domingo, novembro 28, 2004

..

desafio todos os punheteiros que aqui vêm e todas as meninas queridas minhas amigas que aqui vêm que um dia violarei a comentarem o post que abaixo escrevi. estabeleçam, se possivel, teorias para o porquê do post, se é verídico ou não, e se estou de facto a ficar louco.


ibi ubi non societas.

.

Quero-me concentrar enquanto recordo os momentos que me levaram, ontem, a não escrever... quem fomos, quem tentamos ser nesse momento.? Mas eu só me lembro de mim, ser insensível para alguns, semi-esotérico para outros. Vou-te contar uma coisa:


O meu coração explodiu como uma lágrima de petróleo
Perdi-me nas próprias dúvidas da minha mortalidade, questionei
Questionei
A minha própria sanidade enquanto sentimento
Fui o meu próprio carrasco
!eu admito
mas não
nem por um segundo.!
me tento esquecer do arrepio suspirante
a estaticidade de todos nós
MOMENTOS! Imaginados com a leveza de um
Ligeiro, trémulo…
Mexer de mãos…
Sim, terei sido tudo isso negativizado, ontem
Obrigado
Por me teres feito sentir como quando
Os dias eram "serpentes quadriculadas que se enrolavam nas minhas pernas".



Estava escrito…? Oh, decerto que não. Mas…
Existe algo, aqui! Será que não entendes? Estou pronto a extravasar, está tudo pronto aqui para ti, para mim enquanto ferramenta, enquanto prostituto dos meus próprios desígnios,
Eu
AAAAAAAGH!
Este desespero
É incrível deixa-me que te diga
Lembro-me dele tão bem ontem, mas tão forte e tão puro, devias sentir, convido-te um dia a experimentares:
Vigílias, foda-se!! Vigílias intermináveis, pá, num quarto às quatro da madrugada, esperando o meu próprio esquecimento.!
Foi… incrível.
Agora estou mais calmo. Sabes, a escrita sempre serviu para ficar por momentos insanos, um armazém eterno de fúrias e desolamentos reprimidos, aqui (aponto com dois dedos para a testa.) . solidões, beijos reprimidos, noites
Noites, acredita
Em que o sentimento de eternidade não chegava para conter os limites do meu corpo.
Então, pergunto-me.. porquê ontem? Seria o sentimento tão filha da putamente forte e maligno, e… saboroso…
Que me levou…a renegar escrever?? Cuspir
OUVE BEM, CUSPIR
Na frase trémula que principiei a desenhar?


Haa.
Isto pode ser o amor, acredita… ou uma forma bastarda de escrever isto, aqui, algo, mais com sentimento, do que brilhantismo.
Perdoa-nos se nos fiz toscos.
Mas sempre achei que a loucura podia ser confundida com a originalidade…
A nossa originalidade
Foi dar um nome diferente
Às questões metafísicas que rasgam todos os…
…bem, todos os que são como nós.
Perdoa-me
Também
Se um dia
Quis tudo o que eras
Mas.





Foste demasiado para mim.

sábado, novembro 27, 2004

continuação do poema "somente adormecer" de Pedro.

Hoje vamos somente adormecer.
Talvez abraçados um ao outro pelo frio
deste Inverno tão seco, e tão bonito
A televisão vai brilhar sozinha e quase sem som
a noite toda
embalando-nos com resquícios de programas que nenhum de nós viu até ao fim.
Vamos... somente adormecer.



Os cobertores que fomos buscar dormem connosco também
no chão da nossa sala
e as chávenas de cacau quente repousam vazias no sofá
entre todos os beijos achocolatados que demos
Sem qualquer tipo de pressas enquanto pegávamos nelas
com o conforto próprio e calmo
dos amantes.



Esquece
esquece o frio da noite
Abraça-me um pouco para sentires mais um pouco de calor
Num gesto de ternura, talvez algo desajeitado
e talvez amanhã
Quando acordarmos com os raios do Sol de Inverno
Tímido e cinzento...
Possas perceber que a felicidade é feita de momentos.
Se tiveres essa sorte
Talvez me abraces um pouco mais
para tornar eternas
as lembranças dos sentimentos que um dia iremos..
Irremediavelmente perder.



somente adormecer.





10/17/27/11/04
(João.)

sexta-feira, novembro 19, 2004

Somente adormecer

Traz-me a chuva que se resguarda nas montanhas
do desespero,
nas terras escuras que aprendemos a apreciar
traz-me a tua certeza de que no quarto
apenas as paredes nos poderão observar
e poderei agradecer-te devidamente
no momento em que as nossas mãos se tocarem
e eu direi apenas, obrigado
e desse modo fecharemos um ciclo
já de si longo
desde o tempo
em que tirávamos fotografias dos nossos gestos
para termos o subtil prazer
de recordar sorrisos do passado
e quase em acto de ousadia sorrir
novamente,
abraçados junto à lareira
com pouco mais do que uma
chávena de cacau quente
e o som das labaredas inquietas
que só nos querem fazer companhia
lembrar-nos de que nem sempre estamos sozinhos –
embora pareça.

E acalma-te.
suavemente descobriremos quem somos
como se nada mais fizesse sentido
e quando o sono apertar
e soubermos que pouco mais há a fazer
Então sim:
seremos o que sempre ambicionámos e pouco mais haverá a fazer.

somente adormecer.



(Pedro)

quinta-feira, novembro 18, 2004

Seremos parte um do outro.(?) (ou não.)

Por demasiados anos se tentou suster
A respiração
na esperança de impedir
A devastação
dos nossos sonhos infantis;
e é chegada a hora de cortar amarras
e lançar-nos em nova missão
como se tu e eu fizéssemos parte
do impossível
e por uma última vez
o destino nos permitisse a ousadia
de alguns minutos de silêncio;

E não faças um único som
se isso implicar o desaparecimento
de uma outra ideia
de um outro desejo
de renascer;
ainda vamos a tempo de guardar quem somos
numa pequena caixa de segredos
cuja chave será a simplicidade
e ninguém estará do lado de fora
A observar
como quem tenta raptar o instante
em que numa explosão de cores
faremos da nossa força conjunta
arma de arremesso contra
o horror indistinto de quem fez
do nosso breve sofrimento...
segundos de prazer;

Mas diz-me:
Que poderemos ainda mudar?





(Pedro)

quarta-feira, novembro 17, 2004

louco. .?

Gostava de falar aqui uma coisa que poderá não fazer sentido. Hoje sonhei em matar um homem, e violá-lo com uma matraca enfiada pelo cu acima, delírios de dor orgásmica ante uma raiva minha completamente cabalística.
Calma. Não sou um louco.
Antes de mais queria agradecer a todos os que nos têm apoiado, a mim e ao Pedro, nesta viagem sem retorno que nunca será devidamente apreciada a não ser por nós mesmos. Ouço Josh Rouse. O momento parece perfeito para uma confissão.
Dizem coisas fantásticas sobre nós, nossos amigos, talvez pessoas que nos respeitam também enquanto pessoas. Os comentários são até muitas vezes exagerados… talvez seja a nossa peculiar maneira de lidar com a crítica.
Por exemplo, todos consideraram o texto "apeteceu-me chorar" uma obra prima, uma coisa fora de série. Não é, nem remotamente. Foi escrito num jacto, e apesar de valer o que vale, tem falhas gravíssimas que eu, como digamos escritor de meus próprios textos, considero obscenas e inadmissíveis quando releio os meus textos: conceitos e atributos repetiam-se por vezes quase na mesma frase, algumas ideias estão confusas, outras poderiam perfeitamente ter sido desenvolvidas, ficando apenas no ar uma ideia chocha que já nunca mais poderei repetir. Bem… era isso que queria dizer. Obrigado pelo voto de confiança, mas ás vezes acho que não merecia sequer gostarem tanto destas coisas. São… efemérides, talvez.
Não é um sonho: será decerto, eu sei. Tem de ser; entenda-se, uma realidade.? Sem dúvida. E porquê? Quem caralho sou eu? Quero rasgar a minha pele, ser outra pessoa por outros momentos, poder matar. Respirar de alívio, beijar o corpo ainda quente, sentir que acabara de realizar um ritual.
Estarei doido. Não. É simples o procedimento na verdade. Os amigos para assustarem, o terror, o sentir o coração frio. Despe-te meu cabrão. Já.
(antes era necessário uma explicação. Como, se eu próprio precisaria de uma. Às vezes sinto-me, ou seja, como se tudo estivesse a passar depressa demais por mim, como se fosse menos homem, vejo tudo a passar como uma dor estranha de costas. É angustiante. A pontuação, quer ela esteja lá ou não, parece-me forçada, tento encontrar uma linguagem perfeita em que uma frase, signifique na verdade somente uma frase. Mas sou feliz demais no dia-a-dia, precisava da tristeza sábia dos escritores, das tardes sozinhas com pensamentos entre o trabalho de escritório. Morrer alcoólico. Termóstato.
Outra coisa, o custar, regressar. O voltar para, o sentir-te em, mim. Percebes. Não faria nada. Sou tão sádico, entendes. Só queria amar-te por isso, deixar que as tuas mãos passassem pelo meu corpo e eu me quisesse somente ali.
Não pensar em mortes, ou perdas, ou trabalhos, ou violações. Obliterar os problemas numa tarde, ou noite, de amor, ou sexo, ou algo intermédio.
Ouve. Quero explicar-te uma coisa, eu quero ser de facto um assassino, e não estou a brincar, esta não é uma história ou uma prosa inventada, e quem de facto acreditar nesta verdade não saberá o que por nos comments; preciso, de matar percebes? Ou ser sádico e não sequer matá-lo, mas eu não quero falar sobre isto. Quero chorar toda a minha frustração, traduzida num murro salgado na tromba de um insecto gigante, rasgar-lhe a boca, rasgar-lhe a boca é preciso, poderias pedir-me para ser menos homem nessa altura…? Eu quero. Quero procurar-te no fim, deixar que me esbofeteies, e sentar-me no chão como se esse fosse então o meu trono. Juro. Palavra de honra.
Depois
Talvez me lembrasse dos dias agnósticos
Em que aquela impressão que tinha na garganta com sabor a sangue
Fosse a anunciação da minha vitória malfadada

segunda-feira, novembro 15, 2004

Poema A Meu Filho.

Juntámos o que restava da nossa vida juntos,
Na noite.
Parecia impossível; quem imaginaria
Que nunca mais sentiríamos a luz dos prismas
Roxos e baços, no nosso apartamento sem janelas.



Olhámo-nos: era tão pouco
Os objectos – agora tão imutáveis
Já há muito que não proferíamos palavras
Senti o teu desespero quando te levantaste para um cigarro
O meu desespero era bem mais sonolento e calmo.



Como poderíamos salvar o nosso filho.
Era tão impossível, estávamos tão sós.
Eu desistira do curso para actuar e escrever livros
Tu andavas por aí como decoradora de interiores
Quem imaginaria que as coisas nesse ramo andariam tão baixo



Os nossos amigos vieram cá a casa
Choraram connosco
Nenhum deles rico o suficiente; quase nenhum deles amigo o suficiente
E tu odiava-los por isso
Ficando horas e horas a velar o nosso filho.



Que altura tão perfeita para deixar de fumar
Encostava-me à parede, derrotado
Levem a televisão, a partir de hoje não precisaremos dela
E podemos lavar as roupas e a loiça à mão
De qualquer modo o antigo pode ser que esteja de novo na moda...



Tudo parecia tão pouco para nos salvarmos
Não tinha feito o suficiente; não tinha trabalhado o suficiente
Para ti
Ordenei poemas que nunca pensara em publicar
E eles disseram, Se tiveres sorte até pode ser que te safes e isto seja aceite.



A única coisa que não parava era o tempo
E olhava-te todos os dias e em mim aumentava o meu desespero
E um dia disse-te, derrotado
Não é possível, querida.
Não podemos salvá-lo.



Olhámos em redor e para as paredes nuas
Os móveis e os aparelhos eléctricos, para onde foram?
O que restava em nós era só um vazio
Um grande vazio em nós e nele…
Lembro-me que chorámos.
Até ao amanhecer.



Adeus, filho.



(08/03/04)

domingo, novembro 14, 2004

Ignição

No espaço
da explosão das palavras
não haverá maneira de interromper
o processo que estilhaça a juventude
e os planos de crescimento
E algum dia chegará
(5)

Onde
fará sentido reviver as memórias incessantes
e as crises de identidade que acompanham
aqueles que temem claudicar
e apenas esses que receiam
e tiram prazer de vencer os medos
poderão tirar proveito do que se define
na puberdade das sensações desenfreadas
E só esses
(4)

O serão
definitivamente
quase que em verdades incertas
e alguma simpatia de circunstância
no cinzento espaço urbano
que conta em graffitis e registos policiais
em poucas noticias e muitas vozes
todas as horas que passaram desde
(3)

O inicio dos tempos
e na história dos livros e das pessoas
subsistirá a existência
que se extingue como em dança de velas
perdidas como pequenas meninas
no luar violento que constrói
a robustez de todos nós e de cada um
(2)

Em si mesmo
e ouvir-se-ão eternos gritos
de revolta contra o tédio celestial
e todas as noites que vierem
vestir-se-ão de negro cabedal
para não mais se sentirem presas fáceis
(1)

De parca tristeza
e no infinito virá
uma e outra vez retumbante porque
É a vida
e o final tem apenas um inicio
e esse não é mais do que um sorriso
...

(Ignição)







(Pedro)

o meu preimeiro link.





You Know You're Portuguese When....


Your mother or grandmother has Maria in her name.

You have a rooster napkin holder.

Your father or grandfather is called Manuel, José, Antonio, or João.

You have crocheted doilies on your kitchen counters, dining room, living room, bedroom--on all your tables.

You decorate your walls with plates.

Your house is a mini church with just as may statues of saints and Jesus as your church itself.

You're 25 and still living with your parents. (Extra points if you're married and living with your spouse in your parent's house)

You warn other drivers of police on the highway by flashing your lights, even though one of the drivers might have just robbed a bank.

You baptize your child and send him to catechism even though you might never go to church except for weddings and funerals.

You think all university graduates should be called "Doutor" and like to be called so if you are one of the chosen few who have managed to finish college.

You park on the sidewalk when necessary, even asking the person standing there to please move away.

You have a mobile phone and spend a small fortune on it, but think twice about going to the dentist.

You have a mother or grandmother who wears black.

You spend your holidays in Spain instead of in Portugal because it is cheaper.

If you are a woman, you have been to see a "curandeiro" (healer) or have had your fortune told.

You insist you wouldn't be caught dead buying Spanish olive oil even though most of the olive oil consumed in Portugal comes from Spain.

You laugh at jokes about the Alentejanos but get angry to know that the same jokes are told in Brazil about the Portuguese.

You think that you can catch a cold with a draft or by sitting in the spring sun. Cold drinks are also thought to bring on the dreadful "gripe". And don't let anyone have a shower after eating as something terrible could happen to them.

You get a letter from your doctor saying you can't work because of an "unspecified, ongoing medical condition" and then go on a two-week holiday.

Your child's teacher misses two weeks (because of a letter from his or her doctor) and you don't complain because you also will use the same doctor when you have to miss two weeks from your work.

If you are from Porto you don't like people from Lisbon and call them Moors. The reverse is also true but they don't call you a nice word like "Moor".

You think Brazilians speak incorrect Portuguese and will not read a book written in Brazilian Portuguese.

The last major military victory you can remember your country having was the Battle of Aljubarrota in 1385.

You say that the Portuguese, unlike the Spanish, are good at learning foreign languages.

Your parents own like 9 houses in Portugal but complain about the lack of money in the States.

Going to Portugal involves buying gifts for all 500 members of your family

You go crazy for the World Cup

You refer to Portugal as "O Continent"

You've walked in "as paradas" longer than you can remember

You have grape vines in your backyard

You earned over $10,000 for your first communion.

To hell with the Turkey and Roast Beef! X-mas dinner was bacalhau au braz, baby!

A barbeque does not consist of burgers on the grill... Hello! Can you say sardinhas?

You've had your license for a month, but your $20,000 car has been "hooked up" for a year. I'm talking rims, tints, a system...

A wooden spoon equals discipline, or if you ever had to duck so you wouldn't get hit with flying shoes.

Your parents anticipate that you'll marry your first long-term boyfriend/girlfriend.

When you hear the word "Sagres" you think Beer, not historical marine school.

Nothing beats a buttered papo-seco.

Your 15 year old brother is allowed to have two girls sleep over, but your 19 year old sister can't go out past 7pm.

You think that 2am is too early to go to bed and that 11am is to early to get out of bed.

Your grandmother tells you look sick because you are too thin.

Your parents make you eat 3 servings of dinner at each sitting otherwise they think you don't like the cooking.

You're proud to be Portuguese - and you pass these jokes on to all your Portuguese friends!





Get Your Own "You Know You're" Meme Here



More cool things for your blog at
Blogthings

quinta-feira, novembro 11, 2004

apeteceu-me chorar.

Os dias passam, vamos ficando cada vez menos humanos. Não que isso não seja belo.. mas…às vezes. Ou seja. Tenho escrito pouco, menos, a prosa escapa-se-me e tenho medo de a magoar, torná-la mais feia, dizer Lamento no que te criei, uma ferramenta para explorar a minha psique torturada de laivos de ancião e não numa coisa bonita, para dizer coisas interessantes, úteis ou fratricidas às pessoas.
Vamos vivendo. Ficando cada vez menos humanos.
Ontem vi uma coisa quase azul escura, que era um homem, e menos do que eu, espero eu, pois eu sou um sonho de uma projecção minha que não existe.
Ainda assim… o homem era um homem, e um homem como tu e eu, será que nesse dia se tornou menos? As minhas roupas apertavam-me e o comboio, entendes, cegava-me no seu aperto de jibóia biónica enquanto as portas se fechavam.
As portas. Se fechavam. Uma jaula e um terror que adquirimos com a lucidez dos velhos babosos, sorrindo enquanto nos sentimos seguros perante um comboio que pode a qualquer momento explodir num ataque terrorista, e oh carne queimada putrefacta, oh lucidez bem vinda, se eu escapasse, se eu escapasse somente, tantos livros que ainda tenho para escrever.
Mãos empurram-me e cada cara nova que olho me odeia por fazer parte deste grande todo de ovelhas bípedes que todos os dias odeiam tudo numa habituação triste de pescoço estalado com força, enquanto entram no vagão de carne que engole, engole e engole tudo pelas suas bocas estúpidas de intolerância a humanos antes de vomitar tudo, num gesto de repulsa por ter engolido tão ignóbeis criaturas. Mãos apalpam-me o rabo, pénis erectos são tentados a serem escondidos, os seios pressionam-se contra as minhas costas e ombros, peidos, peidos estúpidos de vergonha contente por serem incógnitos fazem-me suar, e tudo isto me faz suar e a música apenas torna a atmosfera mais hipnótica, e eu odeio-me, aprendo a odiar-me a cada viagem de comboio.
Uma toada cinzenta, Amadora, percebes, quando a vejo no fim da tarde quando ando a pé por ela, entendo-a quando não estou a fugir dela, e um dia percebi a verdadeira resposta, de Amadora. É só mais uma cidade, uma cidade suja, cheia de pombos e de pretos e pessoas pobres, que morrem de vez em quando porque não vejo nunca muitos carros funerários, coberta de pó e eco pontos, e centros comerciais decadentes, percebes, Amadora é uma cidade esquecida cavada num buraco onde o Sol brilha sempre com a amarelidão do fim dos dias e do desinteresse, onde nunca nasceu nem irá nascer ninguém interessante, miúdos borbulhentos e pitas fúteis que ouvem kizomba e não percebem que são menos que uma formiga aos olhos deste mundo, morrendo e esquecidas com a rapidez do agora, já, velhas que discutem até caírem de cansaço peixes inertes nas praças cansadas que corroeram como um ácido os prédios que as albergam como ostras e cafés onde comunistas reformados esperam a morte, mas esses entendo-os eu, sabem que serão mais perenes que um rasgo eléctrico de um orgasmo.
E depois há as cores escuras ou demasiado claras dos prédios, os verdes mortiços e os azulejos pirosos de há tantos anos que dentro de si, em cada divisão, a noite escorre por todas as paredes frias como uma cuspidela de pasta de dentes quando me sinto zonzo, cães que nunca terão nome correm pelas mesmas ruas, sempre, rasgando sacos de lixo que os mendigos se esqueceram de analisar. Percebes. Amadora é isto, é uma cidade periférica esquecida ainda antes de existir, agora que existe não é sequer nada, uma borbulha de pus na vida cínica de Lisboa, onde vivem os pobres, os desinteressantes, os amorfos e os desesperados, onde cortam as árvores pela base e depois elas caem sobre os carros de oitenta e seis até ano dois mil, as garagens estão manchadas por tags ilúcidos que algum dia um filho da puta se lembrou de fazer, símbolos de crews extintas por parques cujas paredes, percebes? Foram deitadas abaixo, para “dar um maior conforto, segurança e vigilância”, mas não, é para os miúdos fugirem mais facilmente quando quadrilhas de putos de oito e dez anos perseguem com a sede de velociraptors as suas vítimas que nunca serão mais do que frustrados, e tudo isto é uma cidade feita de pó, sol que bate nas áreas grandes de descampados que não foram aproveitados para a construção ilegal em fisionomia de prédios, estádios a cair de podre, balizas ferrugentas, parques de estacionamento que se vêm do chão como cogumelos, clínicas onde se espera a loucura nos bancos de madeira clara e envernizada, para dar uma ideia de ordem em pânico que estes restaurantes, estes jardins sem cuidados que afloram entre varandas, marquises e outros jardins de outras casas que fazem ruas que não têm entrada nem saída, cujas bostas de cão que comem mais que a dona velha cantam o fim do mundo contentes por fazerem parte desta força de destruição, e quando Amadora cair, entendes, ninguém saberá, quando Amadora cair no dia em que as cidades caírem e forem varridas do mapa ninguém falará dela porque era só mais um rio de vomitado solidificado de pessoas, e prédios e ideais semelhantes a tantas outras periféricas deste país triste como uma lágrima ácida, e quando eu fujo dela…quando eu fujo dela. Sou o seu representante, e é isso que me faz querer desaparecer.
De modos a que esta viagem será mais uma viagem como as outras, a mulher grávida entrou depois de a terem empurrado, ela precisa de cuidado mas é impossível, não há espaço seuqer na carruagem para se sair, e mãos espremem-na lá para dentro, é o marido que também entra deixando-se cortar pela porta quando se fecha, e a mulher senta-se nos bancos vermelhos cor de groselha porque alguém consegui mexer-se o suficiente para se levantar, roçam-se porque é impossível menos, a barriga descai, a mulher sua, eu observo tudo isto só com um olho porque não consigo virar a cabeça, e penso.
Não entendo isto.
É que renego todas as viagens todos os dias, tenta perceber, cada vez que entro naquele comboio e sinto mãos e corpos e o meu corpo ainda em pé quando tiro os pés do chão porque não consigo cair, é uma sala pintada com as cores que ferem os olhos do amarelo-torrado, do azul esverdeado frio, do vermelho – menstruação, do branco da cegueira leitosa das pessoas sem nome. E o comboio já não grita; não: eu aprendi a calá-lo, matando as pessoas uma a uma, enquanto que em cada viagem, vou só eu, com um bando de ovelhas mortas a meus pés, que latem estupidamente de vez em quando em sinais de vida que eu procuro imaginar que já não têm. Quando me vejo no meio deles, procuro sempre fazer algo de diferente que me esclareça dos demais, não empurrar como todos os outros, matar alguém para verem que eu de facto consigo sentir desespero, Ainda bem, ao menos este ainda é humano, destes cabrões amorfos é que já não podemos dizer tanto, hã, e o polícia acena em silêncio, até voltar para a sua casa no Cacém, com a cozinha a cheirar a restos de comida no prato passados por uma água chocha e a vulva quente e desinteressada de uma mulher sem maquilhagem e loira para se esconderem as brancas se abrir saudando-o como a prenda tão prometida no final do dia de trabalho. Rotina foi no que se tornou. Ou ainda caminhar mais devagar, não ligar ao metro que vem e que ainda assim me confere simpatia por não negar que é uma ratazana – toupeira que devora as pessoas numa rápida viagem matriarcal pelas suas galerias de água pingada e carris fumegantes prontos para tornar em carne esturrada a próxima ovelha, o próximo bode, o próximo boi que lambe o nariz com a sua língua não vegetariana. Mas sei que não consigo. A viagem aproxima-se do fim e imagens dos livros que ainda não escrevi e de poemas que quero escrever mas que não irei escrever, e imagens de sodomia e assaltos heróicos com espadas a mulheres quase nuas e agradecendo-me de prazer são desfeitas no ar doce e quente para nunca mais voltarem.
De maneiras a que eu saio, suava mas agora uma vaga de frio castiga-me por ter sido, de facto, tão amorfo, e o Sol está a nascer aqui de forma diferente, é quase bonito, penso, enquanto saio do comboio e me preparo, deliberadamente, para perder essa paisagem para a terra me engolir, numa pequena cidade de quiosques e lojas de bijuterias também, lá em baixo. Mas não será hoje. E o homem de que falava, de repente:
Se me senti mais humano? Senti-me mais emocionado e odiei-me ainda mais, entendes, porque fui igual, tive medo que me cortassem os tomates se fosse menos homem, senti-me molhado de vergonha no entre pernas, e pensei que nunca mais mereceria a designação de pessoa. O comboio parte, e todos os bois e ovelhas descem as escadas rolantes num atropelo imbecil de cuspidelas dadas com desprezo, mas hoje, hoje será diferente mas este dia nunca será relembrado, porque as portas se fecham, e este homem, este homem que está nos seus quarentas mas é baixo, usa um casaco de malha verde garrafa, óculos e bigode húmido, com uma pasta de trabalho igual a tantas outras, sem marca, decide cair, cair de desespero enquanto leva as mãos ao chão e deixa cair a cabeça no meio da estação, enquanto o comboio para Roma-areeiro parte e outro para Alverca entra, as pessoas olham curiosas, sim eu percebo-te, as poucas que tiveram discernimento suficiente para perceber, para o homem que primeiro está assim nesta posição de lucidez suprema, e depois decide caminhar na direcção da paisagem que eu vi e que ainda vejo, porque decidi não entrar e… observar, aprender com horror e até um súbito contentamento, o homem, e ele levanta-se, ele levanta-se e corre na direcção do comboio que já fechou as portas, e caminha indiferente num gesto abrasivo de máquina, embora quem decida fechar as portas seja um humano, e corre de forma trôpega e aparentemente ridícula, mas ele já sabe que o comboio não pára e continua a correr, e o que faz este homem correr? E ele diz.
- Não não partas por favor não partas, não nunca partas, tu não podes partir, tu não podes partir hoje, eu não te posso perder hoje, por favor não partas, não partas não partas!
Hoje hoje hoje não não partas nunca partas.
Correu, caiu, correu, caiu, chorou. E chorava enquanto implorava a um comboio que partia, para não partir. E no final de todo este raciocínio, o que é que eu senti, enquanto via o homem a encontrar-se consigo mesmo num abraço desesperado de feto?
Senti-me como um filho da puta.

sábado, novembro 06, 2004

Fly fly. The devils in your eyes. shoot shooT.

No topo da colina de fumo espreita o diabo e branco
Austero, desnudado, de chifres diabólicos, arfando. Ele
Observa:
Formas humanas distorcidas dançam à volta do fogo
filhos bastardos do prazer infernal; gritos estridentes
guitarras violentas tambores tribais choros infantis
o som da chuva.
Ácido.
O caos consome as cabanas de palha. Riscos negros.
Novamente o branco. Sinistro.
Em direcção ao castelo medieval voam as bruxas
Para um lado e para o outro. Para sempre
(o céu acizentado por onde caminham)
É lá: no espaço vazio de onde ecoam estranhas vozes
que nasce o desejo.
No canto do cenário disforme espreita, incólume e escondido,
o sol vestido de vermelho-sangue.

Vislumbra-se nas sombras a besta de negro que omina o reino.

É este: the kingdom of doom.
No recanto do subconsciente de onde nascem os infernos –
o novo apocalipse.
Desta vez mais violento a tomar conta de nós
a levar as nossas crianças para longe
por entre o nevoeiro espesso em tons de verde-rubro
tudo enegrecido pelo lápis de carvão.
Por fim percebe-se o que diziam as vozes
que se repetiam até ao limiar da insanidade
(ainda se ouvem os tambores que se aproximam).

Tomarei conta de vós.





(Pedro)

[inspirado no disco de Liars(we were wrong so we drowned) – a ver uma pintura]

quarta-feira, novembro 03, 2004

[serpentes de água]

Existiu um tempo
em que tudo era frio
como serpentes de água quadriculadas
que se enrolavam algo sorridentes
nas minhas pernas de criança



Setas
Ou línguas de vento líquido
e salgado
derrubavam-me vezes e vezes sem conta
numa dança de murmúrios
e risos
invisíveis



Mas isso era quando o frio do Inverno
me metia medo
enquanto puto



Depois
Lembro-me que baixei a cabeça
em lágrimas pastosas que pintam
as telas nos quadros de paisagens
azuis e negros
Fechei a minha mão
feita de cavilhas e algas húmidas
e estilhacei
O globo inventado que resguardava
a escola de cristal