FIM
Tudo acabou. Já não vejo nada à minha volta e não pode ser do enevoado dos meus olhos. Não quero conceptualizar. Quero só despedir-me.
Acabei agora de fazer um telefonema que me tornou um pouco mais humano – aumentou a minha tristeza, o meu desespero, como eu já não me lembrara há muitos anos.
Daqueles que impedem um gajo de escrever decentemente.
Esta música não soará mais. Nunca mais me servirá de embalo para pensar em ti ao escrever o que quer que seja, a perda nunca mais será sentida. Só reavivada. Gostava de poder fechar esta minha obra como não consigo fechar a dor no meu peito, as lágrimas negras como petróleo que são espremidas pelo meu coração rasgado por uma faca farpada. Sem piedade, sem gozo algum.
Tudo parte. Nada foi o que sonhei, nunca.
A felicidade sempre me acenou de longe, nunca me pertenceu.
Talvez seja agora. Observo-me no limiar da noite, o limite do meu próprio pensamento, do meu próprio sofrimento, e procuro imaginar as vezes em que, um dia, imaginei perder-te. Imaginei reter-te.
Nada mais existe agora. Só eu mesmo, algo menos do que era quando te tinha.
Não quero escrever, nem sequer quero falar. Quero agonizar. Relembrar os tempos em que contigo fui feliz. Aprender a despedir-me deles sabendo que nunca mais vão voltar.
É assim, leitores do blog, devido a mudanças radicais nas nossas vidas, marcadas por uma perda, que Termina o nariz empinado. Pelo menos por agora…uns bons anos. Estou a pensar em um dia voltar, quando de facto já tiver perdido tudo, e me tiver tornado um estrangeiro de mim mesmo – para tentar reencontrar-me. Não estou a pensar, no entanto, tomar um rumo de vida que me faça por completo esquecer-me…portanto é de pensar que talvez este blog nunca mais venha a ser reaberto. Um ciclo que termina – é necessário, julgo. Onde está força para continuar? Agora que nos pedem que nos agarremos com força à vida, como podemos ter forças para fazer mais qualquer outra coisa… eu, pelo menos, procurei agarrar-me, nestes dias entre quinta e sexta… que foram longos. Sei agora o epílogo da minha própria história que criei a dois, já não vale a pena continuar mais.
Continuar o que quer que seja.
Lembro-me de quando comecei – nada, ninguém, escrevia para o vazio. Olho agora, e sei que, pelo menos, por alguma consideração, as minhas, agora nossas, palavras, chegam, são lidas, sentidas, o tópico não interessa, o que sempre quis era somente português puro. Sentimento. Poemas. Brilhantismos. Barreiras quebradas. Falhámos redondamente em tudo. Soube tão, tão bem tentar. E agora, no fim, os protestos que chegam são de uma só leitora, são dos nossos amigos silencioso que lêm mas não comentam, são de mim mesmo, também; que deixei a minha vida tomar este rumo. E, agora, o frio é tudo o que me resta, e a tentativa de alguma sanidade que dantes, porque era feliz, dava por garantida.
Tornei-me num filme mudo.
Um pedido de desculpas às pessoas que sensibilizei pelo meu último post. Só pretendia abanar um pouco as coisas, não dar a ideia que o nosso blog é só isto – escritos a puxar à lágrima imbecil e a histórias de cidades inventadas, confissões na terceira pessoa e aspirações poéticas um pouco medíocres. Mas, é claro, não resultou. Assim como a minha não resultou, quando tudo o que eu pedia dela era que me desse alguma (só alguma…) felicidade em troca.
Foi bom por uns momentos, mas agora sei que acabou tudo.
Adeus, leitores, amigos, desconhecidos. Vamos partir para um outro lado qualquer – não daremos a morada. E se falo em termos figurados, falo também de um possível novo site… feito por dois amigos que não percebem absolutamente nada de computadores. Quero que seja assim – começar de novo, esperar um ano ou mais ao menos assim, e ver o que mudámos de novo, em que pessoas nos tornámos, que projectos de vida realizámos.
O caminho a tomar é este. Um abandono, tal como nos abandonaram. Sem mágoas. Um abandono de nós mesmos, porque eu, pelo menos, já não aguento muito viver-me assim, ser-me assim. E sentir-me assim. Tomámos o erro de um dia sentirmos muito – agora pagamos todos os dias o que um dia tentámos ser e nunca conseguimos
Algo mais que simples seres humanos.
Obrigado por tudo. Um dia voltarei. Ou voltaremos. Eu, pelo menos, fá-lo-ei.
Mas esse dia não será hoje.
Adeus.
João.
