Para ti. Para um dia.
Podíamos pegar num colchão duro e em alguns lençóis lavados e assustar-nos um pouco com os corpos um do outro sem pensar em muito mais a não ser no sol que desmaia e no que faremos nos momentos seguintes. E faríamos isso como se desesperadamente tentássemos recuperar a inocência que cedo perdemos, aquando da morte da nossa infância. E é assim que se cria o amor adolescente nas pausas da rotina entediante. Como se existisse uma certa ligeireza parca a conceber todos os nossos sonhos e pensamentos. Quem sabe, criaríamos ternura durante anos a fio e pelas gerações que haveriam de vir o nosso amor (ou o que quer que seja que construíssemos durante essas horas) seria sempre recordado como a tragédia romântica dos nossos tempos – apenas um pouco mais distorcida. E se estiver enganado acerca de quem somos, de pouco importará quando assinarmos a nossa carta de despedida. Rumaremos a uma nova cidade e começaremos um novo ciclo em local incerto onde seremos novamente desconhecidos e poderemos dar lugar aos ensinamentos do passado. Repetiremos os nossos passos, os mesmos erros de sempre como se fosse a primeira vez, como se soubesse bem repeti-los, como se ainda fôssemos a tempo de errar. Descansaremos os nossos velhos corpos, cansados que estarão da vida e da viagem., mas desta vez será num trono de veludo onde poderemos reinar sob os nossos destinos e cada um decidirá quem será como se nos fosse permitido usurpar identidades alheias. E havemos de conseguir. E ao apagar a luz do quarto, já teremos outras incertezas e a mesma certeza de sempre: nunca deixaremos de caminhar lado a lado, de mão dada. E nunca deixaremos de nos entreolhar…assustados.
(Pedro)

1 Comments:
que saudades tenho de escrever assim. muito albertiano. muito tu. as tematicas que abraças sao as mesmas que as minhas pedro...acho que ja falamos sobre isto, sei lá. a fuga, o amor em lugares estranhos. a beleza, o amor sem dizer a palavra amor. existente em todo o desespero. e tal. sei lá. está bom. quebra com a rotina.
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