sexta-feira, fevereiro 11, 2005

FIM

Tudo acabou. Já não vejo nada à minha volta e não pode ser do enevoado dos meus olhos. Não quero conceptualizar. Quero só despedir-me.
Acabei agora de fazer um telefonema que me tornou um pouco mais humano – aumentou a minha tristeza, o meu desespero, como eu já não me lembrara há muitos anos.
Daqueles que impedem um gajo de escrever decentemente.
Esta música não soará mais. Nunca mais me servirá de embalo para pensar em ti ao escrever o que quer que seja, a perda nunca mais será sentida. Só reavivada. Gostava de poder fechar esta minha obra como não consigo fechar a dor no meu peito, as lágrimas negras como petróleo que são espremidas pelo meu coração rasgado por uma faca farpada. Sem piedade, sem gozo algum.
Tudo parte. Nada foi o que sonhei, nunca.
A felicidade sempre me acenou de longe, nunca me pertenceu.
Talvez seja agora. Observo-me no limiar da noite, o limite do meu próprio pensamento, do meu próprio sofrimento, e procuro imaginar as vezes em que, um dia, imaginei perder-te. Imaginei reter-te.
Nada mais existe agora. Só eu mesmo, algo menos do que era quando te tinha.
Não quero escrever, nem sequer quero falar. Quero agonizar. Relembrar os tempos em que contigo fui feliz. Aprender a despedir-me deles sabendo que nunca mais vão voltar.
É assim, leitores do blog, devido a mudanças radicais nas nossas vidas, marcadas por uma perda, que Termina o nariz empinado. Pelo menos por agora…uns bons anos. Estou a pensar em um dia voltar, quando de facto já tiver perdido tudo, e me tiver tornado um estrangeiro de mim mesmo – para tentar reencontrar-me. Não estou a pensar, no entanto, tomar um rumo de vida que me faça por completo esquecer-me…portanto é de pensar que talvez este blog nunca mais venha a ser reaberto. Um ciclo que termina – é necessário, julgo. Onde está força para continuar? Agora que nos pedem que nos agarremos com força à vida, como podemos ter forças para fazer mais qualquer outra coisa… eu, pelo menos, procurei agarrar-me, nestes dias entre quinta e sexta… que foram longos. Sei agora o epílogo da minha própria história que criei a dois, já não vale a pena continuar mais.
Continuar o que quer que seja.
Lembro-me de quando comecei – nada, ninguém, escrevia para o vazio. Olho agora, e sei que, pelo menos, por alguma consideração, as minhas, agora nossas, palavras, chegam, são lidas, sentidas, o tópico não interessa, o que sempre quis era somente português puro. Sentimento. Poemas. Brilhantismos. Barreiras quebradas. Falhámos redondamente em tudo. Soube tão, tão bem tentar. E agora, no fim, os protestos que chegam são de uma só leitora, são dos nossos amigos silencioso que lêm mas não comentam, são de mim mesmo, também; que deixei a minha vida tomar este rumo. E, agora, o frio é tudo o que me resta, e a tentativa de alguma sanidade que dantes, porque era feliz, dava por garantida.
Tornei-me num filme mudo.
Um pedido de desculpas às pessoas que sensibilizei pelo meu último post. Só pretendia abanar um pouco as coisas, não dar a ideia que o nosso blog é só isto – escritos a puxar à lágrima imbecil e a histórias de cidades inventadas, confissões na terceira pessoa e aspirações poéticas um pouco medíocres. Mas, é claro, não resultou. Assim como a minha não resultou, quando tudo o que eu pedia dela era que me desse alguma (só alguma…) felicidade em troca.
Foi bom por uns momentos, mas agora sei que acabou tudo.
Adeus, leitores, amigos, desconhecidos. Vamos partir para um outro lado qualquer – não daremos a morada. E se falo em termos figurados, falo também de um possível novo site… feito por dois amigos que não percebem absolutamente nada de computadores. Quero que seja assim – começar de novo, esperar um ano ou mais ao menos assim, e ver o que mudámos de novo, em que pessoas nos tornámos, que projectos de vida realizámos.
O caminho a tomar é este. Um abandono, tal como nos abandonaram. Sem mágoas. Um abandono de nós mesmos, porque eu, pelo menos, já não aguento muito viver-me assim, ser-me assim. E sentir-me assim. Tomámos o erro de um dia sentirmos muito – agora pagamos todos os dias o que um dia tentámos ser e nunca conseguimos
Algo mais que simples seres humanos.
Obrigado por tudo. Um dia voltarei. Ou voltaremos. Eu, pelo menos, fá-lo-ei.
Mas esse dia não será hoje.
Adeus.





João.

domingo, fevereiro 06, 2005

O inicio do fim

Apenas algumas horas passaram desde a nossa última conversa e não consigo deixar de sentir que te vou perder. A saudade caminha de mão dada com a solidão e só agora que penso em ti me apercebo da brutalidade que me cega e já não vejo, perante a sequência de imagens doces e violentas que se entrelaçam, confundindo-se. E sei, meu amor, e sei que só assim me posso sentir. Inocentemente, trouxeste-me de volta a tristeza que julgava perdida e esta é agora maior do que alguma vez poderia ser. E peço-te uma simples razão que justifique o acaba de morrer em mim. Mas temo que os sorrisos que pereceram o tenham feito em vão. E anseio por levar a cabo a mais fantástica ideia que me poderia trazer de volta o mais simples dos gestos. E no meu íntimo sei que vou falhar, que não sou capaz de revisitar o teu mais suave toque. E é-me indiferente o eu pensas agora fazer porque sei que o farás longe de mim. E minto. Porque sei que isso é de facto a minha única preocupação, mas talvez seja o momento de mostrar a coragem que não se tem e dizer, Eu aguento, mesmo sendo esbofeteado pela distância, eu acho que aguento. Acho. E sinto-me agora só enquanto escrevo sob uma fraca luz e fumo o cigarro – espalhando cinzas pelo papel que nestes instantes se torna o meu corpo – que me levará até à eternidade. É este o momento, sei bem. Talvez também te sintas só neste instante mas certamente farás um esforço um pouco maior do que o meu para não o admitir. E não, não te vou dizer qual de nós está mais correcto, não teria a humildade necessária para dizer que és tu e muito menos a arrogância para dizer que sou eu. E interrompo o leve suspiro. Vou manter-me assim: caminhando errante condenado a sentir. E sei, sei o que acaba de acontecer. Dizes-me que é o fim e talvez tenhas razão. Também estou cansado, sabes, não de ti, mas de me sentir triste. É o fim. Acabou. Mas será que tudo tem, de verdade, um fim? Observo a sombra que se prolonga pelas paredes e apercebo-me de tudo por um último instante. Tenho vontade de deixar tudo. O amor de todos os tempos. Foi esse amor que me fez sentir criança e não vou chorar por isto. A última lágrima que me lembro de verter foi por ti, há uns anos atrás. Nada faria prever o que se haveria de seguir. Mas pergunto-me. Quando será que te voltarei a beijar. Será que algum dia voltarei a sentir a tua suave pele? Quando foi que tudo isto deixou de fazer sentido para ti? E penso. Estás a fazê-lo de novo e não consigo perceber porquê. Não sei do que estás a fugir e muito menos o que te leva a tal. Eu. Não compreendo. E magoa-me demasiado pensar que tem de ser assim. Não é justo, garota, e só queria que soubesses o quanto me dói imaginar-te assim. Longe e perdida. Passa-se algo contigo. Sei isso. E vejo que fazes com que tudo pareça mais difícil. Será este o tempo devido para assassinar o que tão docemente se construiu? Ao que parece. Sim. Só te peço que não me afastes assim, embora acredite que seja esse o teu desejo. Não merecemos que tudo o que aprendemos a ser nas nossas horas de companhia se desmorone assim. Sabes, só te queria ter aqui comigo. Por favor, fala comigo. O teu silêncio é…
Talvez tenha sido a nossa ousadia o que nos fez esquecer que nem sempre é possível. E talvez tenhamos vencido por momentos o impossível. E podia ser este o momento em que tudo mudava e finalmente nos seria concedida a oportunidade que tão bem saberíamos aproveitar. E acho que também o sentiste, não é verdade? O mesmo carinho que provou ser capaz de vencer o vazio. E às vezes penso que o mundo terá mais para dar. E às vezes penso que sim, que um dia tudo será mais simples. E não consigo entender, perdoa-me mas não consigo. Queria ligar-te, saber que desse lado me ouvirias. Mas provavelmente não há nada que me permitas dizer e talvez seja por isso que me sinto tão fraco. E só queria saber se choraste no dia em que me fizeste partir. Um dia, contarei às pessoas quem fomos. Até lá quero manter certas memórias só minhas e esperar que um outro dia façam sentido serem sonhadas. Porque esta noite dói-me o coração de imaginar sonhos desfeitos. Os dias passarão e pergunto-me o que farás tu com as minhas cartas, com as nossas fotografias, os nossos passos a dois, os mais sinceros sorrisos que soltámos, os ternos e eternos abraços. E temo só de pensar que não quererás ter coragem para os relembrar comigo. Beija-me uma última vez. Apenas para podermos dizer que um dia tudo aconteceu pela primeira vez naquele fim de tarde já escuro naquele lugar que àquela hora parecia abandonado por todos e que só tinha luz à nossa volta.
Que foi que nos faltou para tudo ser perfeito?
Diz-me se um dia voltaremos a tentar.
Diz-me se um dia voltaremos a sorrir.
E se o plano já não era maior do que isso, talvez seja, então, altura para perguntar se ainda se sente o mesmo, se ainda há uma possibilidade. E talvez tenha sido assim por exigência do destino. Tinhas de partir e levar contigo tudo o que fomos um dia. E tirei tudo de ti, até a mais pequena circunstância -, e para quê? Talvez para poder saber. Talvez, meu amor, talvez. E disseste que tinha sido tão bom. E disseste que tinha sido tudo tão bonito. E não podemos fingir, tentar esconder o inevitável. Juntos ensinámos um ao outro algumas das coisas que a vida tem de positivo. E sabemos bem que não são muitas.
Se passares por mim na rua fingiremos distracção? Falarás comigo como se só soubéssemos ser vulgares? Eu.
Não sei.
Pediste-me para partir – e pergunto-me se terá de ser sempre assim.
Mas despeço-me, então. O que quer que o futuro nos reserve chegará um dia, quem sabe, quando menos esperarmos. Mas digo adeus. Porque só isso me pediste para fazer.
Talvez um dia nos voltemos a ver.
E a sentir.




Pedro.



(Este será o meu último post no nariz empinado. Faltam poucos dias para o encerramento deste blog. Acho, por bem, que este percurso a dois termine como começou. João, o último texto será teu. Este blog será como um albúm de recordações, feito apenas por palavras. Obrigado, caros (perdoem-me a formalidade do termo) leitores – assíduos ou esporádicos – por nos terem acompanhado ao longo deste ciclo que agora termina. Esperamos ver-vos em breve num outro local. Nada morre verdadeiramente – vejamos se é esse o caso.
Obrigado por tudo.

Até breve.)



O inicio do fim.