apeteceu-me chorar.
Os dias passam, vamos ficando cada vez menos humanos. Não que isso não seja belo.. mas…às vezes. Ou seja. Tenho escrito pouco, menos, a prosa escapa-se-me e tenho medo de a magoar, torná-la mais feia, dizer Lamento no que te criei, uma ferramenta para explorar a minha psique torturada de laivos de ancião e não numa coisa bonita, para dizer coisas interessantes, úteis ou fratricidas às pessoas.
Vamos vivendo. Ficando cada vez menos humanos.
Ontem vi uma coisa quase azul escura, que era um homem, e menos do que eu, espero eu, pois eu sou um sonho de uma projecção minha que não existe.
Ainda assim… o homem era um homem, e um homem como tu e eu, será que nesse dia se tornou menos? As minhas roupas apertavam-me e o comboio, entendes, cegava-me no seu aperto de jibóia biónica enquanto as portas se fechavam.
As portas. Se fechavam. Uma jaula e um terror que adquirimos com a lucidez dos velhos babosos, sorrindo enquanto nos sentimos seguros perante um comboio que pode a qualquer momento explodir num ataque terrorista, e oh carne queimada putrefacta, oh lucidez bem vinda, se eu escapasse, se eu escapasse somente, tantos livros que ainda tenho para escrever.
Mãos empurram-me e cada cara nova que olho me odeia por fazer parte deste grande todo de ovelhas bípedes que todos os dias odeiam tudo numa habituação triste de pescoço estalado com força, enquanto entram no vagão de carne que engole, engole e engole tudo pelas suas bocas estúpidas de intolerância a humanos antes de vomitar tudo, num gesto de repulsa por ter engolido tão ignóbeis criaturas. Mãos apalpam-me o rabo, pénis erectos são tentados a serem escondidos, os seios pressionam-se contra as minhas costas e ombros, peidos, peidos estúpidos de vergonha contente por serem incógnitos fazem-me suar, e tudo isto me faz suar e a música apenas torna a atmosfera mais hipnótica, e eu odeio-me, aprendo a odiar-me a cada viagem de comboio.
Uma toada cinzenta, Amadora, percebes, quando a vejo no fim da tarde quando ando a pé por ela, entendo-a quando não estou a fugir dela, e um dia percebi a verdadeira resposta, de Amadora. É só mais uma cidade, uma cidade suja, cheia de pombos e de pretos e pessoas pobres, que morrem de vez em quando porque não vejo nunca muitos carros funerários, coberta de pó e eco pontos, e centros comerciais decadentes, percebes, Amadora é uma cidade esquecida cavada num buraco onde o Sol brilha sempre com a amarelidão do fim dos dias e do desinteresse, onde nunca nasceu nem irá nascer ninguém interessante, miúdos borbulhentos e pitas fúteis que ouvem kizomba e não percebem que são menos que uma formiga aos olhos deste mundo, morrendo e esquecidas com a rapidez do agora, já, velhas que discutem até caírem de cansaço peixes inertes nas praças cansadas que corroeram como um ácido os prédios que as albergam como ostras e cafés onde comunistas reformados esperam a morte, mas esses entendo-os eu, sabem que serão mais perenes que um rasgo eléctrico de um orgasmo.
E depois há as cores escuras ou demasiado claras dos prédios, os verdes mortiços e os azulejos pirosos de há tantos anos que dentro de si, em cada divisão, a noite escorre por todas as paredes frias como uma cuspidela de pasta de dentes quando me sinto zonzo, cães que nunca terão nome correm pelas mesmas ruas, sempre, rasgando sacos de lixo que os mendigos se esqueceram de analisar. Percebes. Amadora é isto, é uma cidade periférica esquecida ainda antes de existir, agora que existe não é sequer nada, uma borbulha de pus na vida cínica de Lisboa, onde vivem os pobres, os desinteressantes, os amorfos e os desesperados, onde cortam as árvores pela base e depois elas caem sobre os carros de oitenta e seis até ano dois mil, as garagens estão manchadas por tags ilúcidos que algum dia um filho da puta se lembrou de fazer, símbolos de crews extintas por parques cujas paredes, percebes? Foram deitadas abaixo, para “dar um maior conforto, segurança e vigilância”, mas não, é para os miúdos fugirem mais facilmente quando quadrilhas de putos de oito e dez anos perseguem com a sede de velociraptors as suas vítimas que nunca serão mais do que frustrados, e tudo isto é uma cidade feita de pó, sol que bate nas áreas grandes de descampados que não foram aproveitados para a construção ilegal em fisionomia de prédios, estádios a cair de podre, balizas ferrugentas, parques de estacionamento que se vêm do chão como cogumelos, clínicas onde se espera a loucura nos bancos de madeira clara e envernizada, para dar uma ideia de ordem em pânico que estes restaurantes, estes jardins sem cuidados que afloram entre varandas, marquises e outros jardins de outras casas que fazem ruas que não têm entrada nem saída, cujas bostas de cão que comem mais que a dona velha cantam o fim do mundo contentes por fazerem parte desta força de destruição, e quando Amadora cair, entendes, ninguém saberá, quando Amadora cair no dia em que as cidades caírem e forem varridas do mapa ninguém falará dela porque era só mais um rio de vomitado solidificado de pessoas, e prédios e ideais semelhantes a tantas outras periféricas deste país triste como uma lágrima ácida, e quando eu fujo dela…quando eu fujo dela. Sou o seu representante, e é isso que me faz querer desaparecer.
De modos a que esta viagem será mais uma viagem como as outras, a mulher grávida entrou depois de a terem empurrado, ela precisa de cuidado mas é impossível, não há espaço seuqer na carruagem para se sair, e mãos espremem-na lá para dentro, é o marido que também entra deixando-se cortar pela porta quando se fecha, e a mulher senta-se nos bancos vermelhos cor de groselha porque alguém consegui mexer-se o suficiente para se levantar, roçam-se porque é impossível menos, a barriga descai, a mulher sua, eu observo tudo isto só com um olho porque não consigo virar a cabeça, e penso.
Não entendo isto.
É que renego todas as viagens todos os dias, tenta perceber, cada vez que entro naquele comboio e sinto mãos e corpos e o meu corpo ainda em pé quando tiro os pés do chão porque não consigo cair, é uma sala pintada com as cores que ferem os olhos do amarelo-torrado, do azul esverdeado frio, do vermelho – menstruação, do branco da cegueira leitosa das pessoas sem nome. E o comboio já não grita; não: eu aprendi a calá-lo, matando as pessoas uma a uma, enquanto que em cada viagem, vou só eu, com um bando de ovelhas mortas a meus pés, que latem estupidamente de vez em quando em sinais de vida que eu procuro imaginar que já não têm. Quando me vejo no meio deles, procuro sempre fazer algo de diferente que me esclareça dos demais, não empurrar como todos os outros, matar alguém para verem que eu de facto consigo sentir desespero, Ainda bem, ao menos este ainda é humano, destes cabrões amorfos é que já não podemos dizer tanto, hã, e o polícia acena em silêncio, até voltar para a sua casa no Cacém, com a cozinha a cheirar a restos de comida no prato passados por uma água chocha e a vulva quente e desinteressada de uma mulher sem maquilhagem e loira para se esconderem as brancas se abrir saudando-o como a prenda tão prometida no final do dia de trabalho. Rotina foi no que se tornou. Ou ainda caminhar mais devagar, não ligar ao metro que vem e que ainda assim me confere simpatia por não negar que é uma ratazana – toupeira que devora as pessoas numa rápida viagem matriarcal pelas suas galerias de água pingada e carris fumegantes prontos para tornar em carne esturrada a próxima ovelha, o próximo bode, o próximo boi que lambe o nariz com a sua língua não vegetariana. Mas sei que não consigo. A viagem aproxima-se do fim e imagens dos livros que ainda não escrevi e de poemas que quero escrever mas que não irei escrever, e imagens de sodomia e assaltos heróicos com espadas a mulheres quase nuas e agradecendo-me de prazer são desfeitas no ar doce e quente para nunca mais voltarem.
De maneiras a que eu saio, suava mas agora uma vaga de frio castiga-me por ter sido, de facto, tão amorfo, e o Sol está a nascer aqui de forma diferente, é quase bonito, penso, enquanto saio do comboio e me preparo, deliberadamente, para perder essa paisagem para a terra me engolir, numa pequena cidade de quiosques e lojas de bijuterias também, lá em baixo. Mas não será hoje. E o homem de que falava, de repente:
Se me senti mais humano? Senti-me mais emocionado e odiei-me ainda mais, entendes, porque fui igual, tive medo que me cortassem os tomates se fosse menos homem, senti-me molhado de vergonha no entre pernas, e pensei que nunca mais mereceria a designação de pessoa. O comboio parte, e todos os bois e ovelhas descem as escadas rolantes num atropelo imbecil de cuspidelas dadas com desprezo, mas hoje, hoje será diferente mas este dia nunca será relembrado, porque as portas se fecham, e este homem, este homem que está nos seus quarentas mas é baixo, usa um casaco de malha verde garrafa, óculos e bigode húmido, com uma pasta de trabalho igual a tantas outras, sem marca, decide cair, cair de desespero enquanto leva as mãos ao chão e deixa cair a cabeça no meio da estação, enquanto o comboio para Roma-areeiro parte e outro para Alverca entra, as pessoas olham curiosas, sim eu percebo-te, as poucas que tiveram discernimento suficiente para perceber, para o homem que primeiro está assim nesta posição de lucidez suprema, e depois decide caminhar na direcção da paisagem que eu vi e que ainda vejo, porque decidi não entrar e… observar, aprender com horror e até um súbito contentamento, o homem, e ele levanta-se, ele levanta-se e corre na direcção do comboio que já fechou as portas, e caminha indiferente num gesto abrasivo de máquina, embora quem decida fechar as portas seja um humano, e corre de forma trôpega e aparentemente ridícula, mas ele já sabe que o comboio não pára e continua a correr, e o que faz este homem correr? E ele diz.
- Não não partas por favor não partas, não nunca partas, tu não podes partir, tu não podes partir hoje, eu não te posso perder hoje, por favor não partas, não partas não partas!
Hoje hoje hoje não não partas nunca partas.
Correu, caiu, correu, caiu, chorou. E chorava enquanto implorava a um comboio que partia, para não partir. E no final de todo este raciocínio, o que é que eu senti, enquanto via o homem a encontrar-se consigo mesmo num abraço desesperado de feto?
Senti-me como um filho da puta.

3 Comments:
Primeiro, tenho de dizer que este é dos melhores! E gostei desta parte: "engole, engole e engole tudo pelas suas bocas estúpidas de intolerância" (...) "Mãos apalpam-me o rabo, pénis erectos são tentados a serem escondidos, os seios pressionam-se contra as minhas costas e ombros, peidos, peidos estúpidos de vergonha contente". Epah é gigante, nem sei como consegui ler. Mas está muito bom, BOM mesmo. Parabéns juom dabid, noibo do meu coraçoum. * *
Raquel
David, vou te ser sincera.
mas nao tou com paciencia d ler isso tudo.
mas li um bukadinho..
so um bukadinhu.. mas parei knd me dei konta k isso nunca mais acabava.
preciso d um abraco. nao dormi nada por causa do tal filme.
beijo grande.
finalmente li-o com a atenção que lhe é devida. um tributo violentíssimo à tua cidade. que curiosamente poderia ser uma qualquer outra cidade. mesmos intervenientes - um outro nome. é dificil lê-lo ao mesmo tempo que tento discernir de quem o escreveu. aprendi por experiência própria que não somos tudo o que escrevemos levado à letra. à letra.
digo-te: está brutal. cru, apenas mais um grito de raiva. revejo-mo no teu texto, como parte dele, perdido. aliás. revejo todos entre nós no teu texto.
gostei dos desabafos. felizmente, sei que incomodaria muita gente certas coisas que escreveste. como aquela comichão irritante que não sabemos de onde vem. incomoda, entendes. gostei por isso mesmo. gostei porque me fez sentir pouco confortável, gostei porque me fez sentir.gostei.
continua assim - continuarei a gostar.
Enviar um comentário
<< Home