segunda-feira, setembro 20, 2004

Para ti. Para um dia.

Podíamos pegar num colchão duro e em alguns lençóis lavados e assustar-nos um pouco com os corpos um do outro sem pensar em muito mais a não ser no sol que desmaia e no que faremos nos momentos seguintes. E faríamos isso como se desesperadamente tentássemos recuperar a inocência que cedo perdemos, aquando da morte da nossa infância. E é assim que se cria o amor adolescente nas pausas da rotina entediante. Como se existisse uma certa ligeireza parca a conceber todos os nossos sonhos e pensamentos. Quem sabe, criaríamos ternura durante anos a fio e pelas gerações que haveriam de vir o nosso amor (ou o que quer que seja que construíssemos durante essas horas) seria sempre recordado como a tragédia romântica dos nossos tempos – apenas um pouco mais distorcida. E se estiver enganado acerca de quem somos, de pouco importará quando assinarmos a nossa carta de despedida. Rumaremos a uma nova cidade e começaremos um novo ciclo em local incerto onde seremos novamente desconhecidos e poderemos dar lugar aos ensinamentos do passado. Repetiremos os nossos passos, os mesmos erros de sempre como se fosse a primeira vez, como se soubesse bem repeti-los, como se ainda fôssemos a tempo de errar. Descansaremos os nossos velhos corpos, cansados que estarão da vida e da viagem., mas desta vez será num trono de veludo onde poderemos reinar sob os nossos destinos e cada um decidirá quem será como se nos fosse permitido usurpar identidades alheias. E havemos de conseguir. E ao apagar a luz do quarto, já teremos outras incertezas e a mesma certeza de sempre: nunca deixaremos de caminhar lado a lado, de mão dada. E nunca deixaremos de nos entreolhar…assustados.
(Pedro)

1 Comments:

At 20 de setembro de 2004 às 01:59, Blogger Navalha said...

que saudades tenho de escrever assim. muito albertiano. muito tu. as tematicas que abraças sao as mesmas que as minhas pedro...acho que ja falamos sobre isto, sei lá. a fuga, o amor em lugares estranhos. a beleza, o amor sem dizer a palavra amor. existente em todo o desespero. e tal. sei lá. está bom. quebra com a rotina.

 

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