. Bem para mim…foi um singular dia, em que de dia teria todo o significado importante desse mesmo um dia. Foi uma quarta, uma quinta ou uma sexta? Ou terá sido uma terça…não sei, é irrelevante, só a memória me pode ajudar porque o rolo inteiro que gastei não se encontrava na máquina. Desse meu dia não existem absolutamente nenhumas recordações palpáveis, que me coloquem lá, no meio da minha própria existência enquanto pessoa e passado. Era um miúdo. Ainda sou um miúdo. Mas aprendi a dar um todo novo significado a sentir falta de…
Quero, ás vezes, acreditar no total determinismo do mundo. Assim, poderia dizer que todo o meu destino estava planeado para que, depois, eu fosse algo. Que era normal o que me estava a acontecer, porque as coisas estavam absolutamente determinadas a acontecer assim. Será verdade? Eu pergunto-me…teremos gosto em saber que somos totalmente livres? Isso também significa que estamos totalmente sozinhos. O liver-arbítrio obrigou-nos a renegar as entidades cósmicas.
E, no entanto, parece que para mim tudo nestes meus últimos tempos de curta vida se resume a apenas UM DIA. Um singular dia, uma data, o numeral dessa data, o nome do ano, o número do ano, a equação matemática possível acerca da minha posterior definição de personalidade – ela não mudou a cem por cento, apenas mudou.
Bem…estar sozinho nunca foi agradável. Revejo, agora, todas as coisas que aprendi e que me permitem dizer Eu sou isto. Eu sou a soma de todas estas coisas, de tudo o que me fez pessoa e o que sou hoje, ou mesmo a tentativa de ser algo – ao menos, a tentativa de ser algo já pode ser algo.
Mas tudo, no fim do dia, parece resumir-se.
A uma só coisa. A uma só data.
A uma só pessoa.

sábado, junho 26, 2004

uma exortação aos verdadeiros condenados

Vamos
Vamos para aqui, onde o tempo passa em absoluto
Ao lado do nada e da fronteira da imaginação
E onde as cicatrizes das lembranças
Se fecham ferozmente como um punho



Vamos
Fugiremos à não-transcendentalidade
Vamos para o único lugar seguro
Onde o presente será sempre o futuro
E onde o passado arde



Vamos
Aqui, agora, sem compromissos
Sozinhos ou aos grupos de pares
Para este lugar onde o real e o previsível
Não são mais do que resquícios



Vamos
Sentiremos à flor da pele a melanina
Vamos preparar-nos para a viagem
Fecharemos os olhos ao vento ardente
E a este mundo que só agora por nós suspira.



Vamos.
Antes que o tempo
Se torne afinal tempo
E se faça tarde.



Vamos.
Não há complacências
Nem demoras.
E não há lugar para cobardes.

sábado, junho 19, 2004

bem vindo joão (e não benvindo)

Só digo uma palavra: exames. Há, mas que bom sempre seria ter este tipo de desculpas para mim mesmo, como se eu fosse o lobo de mim sempre que apregoam que o homem é o lobo do homem…o homem não é o lobo do homem, o homem é só um grandessíssimo idiota consigo mesmo por vezes.
Só me falta história e…alemão. Ontem vim, escrevi aqui um qualquer poema que tinha alguns meses, não dos melhores, não dos piores, nas poucas horas em que tive livres para mim mesmo…na escrita tudo o que faço é alvo das críticas – devias era ter feito a outra coisa. Outra coisa: refira-se se estou no blog penso devia era estar a escrever poemas ou a trabalhar no meu segundo livro, ou a criar letras para a banda formada há pouco mais de uma semana que não tem nome, e ninguém que saiba tocar qualquer tipo de instrumentos. Vice – versa dependendo da actividade.
Não tenho tempo para blogs. Aliás, não percebo peva deles, eu nem sei fazer um link. Sou um aluno de humanidades, pelo amor de deus. Isto deveria querer dizer alguma coisa…
Por exemplo, o único blog que leio é o gato fedorento. Isto porque é o único programa da televisão portuguesa em que rio às gargalhadas…but then again, eu nunca vi o seinfeld e dizem que ainda é mais genial, ficar acordado até tarde (diga-se uma, uma e meia da manha, duas quando não estou em tempo de ferias, e umas duas horinhas mais, em ferias), foi apenas um privilégio concedido na minha entrada no decimo primeiro ano…
Este blog não fala de nada!! Estará aqui alguma coisa de errado? Mas só me apetece rir de todo o ridículo de exactamente não falar de nada. Acho giro. Crítica social, não me interessa nada porque não leio jornais, e…custa e não tempo nem paciência para essas coisas.
As coisas vão passando calmamente. Este blog não tem avançado, por causa dos exames, será a única desculpa da qual preciso para justificar a minha ausência aos amigos pontuais que vêm aqui (ou não?)
Tem piada tudo isto. O fim do ano chegou como tem chegado sempre, o futuro adivinha-se à minha frente. Ser anónimo é uma bênção, espero que este blog nunca seja alvo de mais visitas só por ser meu se eu, um dia muito remotamente, me tornar numa figura pública ao qual abominei na minha própria ideia existencial. E então… vou escrevendo. Vou escrevendo sobre nada como se isso me desse algum alento mórbido para ninguém o perceber, porque ninguém o lê, sem piadas, sem crítica social, sem textos à pipi, sem links, sem imagens, saiam daqui? Não…isto é um testemunho. Continuem, aguentem até quarta.

sexta-feira, junho 18, 2004

a partida

Vais partir
Mas desta vez és tu que me abandonas.


Sim…como uma face recortada
à luz prateada do luar
Que chora
Sei que nunca mais te vou sentir…ou agarrar


Eu sei
Vais partir de noite
Ou pela madrugada
E arrumarás com cuidado a tua alma com cuidado na mala
(nunca se sabe quando podes dela precisar…)
Eu nem sequer vou ter tempo de me despedir
É como a viagem lenta do cancro
Nessa altura todos dizem
Que as lágrimas ganham novo significado.

Se eu pudesse então, ao menos
Ver-te chorar ainda


Não
Não partas
Imploro-te; como
uma criança suja e desesperada
A quem negaram a própria infância…
E vê a vista permanentemente enevoada
Nunca poderei dizer o quanto te amo
Da forma mais sublime
Ou ainda sentir-te
Como quem te sentiu e sente ainda


Procurar-te-ei na estação do dia seguinte
Feita de escamas de peixe e repleta de manhã
e frio


Mas sei que
Chegarei de qualquer maneira atrasado

Ou então
Esperarei pela tua partida
Na plataforma de chegada.

sábado, junho 05, 2004

um trabalho de t.t.i.


A televisão é ligada, devagar o rapaz senta-se no sofá, pronto a receber a explosão orgásmica de imagens sobrepostas e mensagens difusas de padrões de estabelecimento de comportamento humano, ela aquece preparando-se para o combate, porque é mesmo de um combate que se trata. Em breve será completamente inundado, e resistir a tal onda será provavelmente mais nocivo para ele do que se deixar levar por ela.
A viagem começa, os canais estão prontos a desfilar e a serem passados de forma automática e robótica quando o que estiver a nos ser transmitido não for tão compatível com as nossas frequências das sinapses, a primeira imagem é a de uma cena do quotidiano, o olho experiente neste tipo de situações reconhece imediatamente o teor da imagem e as personagens que lá desfilam, é uma novela, esta que mostra a forma como se deve agir e ser, se fores feio não tens raparigas e a tua vida será sempre insípida e interessante e nunca irás para a cama com nenhuma rapariga e nunca serás mais do que um falhado que anda por aí à procura de emprego e que morrerá pobre e sozinho e sem ninguém com quem falar a não ser o empregado do café da esquina com o qual fala sempre de manhã quando pede uma bica. Não quero ver isso fazem-me sentir mal passa à frente o canal pode ser escolhido ao acaso. Um anúncio de seguro de carros a ser protagonizado por uma telefonista giraça meia morena que pede sob a forma de uma voz sedutora e sorrisos plásticos falsos e dementes que subscrevam a este seguro, eu pode mudar as vossas vidas quando o carro onde seguirem bater de frente contra um condutor bêbado que ia em sentido contrário na auto-estrada e que obviamente se esqueceu de prestar atenção às faixas, tendo então atendimento e assistência completa depois de muita luta com os advogados da companhia sobre como ficou de facto o veículo, devia passar à frente mas ela é gira até e nos outros não deve estar a dar nada, deixa-me ver o anúncio até ao fim por entre a luz meia acinzentada que me é disparada para os olhos que depois de tanta televisão terem visto precisam de óculos. Compra este cd tu sabes que queres o grupo é o que toda a gente ouve neste momento raios compra estúpido do caraças já é dupla platina não queres ouvir meu anormal mas porque é que não queres ouvir, todas as miúdas giras que tu vês passar todos os dias na rua ouvem isso mal chegam a casa sabem as letras de cor tu queres ser como eles não queres tu queres tê-las não queres aliás a musicalidade é absolutamente brilhante o crítico da treta do jornal de música mais conceituado dom mundo deu-lhe quatro estrelas e meia é melhor começares ao menos a pensar nisso mais uns videoclips e umas cópias deste anúncio e podes dizer adeus a mais dezassete euros e meio para ouvires um cd que vais ser de certa maneira obrigado a gostar depois de teres gasto tanto dinheiro com ele. Nunca mais dá nada de jeito aqui é só anúncios só anúncios só anúncios estou farto disto vou mudar de canal também porque nunca o admitirei nem nunca me irei aperceber mas todas estas mensagens subliminares cospem-me, obrigam-me a serem como me dizem e a fazerem o que me pedem e eu não sei se lhes consigo resistir, sou fraco e não tenho nada que fazer, por favor que esteja a dar alguma coisa interessante, muda de canal. Uma série que faz-nos rir com atitudes ridículas de outras pessoas, meu deus que palhaça já estou a sentir-me melhor que engraçado que triste que aquele é e que aquela é eu não sou assim, não, eu sou muito melhor, nada do que eu faço tem piada ou pode ser alvo de uma sátira assim porque eu sou uma pessoa normal e nada ridícula nem sujeita de escárnio tudo o que eu faço ou passa despercebido ou é bem recebido sinto-me melhor mesmo sabendo que não é verdade esta série na verdade ri-se de mim e da minha vida patética exactamente por não ter nada de jeito de que os outros se possam rir é que sou insípido e completamente típico não sirvo para nada sou um ser totalmente alienado para quê lutar sou mais um entre a multidão não consigo parar de ver não consigo parar de ver não sei que fazer a não ser rir-me e saber que quando sair de frente do televisor só me sentirei mais triste por estar a ver outras vidas e piadas em vez de ser eu próprio a vivê-las, muda de canal muda canal espera não é preciso o programa acabou mais anúncios um carro a cruzar os ares a alta velocidade o melhor desempenho em longas distâncias o carro do meu pai não é assim raios já tem mais de dez anos e não tem o melhor desempenho a longas distâncias e não é um modelo que o conduz é o meu pai exactamente miúdo é o teu pai e este carro é melhor e novinho em folha por acaso este anúncio nem era dirigido a ti mas fala com o teu pai chama-lhe pobre chama-lhe estúpido chama-lhe parasita quer dizer, por favor, ele tem de te arranjar um carro, não faz a ponta de um corno para o conseguir só compra as coisas que não deve, convence o teu pai obriga-o grita com ele faz uma birra chora diz que nunca terás um carro de jeito e que o teu melhor amigo tem um carro só com seis meses novinho em folha de cor prateada como este e que assim nunca poderás ter um carro de jeito e que sabes tu simplesmente sabes, mesmo que não vejas anda, que os teus amigos se riem de ti nas costas e que nunca terás um carro bom como os dos pais deles e que nunca serás como eles e já nem falta muito para conduzires como raio é que vais conseguir ter um ar de gajo bom e interessante a conduzires à noite a lata velha do teu pai? Fala com ele obriga-o a pensar nisso diz que não queres ser filho de um falhado, tenho de falar com o meu pai acerca disto, as imagens estão a encher-me de calmo prazer e estou a sentir-me inundado por elas, não sinto os olhos a piscar só consigo sentir o ardor nos olhos devia ter posto os óculos raios assim vou passar o programa todo que aí vem a coçar os olhos e não quero perder uma pitada, outro anúncio, este miúdo que vês aqui é o paradigma ideal de miúdo da nossa sociedade e é forçoso que tu sejas como ele pelo amor de deus quer dizer se não fores como ele não faz sentido nenhum e ele só come o melhor pão ele diz a um pedaço de carne Tem nervos e a um pedaço de peixe Tem espinhas e a um pedaço de fruta Tem casca e o seu asco vai aumentando quantas vezes comes o que te dão sem refilares, essa atitude tem mudar, um copo de leite Tem natas, e a um pedaço de diz Tem côdea e finalmente chega o grande clímax não pestanejes agora se pestanejas nunca verás a grande mensagem que te queremos transmitir a mãe

um trabalho de t.t.i.


A televisão é ligada, devagar o rapaz senta-se no sofá, pronto a receber a explosão orgásmica de imagens sobrepostas e mensagens difusas de padrões de estabelecimento de comportamento humano, ela aquece preparando-se para o combate, porque é mesmo de um combate que se trata. Em breve será completamente inundado, e resistir a tal onda será provavelmente mais nocivo para ele do que se deixar levar por ela.
A viagem começa, os canais estão prontos a desfilar e a serem passados de forma automática e robótica quando o que estiver a nos ser transmitido não for tão compatível com as nossas frequências das sinapses, a primeira imagem é a de uma cena do quotidiano, o olho experiente neste tipo de situações reconhece imediatamente o teor da imagem e as personagens que lá desfilam, é uma novela, esta que mostra a forma como se deve agir e ser, se fores feio não tens raparigas e a tua vida será sempre insípida e interessante e nunca irás para a cama com nenhuma rapariga e nunca serás mais do que um falhado que anda por aí à procura de emprego e que morrerá pobre e sozinho e sem ninguém com quem falar a não ser o empregado do café da esquina com o qual fala sempre de manhã quando pede uma bica. Não quero ver isso fazem-me sentir mal passa à frente o canal pode ser escolhido ao acaso. Um anúncio de seguro de carros a ser protagonizado por uma telefonista giraça meia morena que pede sob a forma de uma voz sedutora e sorrisos plásticos falsos e dementes que subscrevam a este seguro, eu pode mudar as vossas vidas quando o carro onde seguirem bater de frente contra um condutor bêbado que ia em sentido contrário na auto-estrada e que obviamente se esqueceu de prestar atenção às faixas, tendo então atendimento e assistência completa depois de muita luta com os advogados da companhia sobre como ficou de facto o veículo, devia passar à frente mas ela é gira até e nos outros não deve estar a dar nada, deixa-me ver o anúncio até ao fim por entre a luz meia acinzentada que me é disparada para os olhos que depois de tanta televisão terem visto precisam de óculos. Compra este cd tu sabes que queres o grupo é o que toda a gente ouve neste momento raios compra estúpido do caraças já é dupla platina não queres ouvir meu anormal mas porque é que não queres ouvir, todas as miúdas giras que tu vês passar todos os dias na rua ouvem isso mal chegam a casa sabem as letras de cor tu queres ser como eles não queres tu queres tê-las não queres aliás a musicalidade é absolutamente brilhante o crítico da treta do jornal de música mais conceituado dom mundo deu-lhe quatro estrelas e meia é melhor começares ao menos a pensar nisso mais uns videoclips e umas cópias deste anúncio e podes dizer adeus a mais dezassete euros e meio para ouvires um cd que vais ser de certa maneira obrigado a gostar depois de teres gasto tanto dinheiro com ele. Nunca mais dá nada de jeito aqui é só anúncios só anúncios só anúncios estou farto disto vou mudar de canal também porque nunca o admitirei nem nunca me irei aperceber mas todas estas mensagens subliminares cospem-me, obrigam-me a serem como me dizem e a fazerem o que me pedem e eu não sei se lhes consigo resistir, sou fraco e não tenho nada que fazer, por favor que esteja a dar alguma coisa interessante, muda de canal. Uma série que faz-nos rir com atitudes ridículas de outras pessoas, meu deus que palhaça já estou a sentir-me melhor que engraçado que triste que aquele é e que aquela é eu não sou assim, não, eu sou muito melhor, nada do que eu faço tem piada ou pode ser alvo de uma sátira assim porque eu sou uma pessoa normal e nada ridícula nem sujeita de escárnio tudo o que eu faço ou passa despercebido ou é bem recebido sinto-me melhor mesmo sabendo que não é verdade esta série na verdade ri-se de mim e da minha vida patética exactamente por não ter nada de jeito de que os outros se possam rir é que sou insípido e completamente típico não sirvo para nada sou um ser totalmente alienado para quê lutar sou mais um entre a multidão não consigo parar de ver não consigo parar de ver não sei que fazer a não ser rir-me e saber que quando sair de frente do televisor só me sentirei mais triste por estar a ver outras vidas e piadas em vez de ser eu próprio a vivê-las, muda de canal muda canal espera não é preciso o programa acabou mais anúncios um carro a cruzar os ares a alta velocidade o melhor desempenho em longas distâncias o carro do meu pai não é assim raios já tem mais de dez anos e não tem o melhor desempenho a longas distâncias e não é um modelo que o conduz é o meu pai exactamente miúdo é o teu pai e este carro é melhor e novinho em folha por acaso este anúncio nem era dirigido a ti mas fala com o teu pai chama-lhe pobre chama-lhe estúpido chama-lhe parasita quer dizer, por favor, ele tem de te arranjar um carro, não faz a ponta de um corno para o conseguir só compra as coisas que não deve, convence o teu pai obriga-o grita com ele faz uma birra chora diz que nunca terás um carro de jeito e que o teu melhor amigo tem um carro só com seis meses novinho em folha de cor prateada como este e que assim nunca poderás ter um carro de jeito e que sabes tu simplesmente sabes, mesmo que não vejas anda, que os teus amigos se riem de ti nas costas e que nunca terás um carro bom como os dos pais deles e que nunca serás como eles e já nem falta muito para conduzires como raio é que vais conseguir ter um ar de gajo bom e interessante a conduzires à noite a lata velha do teu pai? Fala com ele obriga-o a pensar nisso diz que não queres ser filho de um falhado, tenho de falar com o meu pai acerca disto, as imagens estão a encher-me de calmo prazer e estou a sentir-me inundado por elas, não sinto os olhos a piscar só consigo sentir o ardor nos olhos devia ter posto os óculos raios assim vou passar o programa todo que aí vem a coçar os olhos e não quero perder uma pitada, outro anúncio, este miúdo que vês aqui é o paradigma ideal de miúdo da nossa sociedade e é forçoso que tu sejas como ele pelo amor de deus quer dizer se não fores como ele não faz sentido nenhum e ele só come o melhor pão ele diz a um pedaço de carne Tem nervos e a um pedaço de peixe Tem espinhas e a um pedaço de fruta Tem casca e o seu asco vai aumentando quantas vezes comes o que te dão sem refilares, essa atitude tem mudar, um copo de leite Tem natas, e a um pedaço de diz Tem côdea e finalmente chega o grande clímax não pestanejes agora se pestanejas nunca verás a grande mensagem que te queremos transmitir a mãe atenciosa como a tua não é não lhe deu ainda um par de tabefes como a tua terá dado antes apresenta-lhe o melhor pão do mercado disposto em embalagens de cores vivas e extremamente atractivas e ele não sabe dizer o que tem de mal tal imagem e só diz confuso Tem, Tem… e leva o pão branco à boca e só é que tu percebes quando um adulto invisível mas provavelmente risonho diz O novo bimbo não tem côdea e só aí é que tu percebes e por acaso agora um bimbo sem côdea vinha mesmo a calhar tenho de comprar um destes não me posso esquecer tenho de comprar um destes mas será que a porcaria do programa que quero ver nunca mais dá?
A pouco e pouco sinto-me vegetar, regredir à consciência básica do meu próprio ser, gritos distorcidos espasmódicos flagelam-me o corpo e zurzem-me os seus manifestos sob a forma de promessas e o conseguir corpos e promoções perfeitos para sempre serás perfeito para sempre meu anormalzinho meu simples e incerto e frágil espectador para sempre serás nosso nosso nosso só nosso tu pertences-nos tu e o teu dinheiro tu e a tua atenção tu e mais tudo que valha a pena sugar pelo tutano não vejas não procures mais, não não pesquises a fundo sob o que está certo e o que está errado passa passa passa deixa-nos fazer o nosso trabalho deixa-nos estupidificar-te e depois deixar-te nu vende a casa vende o carro para poderes comprar um novo carro e mais quatrocentas e oitenta e duas coisas inúteis artigos para o lar que já não tens fraldas descartáveis entre o sétimo e oitavo mês para o puto que não fizeste promoções planeta agostini para colocares em cima daquele aparador como por exemplo estúpidas e frágeis motas em miniatura ou as mais belas bonecas de porcelana e compra compra compra nós precisamos que tu compres que tu sues e sangres das unhas e sues sangue negro trabalhando que nem um escravo dos tempos modernos para conseguires dinheiro compra tudo e vende tudo para depois poderes voltar a comprar e vê-nos a modelar a tua mente quando já nada tiveres vê-nos a perseguir-te com ideologias a dizermos-te o que tens de vestir o que tens de pensar como tens de agir o que deves esperar a fomentar a tua própria capacidade de nada fazer o estoicismo na sua forma mais pura seu estúpido e miserável cordeiro que nos alimentas somos o teu vício somos tudo o que te separa da busca desenfreada pela perda de identidade nós somos nós somos nós somos e tu serás algo modelado à nossa imagem e semelhança cuspiremos em ti gritos ácidos de ordens massificadas que milhares como tu vão ouvir e acatar e se tu não o fizeres serás diferente dos outros, o medo, o medo de estar sozinho o medo de ser incompreendido o medo, o medo de não poderes desaparecer, se quiseres, estás aterrorizado com a quantidade de imagens que te inunda e te faz sentir pequeno mas ao mesmo tempo sadicamente não tiras tu não tiras meu pequeno micróbio os olhos do televisor rimo-nos de ti e da tua passividade cáustica e sádica rimo-nos de ti por estares dependente de nós o meio comunicacional por excelência, dantes!!!! Dantes pensavas logo existias agora aqui apareces logo existes e tu sabes e tu deseja-lo e tu queres com todas as tuas secretas forças dormir com as estrelas plastificadas da televisão que podem muito bem nem seuqer nem existir porque nunca as viste mas acreditas que elas existem acreditas que elas existem porque nós mostramo-las e nós nunca mentimos e por isso mesmo acreditas em nós acreditas em nós por saberes que podes confiar em nós de facto, que mal te fizemos nós não te fizemos mal nenhum e tu sabes isso mal que mal fizemos foi e isso sim um bem um bem um bem supremo podre e tão apetecível que mal que pudeste vieste logo cair nele ser inferior pronto a ser domesticado és um cordeiro sem lã e bípede e tu gostas, tu gostas de ser manipulado e desejado e estropiado e rasgado por milhares de imagens e mensagens confusas que não percebes e que já nem assimilas tu não sabes mas tu aceitas tu não negas mas tu queres tu não foges mas também nem sequer resistes tu és patético limpa a baba que te escorre as olhos bem abertos a boca escancarada uma lágrima muda que nem percebes de onde vem cinco minutos e vinte e dois segundos de intervalo pensas que vais ter paz que ridículo paz qual paz paz nenhuma paz era só o que faltava não não não vais ter nenhuma paz nada do que almejas sabendo nós na verdade nem bem o quê, talvez estar só aqui que nem um batráquio e deixar que as horas passem, deixares-te estupidificar, abraçares os prazeres hedonistas fazendo amor com o próprio controlo remoto sim.
Tu estás dominado e o programa só agora vai começar.
Let the show begin.

um post melodramático quando não deveria existir nenhum melodramatismo aqui

Ontem foi o meu jantar de fim de ano. Nada de mais, algo calmo, momentos bem passados com dois professores que sempre ficarão connosco, os colegas a quem confiamos uma parte de nós enquanto pessoas, o relembrar de todo este percurso em que começamos miúdos e terminamos jovens quase adultos, prontos.
Prontos para o que virá se vier algo.
De repente vimo-nos todos. Desculpem nós vamos sair mais cedo, precisamos de sair mais cedo para montarmos os cenários…apareçam depois, o público também não é assim tanto…
E é assim que todo o carinho entre as pessoas podia ter existido.
Falámos todos muito. Como se nos esperássemos, ou nos procurássemos nas justificações e ideias dos outros que proferiam de cada um. Mas sabe que de todos o professor foi um dos nossos preferidos de todo o nosso percurso académico. João não diga isso…mas é verdade professor, a Inês também? Estou-me a sentir muito
Muito muito muito.
As coisas vão acabar todas. Sei que, daqui a uns meros meses, nenhum de nós se reconhecerá de novo.
Poderá isto muitas vezes acontecer? Saber exactamente quando estamos prestes a saltar o abismo de encontro ao futuro? Eu não tremo em relação a isso. Só inquiro.
Bem, como pensar nisto tudo, hum? As coisas talvez parecessem muito mais simples de serem pensadas enquanto esperava por um comboio para a amadora na estação do Cacém às onze e meia da noite, com o meu professor de português. Mesmo que ele não dissesse nada, o que é uma palavra. O poeta tenta sempre encontrar A Palavra primordial nos seus poemas, busca-a freneticamente em toda a sua poesia, para, é claro…nunca a encontrar. As pessoas temem os poetas e não os compreendem porque as pessoas temem e não compreendem o desconhecido, e um poeta é aquele que procura o desconhecido nele mesmo, quer saltar o abismo em que nenhuma das pessoas normais quer cair. Os ensinamentos que demos um ao outro? Não somos professores, apenas pessoas. Só lhe podia ensinar mim mesmo, e penso que sou uma matéria densa.
De qualquer modo, acho que nem sequer aguentava mais uma semana de aulas. Masoquistas são os que não faltam, eu sei que o faria. Os exames vêm aí, o calor chegou e nós sentimo-nos com calor, tudo parece tão simples que até mete raiva, tu não me respondes, eu falo-te, aqui enquanto ele diz que se engole…
As coisas vão acabar todas. Que bacano.
(será que a abstractização dos meus posts é constante?)

quarta-feira, junho 02, 2004

o combate.

sim, é possível que ele...
Tenha tido, de afcto, alguma coisa de feral. ou é como se fosse normal. a sua capacidade de bestialidade pura muitas vezes me impressionava. e é como se eu me perguntasse?
De quem é que eu estava a falar? claro que não podia ser uma simples pessoa, visto que tu nunca foste uma simples pessoa...
Claro. tentar perceber-te.
Ainda me lembro quando rasgámos quase as bocas um do outro com os murros que trocamos. sempre foramos os melhores arqui-amigos. eu disse-te...
(ou tu disseste antes)
Anda lá cabrão, mostra-me o que vales.
Enquanto me usavas como saco de pancada.
E eu sabia - eu simplesmente sabia - que se não te matasse, nunca te conseguiria matar de facto em mim memso. era impossível desistires de mim, as pessoas que pensam que és, ou eras, uma pessoa como as outras estão, é óbvio, redondamente enganadas...e tu sabes disso. procuraste-me um dia, espancaste amiugos meus para chegar até mim, e pela primeira vez -
Pela primeira vez em muito tempo, eu estava calmo. verdadeiramente.
E então eu disse-te.
Vamos a isto. já estou farto de estar à espera.
Os nossos amigos não interferiram. olharam de longe, assustados, com medo que tu os visses, e resolvesses vingar-te deles também. todas as esperanças estavam depositadas, em mim...
Acho que fui o herói de todos nessa tarde.
Observei-te. observei-te mesmo quando já não via do olho esquerdo, calmamente, olhando todoa a luta de fora. e de repente - o ridículo de tudo aquilo. apeteceu-me parar. porque eu via-te, via-te como um puto de cinco anos, quando te vi pela primeira vez, o meu melhor amigo, brincadeiras comuns e infantis, como todas nessa idade.
continuavamos a bater-nos com cada vez mais força.
Tu não precisavas de preparação, eu sei que precisei. levantei uns pesos, esmurrei umas placas de madeira, aprendi a manter a calma, coisas assim. eu sabia que iria cair a teus pés, era inevitável. mas era óbvio que tinha de resistir, nessa altura eras um pouco mais alto do que eu
E tinhas um olhar de besta sanguinária que, estranhamente, sempre me atraiu...talvez tenha sido por isso que só eu quis ser teu amigo quando todos os outros miudos da primária já fugiam de ti. já estalavas os maxilares como se fosses arrancar a garganta a alguém à dentada.
Parece-me tudo normal. observar-te, relembrar-te. o que as pessoas podem pensar era que eras normal, invulgar mas normal. errado. tu eras, e és, um assassino. sempre o foste. vi-te crescer, rodeado pelo fogo silencioso das palavras que porferias com os punhos...um dia eu sabia.
Eu simplesmente sabia...
Que um dia essa força se viraria contra mim.
chegaste cinco minutos depois, como sempre, para mostrares que não te preocupas com a pontualidade. nunca na tua vida chegarias atrasado para o que irias fazer, eu sei. eu conhecia-te. caminhavas com as mãos nos bolsos mas parecias querer rebentá-los.
fugiram todos.
Eu disse-te Então. que tens feito. tu disseste Nada de especial. e tu. eu disse O costume sabes como é. agora não se faz muito, estava a tomar café mas fugiram todos. devem estar com medo de ti.
e tu disseste.
(meti a mão na tua boca e queria arrancar-te os dentes. se não me tivesses dado um pontapé nos tomates tinha-te arrancado o maxilar)
Disseste deves saber para o que vim. quanto muito dou-te a hipótese de te levantares, o lugar pode ser onde quiseres.
Fechei os olhos um bocado. saboreei o fim da tarde.
Mas é isto que não percebem;: eu ía. ía morrer. ele ía desancar-me, e, vencendo-me ou não, matar-me-ia á pancada, se vencesse, tornando-se assim na sua primmeira morte, e se eu o vencesse, provavelmente me matarai enquanto dormisse, ou apanhasse desprevenido...preferia morrer. o suspense nunca me interessou.
E então eu disse Vamos.
Tudo o que se passou foi um borrão.A subida até ao pátio principal pareceu-me extremamente longa. ele não disse nada, mas queria. caminhava atrás de mim, saboreando os últimos momentos de humanidade que lhe restavam. eu sei. conheço-o tão bem quanto ele se conhece. mas eu disse-lhe, enquanto ele subia
Só mais uma coisa, palhaço. isto acaba hoje. mas se eu não te voltar a ver, nem penses em meter a Sofia no meio disto tudo.
Quando disse isto, virei-me para ele, à espera de uma resposta. tínhamos chegado ao campo, e parecia que o mundo inteiro nos observava.
Mas é claro que estava enganado.
M então ele disse.
Ela já está metida.
Pela primeira vez senti raiva. mas foi só um pouco. respirei fundo, fechei um pouco os olhos, e olhei-o de frente. ele também me olhou. acho que pela primeira vez na vida dele sentiu medo.
E assim começou o combate.