domingo, julho 18, 2004

o sono.

 
As memórias esquálidas de todos os poemas e histórias que nunca escrevi ou contarei atormentam-me sempre nos piores momentos, como se eu fosse de facto a extensão de todas as minhas criações, já realizadas ou ainda por realizar. Vejo-as, no Verão de agora, passeiam-se à frente dos meus lábios e cara translúcidas, vejo-as tão bem. Locais. Num local de máquinas de aço e homens que comem a sua própria imagem reflectida, o calor sempre do fim das tarde, as janelas abertas para deixarem o ar voar entre o suor coalhado e evaporado, as palavras surgem-me como quimeras. Digo - quimeras, sei que as perderei, chegarei a casa, tomar banho, ou descansar, ou fazer nada, quando me aproximar de um papel e pegar numa caneta sei que já as terei perdido. Os poemas que nunca irei escrever ir-me-ão perseguir até ao fim dos meus dias. É engraçado, sim. Posso mostrar-vos apenas um par deles aqui no meu blog, mas bem, eles ultrapassam as centenas, julgo estar perto do meio milhar, se contarmos uma centena por cada dossier cheio, sei lá, muitos serão mau mas existem os brilhantes, e depois os baços, que serão sempre os meus favoritos. São escritos com o sono. Eu tenho algumas coisas a dizer.O sono. Deito-me sempre por volta das quatro da manhã, agora, entre as três e meia e quatro e meia da manhã. Não vou usar os jargões do género a noite é a melhor amiga do escritor ou algo assim porque primeiro, não sou um escritor nem um poeta, e depois não penso que isso seja verdade, apesar de a noite ser importante para mim. Mas a noite, ou melhor o sono, fazem coisas fantásticas, ou perto disso se quisermos admitir - pelo menos a mim. Sou cometido no meu sono moribundo mas atento por um torpor físico, sento-me à cadeira de material estranho que range, madeira ou palha não sei, madeira fina ou palha grossa, ponho às vezes música a tocar, mas muitas vezes é o silêncio que me acompanha, tiro o dossier amarelo em que estou a escrever (neste momento o 3.2), e sou imediatamente transportado para um confim de mim mesmo nada esotérico, mas que me faz modificar a minha psique de maneiras só por mim imaginadas. Não sou um génio só porque escrevo à noite e tenho um livro preparado. Aliás dois. Este tipo de linguagem amedronta e seduz à procura desse mesmo confim de cada um dos outros que são tu que lês, como se tu quisesses perder-te em ti mesmo para depois te descobrires, e eu fosse o teu guia invisível que só sabe um caminho, que é o meu, e só em mim encontra a saída possível, ou a perdição possível. Escrevo poemas de enfiada, com estilos diferentes, meia dúzia por vezes, ou antes era isso, agora nem tanto nesta última semana, e só no dia seguinte vou ver o que fiz, olho para as letras que arranhar o papel umas horas antes, e só sei que fui eu que escrevi aquilo porque aquela é a minha letra. Não é genial, é simplesmente fantástico para mim. Poemas, sono, a perdição de cada um de nós. A poesia é isso mesmo, como concluímos numa viagem de comboio à meia-noite, eu e o meu professor de português. A poesia é nada mais nada menos do que a busca racional de nós mesmos. Do abismo que existe dentro de nós mesmos. A poesia é mistificação do real, e se a poesia é um exercício introspectivo, então ela será a arte mais pura de mistificação humana. A poesia é a busca racional do abismo humano que é nosso, e como as pessoas temem esse abismo que existe dentro de cada uma de si mesmas, elas temem os poetas. Os poetas são banidos da existência humana desde a república, de Platão. O poeta é o místico irracional por excelência da raça humana, e ele encontra-se a si mesmo nos limites da sua própria divindade. O poeta é um Deus de si mesmo. É por isso que ninguém o compreende. Porque ele descobriu-se, e só ele o poderá verdadeiramente fazer. Então… eu busco-me nessas definições, nessas gargantuas de dentes farpados que são os meus próprios pensamentos, que me fazem ter medo do que estou a pensar escrever. Já cheguei, sim, a esse ponto, porque sei que me vou enfrentar e não vou ter coragem de lutar contra mim mesmo. Talvez seja então o sono. Eu já chorei com deuses. Já rasguei as asas a anjos e pintei-os de sangue negro enquanto me ria num parque e via uma qualquer minha amada a ser despedaçada por ferros arrancados por um qualquer vento ciclónico, membro a membro e rasgada de formas impossivelmente dolorosas. Já percorri o início de todos os caminhos possíveis de serem percorridos, em mim mesmo, no exterior do futuro de mim mesmo, numa viagem nostálgica ao meu passado, e por fim já me vi morrer.  E afasto-me de todos esses locais quando abandono o papel, quando abandono a busca do derradeiro Poema, da derradeira Palavra, que nunca encontrarei, enquanto me encontro verdadeiramente adormecido durante o dia que corre.Não… não sou um poeta. Não sou um escritor. Sou um homem ou a tentativa de ser um homem completo, que escreve poemas e prosa, com a necessidade de quem não comesse nunca, que bebesse as minhas próprias palavras. Como alguém que bebesse o seu sangue, nada mais. E, enquanto me sinto mais perto da verdade inatingível que pretendo alcançar, tudo se revela a mim como a resposta possível a todas as dúvidas, e sinto-me incrivelmente aliviado.E, então finalmente, paro de escrever e vou por fim dormir. Para de novo esquecer para sempre poemas que um dia criei. São esses os que mais choro.Amanhã há mais, punheteiros.