quarta-feira, junho 02, 2004

o combate.

sim, é possível que ele...
Tenha tido, de afcto, alguma coisa de feral. ou é como se fosse normal. a sua capacidade de bestialidade pura muitas vezes me impressionava. e é como se eu me perguntasse?
De quem é que eu estava a falar? claro que não podia ser uma simples pessoa, visto que tu nunca foste uma simples pessoa...
Claro. tentar perceber-te.
Ainda me lembro quando rasgámos quase as bocas um do outro com os murros que trocamos. sempre foramos os melhores arqui-amigos. eu disse-te...
(ou tu disseste antes)
Anda lá cabrão, mostra-me o que vales.
Enquanto me usavas como saco de pancada.
E eu sabia - eu simplesmente sabia - que se não te matasse, nunca te conseguiria matar de facto em mim memso. era impossível desistires de mim, as pessoas que pensam que és, ou eras, uma pessoa como as outras estão, é óbvio, redondamente enganadas...e tu sabes disso. procuraste-me um dia, espancaste amiugos meus para chegar até mim, e pela primeira vez -
Pela primeira vez em muito tempo, eu estava calmo. verdadeiramente.
E então eu disse-te.
Vamos a isto. já estou farto de estar à espera.
Os nossos amigos não interferiram. olharam de longe, assustados, com medo que tu os visses, e resolvesses vingar-te deles também. todas as esperanças estavam depositadas, em mim...
Acho que fui o herói de todos nessa tarde.
Observei-te. observei-te mesmo quando já não via do olho esquerdo, calmamente, olhando todoa a luta de fora. e de repente - o ridículo de tudo aquilo. apeteceu-me parar. porque eu via-te, via-te como um puto de cinco anos, quando te vi pela primeira vez, o meu melhor amigo, brincadeiras comuns e infantis, como todas nessa idade.
continuavamos a bater-nos com cada vez mais força.
Tu não precisavas de preparação, eu sei que precisei. levantei uns pesos, esmurrei umas placas de madeira, aprendi a manter a calma, coisas assim. eu sabia que iria cair a teus pés, era inevitável. mas era óbvio que tinha de resistir, nessa altura eras um pouco mais alto do que eu
E tinhas um olhar de besta sanguinária que, estranhamente, sempre me atraiu...talvez tenha sido por isso que só eu quis ser teu amigo quando todos os outros miudos da primária já fugiam de ti. já estalavas os maxilares como se fosses arrancar a garganta a alguém à dentada.
Parece-me tudo normal. observar-te, relembrar-te. o que as pessoas podem pensar era que eras normal, invulgar mas normal. errado. tu eras, e és, um assassino. sempre o foste. vi-te crescer, rodeado pelo fogo silencioso das palavras que porferias com os punhos...um dia eu sabia.
Eu simplesmente sabia...
Que um dia essa força se viraria contra mim.
chegaste cinco minutos depois, como sempre, para mostrares que não te preocupas com a pontualidade. nunca na tua vida chegarias atrasado para o que irias fazer, eu sei. eu conhecia-te. caminhavas com as mãos nos bolsos mas parecias querer rebentá-los.
fugiram todos.
Eu disse-te Então. que tens feito. tu disseste Nada de especial. e tu. eu disse O costume sabes como é. agora não se faz muito, estava a tomar café mas fugiram todos. devem estar com medo de ti.
e tu disseste.
(meti a mão na tua boca e queria arrancar-te os dentes. se não me tivesses dado um pontapé nos tomates tinha-te arrancado o maxilar)
Disseste deves saber para o que vim. quanto muito dou-te a hipótese de te levantares, o lugar pode ser onde quiseres.
Fechei os olhos um bocado. saboreei o fim da tarde.
Mas é isto que não percebem;: eu ía. ía morrer. ele ía desancar-me, e, vencendo-me ou não, matar-me-ia á pancada, se vencesse, tornando-se assim na sua primmeira morte, e se eu o vencesse, provavelmente me matarai enquanto dormisse, ou apanhasse desprevenido...preferia morrer. o suspense nunca me interessou.
E então eu disse Vamos.
Tudo o que se passou foi um borrão.A subida até ao pátio principal pareceu-me extremamente longa. ele não disse nada, mas queria. caminhava atrás de mim, saboreando os últimos momentos de humanidade que lhe restavam. eu sei. conheço-o tão bem quanto ele se conhece. mas eu disse-lhe, enquanto ele subia
Só mais uma coisa, palhaço. isto acaba hoje. mas se eu não te voltar a ver, nem penses em meter a Sofia no meio disto tudo.
Quando disse isto, virei-me para ele, à espera de uma resposta. tínhamos chegado ao campo, e parecia que o mundo inteiro nos observava.
Mas é claro que estava enganado.
M então ele disse.
Ela já está metida.
Pela primeira vez senti raiva. mas foi só um pouco. respirei fundo, fechei um pouco os olhos, e olhei-o de frente. ele também me olhou. acho que pela primeira vez na vida dele sentiu medo.
E assim começou o combate.