estou calmamente passado dos cornos...
Estou calmamente passado dos cornos. Vêm aí os exames e toda a gente diz há há, muito bem e o camandro, estuda e tal, pelo amor de deus passa bem sabes que é a tua vida que está em jogo e se não passares nunca serás ninguém na vida e serás pobre e ficarás para sempre um falhado, casado aos vinte e dois com dois putos no alforge e outro na barriga, emprego como mecânico, blá blá blá, morrerás. Todos sabemos que este é o temor dos pais, que no entanto nunca irão admiti-lo, por mim não me importa absolutamente nada. Mas estou passado não pelos exames.
O dia onze do festival super rock super bock é incrivelmente divinal, Jesus o cartaz do dia onze, pixies, wray gunn, massive attack, fatboy slim, lenny kravitz, clã, acho que o David Fonseca também, mais, mais, sei que há mais nomes, que dia do caralho, e que caralhada no meio disto tudo.
Estou completamente, muito calmamente diga-se também, passado. Os meus pais não querem que eu vá, por mil e uma razões. Discussão não existiu cá em casa, mas era mesmo um festival ao qual gostaria de ir. O que acontece é o seguinte. Se eu quisesse porventura, como poderia já ter acontecido, fazer o papel de puto mimado, esses betos merdosos que eu tanto desprezo e que tudo têm por meio de pressão psicológica, é possível, aliás tenho a certeza, que este fim-de-semana já teria os bilhetes. O que acontece é que eu sou uma pessoa, bem melhor que isso, e não consigo pactuar com esse tipo de jogos mentais, pressões psicológicas, chamem-lhe o que quiserem.
Tive também de escolher. Neste momento, para os meus leitores deste blog, que não devem nem passam a meia dúzia, e que penso, tenho aliás a certeza, que são a minha esfera de amigos e conhecidos, devo dizer-vos que desisti também por outra razão. Como já referi tive também de escolher.
Ou o meu projecto grandioso de dois anos, que finalmente tomou forma completa e está pronto a ser revelado ao mundo, ou a merda do dia mais divinal que eu já vi em algum festival. (mas nisto o vento sopra doido, e o que foi do corpo, alado nas asas do turbilhão. São meras, brisas, raras.)
Escolhi, decidi pesar. A escolha, no entanto, nunca me foi apresentada. Mas existe um contador de sacrifícios parentais a se fazerem, e como já se tinham decidido a arriscarem a minha vida, sim porque eles têm medo que eu não me torne um homem comum, não arrisque o destino grandioso que me reserva, o outro sacrifício, este, não faria sentido. Absolutamente nenhum…ou melhor. Faria. Mas seriam, então, demasiados sacrifícios, e algo teria de ceder. Toda a culpa das minhas possíveis más notas nos exames seria posta, seriam postas, no festival.
E assim se move o mundo, comigo a querer, ainda, perseguir e alcançar o meu destino. Tive de escolher.
Escolhi-me.

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